Fernando Brito: Por que FHC diz tantas asneiras?

"Fernando Henrique sabe onde está a saída – 'sem crescimento da economia, por mais que se reduzam os gastos, faltará pão às pessoas e combustível para o governo andar' – mas prefere dizer que isso vai ser alcançado com a confissão de que é 'o Estado faliu' e que só terá recursos para investir se tirar da Previdência", critica o jornalista Fernando Brito, do Tijolaço

Fernando Brito: Por que FHC diz tantas asneiras?
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Por Fernando Brito, do Tijolaço - O artigo dominical de Fernando Henrique Cardoso, neste domingo (5), é uma destas pérolas toscas da estupidez que produzem apenas aqueles que se aferram a verdades transcendentais, como fazem os que defendem o desmonte da rede de proteção social formada pelas aposentadorias como “varinha de condão” com a qual o Brasil venceria o feitiço da estagnação e luziria aos brilhos de uma nova fase de progresso.

É algo que se admitiria ouvir de parvos ou de gente que diz qualquer coisa na ânsia de servir ao sistema financeiro. Dou o exemplo da desfaçatez de Carlos Alberto Sardenberg ao falar, com a sofisticação intelectual de um “Delegado Waldir”, que a “nova previdência tira dos ricos para dar aos pobres”, sabendo que as alíquotas sobre altos salários do Serviço Público responde por apenas 0,2% do “trilhão mágico” de Paulo Guedes e que a maior parte dos outros 99,8% virá dos trabalhadores privados, com baixa média salarial.

Diz FHC que o Brasil  “precisa de crença” e  que “falta chacoalhar o país outra vez, como fez Juscelino em seu tempo e mesmo o Plano Real, e vislumbrar um futuro mais venturoso”.

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Esta crença geraria entusiasmo, que ele relembra ser, etimologicamente, ter “Deus no coração”. Faltou o “talquei”, não é? Mas, sem ironia, mostremos como é asneira o que diz.

Em primeiro lugar, não existe absolutamente nada mais distante dos pensamentos dominantes no Brasil hoje que sequer de longe se assemelhe ao entusiasmo da era JK.

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Não há qualquer plano de metas em nosso horizonte, muito menos metas que possam ser alcançadas sob a regência do poder público. Zero estradas, zero usinas, zero refinarias, zero em qualquer matéria de obras de infraestrutura. Não há investimento direto e não há pretensão de financiar o investimento privado com créditos públicos, como JK fez com o então BNDE. Não há política industrial, como houve, com ele, no setor automobilístico, na indústria metalúrgica e na naval, entre outras.

Também não há, como no período FHC, a doença da inflação galopante que servisse a legitimar o que, nos dias de hoje, é impossível legitimar: pacotes econômicos. A prateleira de artigos a vender está reduzida, à exceção das jazidas de petróleo,  a itens não monopolistas, ao contrário do que eram o setor elétrico, a telefonia e o minério de ferro, malbaratados pelo presidente falastrão.

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E também não há possibilidade de fazer a “fase prévia” que se fez nos dois primeiros, com a elevação cavalar das tarifas antes das privatizações, nem, como dito antes, de bancá-las com o crédito oferecido pelo Estado à custa de seu endividamento interno e externo, que dobrou nos anos FHC.

O “chacoalhão” a que o ex-presidente se refere, portanto, é o de transferir renda da força de trabalho – porque é dela que vêm as aposentadorias – para o capital financeiro, o único setor que vai cada vez melhor no Brasil.

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Francamente, não sei o que se passa na cabeça de alguém como ele, a quem não faltam ferramentas de compreensão da realidade, para dizer algo assim a um país que, há cinco anos, vem vivendo aos chacoalhões políticos e econômicos. O vício de colocar nas finanças os sonhos de progresso de uma nação é tão doentio  como o daqueles sujeitos que largam tudo na vida para ir jogar na Bolsa de Valores.

O que o Brasil precisa, isto sim, é parar de chacoalhar e retomar a normalidade e as perspectivas de ganhar no medio e longo prazo, com trabalho, produção e consumo, três vetores da economia que estão sendo, desde então, arruinados.  Precisa de uma reforma bancária e de uma reforma na tributação, que limite a gula dos bancos por lucros recorde em cima de lucros recorde, que taxe lucros astronômicos sem taxar os ganhos de sobrevivência das pequenas e microempresas, que estimule o crédito a longo prazo e acabe com a obscenidade de alguém pegar R$ 10 mil e, pagando quase R$ 800 por mês, um ano e meio depois esteja devendo R$ 12 mil.

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Quem tem de ser chacoalhado no Brasil é o rentismo especulativo, o país onde o “day trader” – aqueles que fecham operações de compra e venda a cada dia substituíu o velho “overnight” que se praticava nos anos 80.

O pior é que Fernando Henrique sabe onde está a saída – “sem crescimento da economia, por mais que se reduzam os gastos, faltará pão às pessoas e combustível para o governo andar” – mas prefere dizer que isso vai ser alcançado com a confissão de que é “o Estado faliu” e que só terá recursos para investir se tirar da Previdência. Faz concessões, diz que não é só isso, mas é só disso que fala.

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Vai de borzeguins ao leito, como se dizia antigamente: legitima a reforma da previdência, mas não tem a coragem de assumir a defesa de quem a faz, como o gato que quer as castanhas do fogo, mas não quer chamuscar o pelo.

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