Auler prega voto útil em Haddad, em São Paulo, e em Freixo, no Rio

Jornalista lembra da eleição de 1989, quando a esquerda se dividiu no primeiro turno - entre Lula e Brizola - mas se uniu no segundo; "Vivemos um período totalmente distinto em que setores da esquerda – o PT, principalmente – foram demonizados pela mídia, com ou sem razão", escreve Marcelo Auler; "Há de se ter em mente que a esquerda tem hoje um inimigo comum: os golpistas que derrubaram uma presidente eleita democraticamente", afirma

Jornalista lembra da eleição de 1989, quando a esquerda se dividiu no primeiro turno - entre Lula e Brizola - mas se uniu no segundo; "Vivemos um período totalmente distinto em que setores da esquerda – o PT, principalmente – foram demonizados pela mídia, com ou sem razão", escreve Marcelo Auler; "Há de se ter em mente que a esquerda tem hoje um inimigo comum: os golpistas que derrubaram uma presidente eleita democraticamente", afirma
Jornalista lembra da eleição de 1989, quando a esquerda se dividiu no primeiro turno - entre Lula e Brizola - mas se uniu no segundo; "Vivemos um período totalmente distinto em que setores da esquerda – o PT, principalmente – foram demonizados pela mídia, com ou sem razão", escreve Marcelo Auler; "Há de se ter em mente que a esquerda tem hoje um inimigo comum: os golpistas que derrubaram uma presidente eleita democraticamente", afirma (Foto: Gisele Federicce)


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Por Marcelo Auler, em seu blog

A 24 horas das eleições municipais, olhando o quadro nas duas principais cidades do país – Rio e São Paulo – recordei o que vivenciamos no Rio de Janeiro, em 1989, na primeira eleição direta para a presidência da República depois da ditadura militar.

Naquela disputa, principalmente no Rio de Janeiro, onde Leonel Brizola tinha força, a esquerda se deu ao direito de se dividir no primeiro turno. Era algo até normal, depois do longo período de ressaca, sem eleições diretas, imposto pelo golpe civil-militar de 1964.

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Nas vésperas do primeiro turno, quem entrasse no Restaurante Lamas, no bairro do Flamengo, encontraria seus clientes divididos fisicamente em fileiras de mesas. De um lado, os brizolistas. Do outro, os lulistas. Praticamente todos se conheciam, afinal, lutaram juntos contra a ditadura, cada um em sua trincheira. Eram torcidas barulhentas. Cada qual gritando suas palavras de ordem e tentando superar a dos “adversários”. Foi uma bonita festa. Assim como foi acirrada a disputa entre os dois, voto a voto, até se delinear que Lula representaria a esquerda no segundo turno, contra o novato Fernando Collor de Mello, do então PRN.

O segundo turno foi uma luta desigual, tal como ocorreu agora com o golpe contra Dilma Rousseff, que feriu o Estado Democrático de Direito. A grande mídia apoiou e sustentou o chamado “caçador de marajás”. Era, segundo esta mídia tradicional e conservadora, o “salvador da pátria”, após o final desastroso do governo de José Sarney (PMDB). Recorde-se às gerações mais novas que estávamos distantes dos tempos de internet, face book e redes sociais. O forte na campanha era a televisão, tanto assim que a TV Globo, na véspera do pleito, apresentou uma reportagem toda manipulada sobre o debate dos dois candidatos, o que prejudicou ainda mais a Lula.

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Mas, ao contrário do que ocorre hoje, no primeiro turno daquele pleito, não só por conta do exagerado número de candidatos – 22 – como pelo sentimento de oposição, após anos de ditadura militar, as chances de a esquerda ficar fora do segundo turno eram pequenas. Afinal, até os conservadores de hoje, como Roberto Freire (PPS), o próprio Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – que só não apoiou Collor de Mello por conta das posições firmes de Mario Covas – apresentavam-se como tal, isto é de esquerda. Eram mínimos os riscos das chamadas “forças progressistas” não serem representadas no segundo turno.

Esta é a principal diferença das eleições deste domingo, dia 2/10, quando estarão em jogo prefeituras de cidades importantes. Vivemos um período totalmente distinto em que setores da esquerda – o PT, principalmente – foram demonizados pela mídia, com ou sem razão. Além disso, partidos que eram ideologicamente “progressistas”, como o PDT de Brizola, hoje se juntaram a políticos que não se preocupam com qualquer posição ideológica.

