Violência das mulheres. Um problema de identidade feminina

Liliane Daligand é psiquiatra, professora de medicina legal na França. Ela acaba de publicar La violence féminine (A violência feminina) Editora Albin Michel. Nesta entrevista, Daligand explica como a busca exacerbada de poder e de dominação dos outros - uma tendência hoje profundamente enraizada no quotidiano das pessoas - pode levar à violência.  

Violência das mulheres. Um problema de identidade feminina
Violência das mulheres. Um problema de identidade feminina


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Por Pascale Senk – