Fernando Brito: Plano de Guedes só é possível sob uma ditadura

O jornalista Fernando Brito, do Tijolaço, afirma que as medidas anunciadas pelo ministro Paulo Guedes (Economia) cheguem "ao modelo chileno". "Que nasceu com um ditadura, lembrem-se, e contorce-se de morte na democracia", diz



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Por Fernando Brito, do Tijolaço - A leitura dos comentaristas de política e de economia tem, com mais ou menos ênfase, uma unanimidade: exceto por pedaços “selecionados” as propostas contidas no pacote de emendas constitucionais apresentado ontem por Paulo Guedes – Jair Bolsonaro não parece ter noção exata do que se propõe e logo se verá, nas primeiras reações, como lançará ao mar pedaços do plano.

O mais provável é que se cuide, apenas e com modificações, da “emergência fiscal”, versão revista e ampliada da “PEC do Teto”, descrita, na entrevista que deu à Folha na segunda-feira com um simplório ato de “apertar um botão que trava a despesa e chove receita”. Nem a despesa se pode travar com um botão, ao menos sem graves consequências para a máquina pública, nem receita cai do céu sem aumento da atividade econômica (e leva tempo) ou aumento de impostos, fatal para uma economia exangue.

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Há, no projeto, coisas que misturam lenda e desastre. A história dos fundos que se vai extinguir tem de ambos.

Será que alguém acha que há maços e maços de notas de R$ 100 reais guardados em caixinhas, somando os R$ 200 e tantos bilhões que se vai “destravar”. Esta conta é escritural, é óbvio e o dinheiro gira. Ao que parece a ideia é desvincular da receita da União os aportes obrigatórios e, na ponta dos recursos havidos, desvincular o uso em projetos de fomento hoje obrigatórios.

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Sim, porque não se tem falado no sobrenome completo destes fundos: fundos constitucionais de financiamento. Embora estes não estejam alcançados na proposta do governo, os fundos criados por leis complementares seguem a mesma dinâmica.

Da lenda, ao desastre: a depender de como será praticado o “destravamento”, corta-se o fluxo de financiamento dos investimentos, que tem caráter pró-cíclico (mais atividade, mais receita, mais aportes nos fundos, mais crédito) e abre-se a porteira para que isso seja destinado à máquina de enxugar gelo da redução da dívida pública.

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Ou seja, estes recursos não serão lançados no financiamento da economia produtiva. O caso mais gritante é o Fundo de Amparo do Trabalhador, o FAT, que vai tirar R$ 20 bilhões da disponibilidade de crédito do BNDES.

A redução do número de municípios, é a visão geral, entrou no projeto apenas para sair dele e a redução em 25% da remuneração dos servidores públicos – da qual, nem é preciso falar, excluir-se-ão as categorias “bacanas” (juízes, promotores, militares, policiais parlamentares, auditores, etc) – será mais uma fonte de conflitos e precarização ainda maior dos serviços públicos de ponta do que uma solução para as folhas de pagamento insustentáveis.

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Há muito mais coisas no pacotão para digerir, mas fico nisso, por enquanto.

O fato concreto é que as medidas seguem no sentido do arrocho e da recessão e só não serão uma imprudente guinada nas regras da economia porque, provavelmente, vão arrastar-se no Congresso. Adotadas, são um convite para que o país chegue de fato ao modelo chileno, mas este que ganha as ruas de Santiago, não o dos Chigago Boys – entre eles o próprio Guedes que fundaram a reforma pinochetiana por lá.

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Que nasceu com um ditadura, lembrem-se, e contorce-se de morte na democracia.

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