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Quem poderia imaginar Cidinha Campos (PDT), a deputada que nunca fugiu de uma briga, apresentar-se como candidata a vice de Pedro Paulo o candidato de Eduardo Paes, Jorge Picciani, Pezão e todos os golpistas do PMDB que desrespeitaram os 54 milhões de votos dados a Dilma Rousseff? Alguém é capaz de definir a posição ideológica do candidato? Não duvido que, apesar de cassado com a ajuda de seu antigo aliado, Eduardo Cunha continue o apoiando. Menos ainda que, em vida, Brizola e Darcy Ribeiro não permitiriam aliança com políticos que apoiaram o golpe do impeachment e com isso feriram a democracia que eles ajudaram a reconquistar, inclusive com sacrifícios pessoais.

Há de se ter em mente que a esquerda tem hoje um inimigo comum: os golpistas que derrubaram uma presidente eleita democraticamente, acusando-a de um crime que não cometeu. E o que vemos, é a esquerda, mais uma vez, se digladiar, sem se incomodar com o fato de que isso só beneficiará aqueles interessados no poder. Ajudam a políticos que antes de se preocuparem com o bem público visam seus interesses pessoais, quando não interesses escusos.

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Deixar um João Dória (PSDB) e um Celso Russomanno (PRB) disputarem sozinhos a prefeitura de São Paulo no segundo turno é algo inimaginável. O mesmo se pode dizer com relação ao Rio onde, se a esquerda não se unir – ainda que por meio do famigerado voto útil, que jamais imaginei defender – teremos Pedro Paulo (PMDB) enfrentando Marcelo Crivella (também do PRB) no segundo turno.

Perderemos a chance de levar – aqui no Rio, até mais do que em São Paulo – um representante das forças progressistas a uma disputa com possibilidades reais de conquistar a prefeitura, dada a rejeição que Crivella sempre teve por estar umbilicalmente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus.

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Não podemos esquecer que estes quatro – Dória, mesmo sem ser parlamentar, Russomanno, Crivella e Pedro Paulo –  estão do lado de Michel Temer e dos golpistas que derrubaram Dilma Rousseff. No Rio, então, a situação é mais gritante, pois esses dois candidatos se beneficiaram dela e dos governos do PT.

Crivella esteve ligado ao governo Lula, cujo vice-presidente, José de Alencar, o ajudou a fundar o PRB. Depois, foi ministro de Dilma. Pedro Paulo participou do governo de Eduardo Paes, a quem serve de “escudeiro” (e vice-versa). Um governo cujos resultados positivos que apresenta estão intrinsecamente ligados ao apoio – não apenas financeiro – dispensado pelos petistas que estavam no Palácio do Planalto.

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Curioso é que eleitores do Rio que foram às ruas gritar contra a corrupção, hoje apoiam o PMDB esquecendo-se do envolvimento de Sérgio Cabral e sua trupe nas bandalheiras que estão sendo denunciadas. Onde a coerência: e

Não resta dúvida que políticos como Alessandro Molon (Rede), Jandira Feghalli (PCdoB) e Luíza Erundina (PSOL) têm o direito de tentar com suas propostas políticas, conquistar os eleitores. Aliás, em recente encontro casual, em um lançamento de livro do Frei Betto, em São Paulo, declarei meu apoio à candidatura de Erundina, mulher de fibra, que impõe respeito pela vida coerente que sempre teve e pelas ideias que defende. É uma excelente candidata, mas não conseguiu transpor o conservadorismo dos eleitores paulistanos.

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Hoje, fosse eu eleitor em São Paulo, votaria em Fernando Haddad, com todas as críticas que tenho ao PT, porém reconhecendo a gestão dele à frente da prefeitura.

O mesmo posso dizer de Molon, outro que merece respeito por sua coerência política, retidão de caráter. Mesmo quando esteve no PT não aceitou as coligações e alianças com o lado espúrio da política fluminense, nitidamente calcados em interesses mais pessoais do que coletivos. O que marcou os petistas cariocas com a famosa alcunha de “partido da boquinha”. Mas, pelo que o próprio Molon constata na pele, sua opção partidária ao deixar o PT não encontrou respaldo nos eleitores do Rio.

Com relação a Jandira, a apoiei para senadora e me posicionei contra a perseguição que sofreu – principalmente das igrejas – pelo apoio ao aborto. Mesmo admirando sua carreira política, discordo das posições de seu partido – PCdoB – assim como discordei do PT do Rio de Janeiro, em especial nas alianças que fizeram ao longo dos anos. Alianças muitas vezes ditadas por interesses outros, como ocorreu com o apoio a Garotinho e a Sérgio Cabral/Jorge Picciani. O ideal seria que estes três se unissem ainda no primeiro turno, o que não foram capazes de concretizar.

Decisão do eleitor – Não vou sonhar com a retirada de candidaturas. Isso não costuma ocorrer e o resultado prático é desconhecido. Mas acho que o eleitor que se preocupa com questões sociais nesse país – independentemente da legenda partidária de sua preferência – precisa decidir o voto de domingo, ainda que ele seja para governo municipal, de olho na situação nacional. É dele que se espera ajudar a derrotar determinados clãs políticos, como o PMDB no Rio, de passado nebuloso, e aventureiros como Dória e Russomanno na capital paulista.

Pensando assim é que defendo publicamente o voto em Marcelo Freixo (PSOL – 50) para a prefeitura carioca e a continuidade de Fernando Haddad (PT – 13), em São Paulo. São candidatos dos quais não se pode falar mal – Haddad fez uma administração digna, voltada para os mais necessitados – e que podem representar uma caminhada à esquerda rumo a novas alianças e novos compromissos daqueles que se preocupam com o país após o golpe do impeachment. Freixo representa, com sua legenda política, a esperança de um governo voltado para atender às necessidades das camadas mais desfavorecidas da sociedade, o que não ocorreu nos governos peemedebistas. Ou seja, ambos merecem o apoio daqueles que querem mudanças profundas no modo de se governar uma cidade, um estado, um país.

Escolha dos vereadores, início das mudanças que podemos provocar

Da mesma forma deve ser a preocupação com o voto nos vereadores. Neste pleito já não há mais aquela prática de que um candidato bem votado ajuda a eleger outro de sua legenda com menor número de votos. As mudanças da legislação promovidas por Eduardo Cunha e seu grupo obrigam os candidatos a ter, no mínimo, 10 % dos votos para conquistar o mandato, mesmo que o partido atinja o chamado coeficiente eleitoral.

Do contrário, não é o partido que ficará com a cadeira do parlamento municipal. A vaga será preenchida por outro partido que tenha candidato com os 10% dos votos. Portanto, para não se votar em uma legenda e se beneficiar outra, é preciso escolher candidatos e apostar neles. Votar no número completo, e não apenas na dezena do partido.

Eleitor do Rio, tentarei levar para a Câmara Municipal a novata Cristina Biscaia (PSOL – 50130), pelas propostas dela, pelo trabalho que se dispõe fazer e por ser uma novata. Defendo sim a renovação.

Mas, confesso, que gostaria de poder ajudar outros nomes que já demonstraram nos mandatos que exerceram dignidade, compromissos com uma cidade mais justa e dedicação à luta contra as injustiças sociais que são gritantes.

Relaciono entre estes o médico Paulo Pinheiro (PSOL-50111), que já mostrou muito serviço tanto na Assembleia como na Câmara.  Outro com experiência que merece retornar ao Palácio Pedro Ernesto é o petista Reimont Luiz Otoni Santa Barbara (PT 13333). Embora seja um político integro, com passado ilibado, poderá ter dificuldades por conta da demonização dos petistas feita pela mídia conservadora, atingindo políticos sérios e honesto, indiscriminadamente. Como aconteceu com Reimont. Há, ainda, mais um novato que vale a pena ver na Câmara, até por tudo que mostrou na belíssima campanha à prefeitura , há quatro anos: Tarcísio Motta (PSOL – 50123).

Enfim, é uma questão de escolha pessoal. Mas merece atenção e cuidado para não se levar gato por lebre e depois reclamar que a política é suja e só tem corruptos.Se defendemos mudanças nos legislativos do nosso país, neste domingo, devemos começar a provocar estas mudanças, com os nossos votos, selecionando gente séria e comprometida. Com isso, estaremos derrubando velhas patotas de caciques que dominam a política há muitos anos apenas para benefício pessoal ou de seu grupo.

O apoio a Pedro Paulo significa a manutenção de um esquema conhecido dos cariocas, no qual estarão sempre Eduardo Paes, Jorge Picciani, Moreira Franco, Sérgio Cabral e Eduardo Cunha. Reflita. São os mesmos responsáveis pelo caos que se instalou não apenas no município, mas no estado como um todo. Portanto, ao confirmar o voto na maquininha, pense antes se lhe interessa manter o que aí está ou vale a pena apostar na mudança. Ela pode começar com o seu “confirma”.

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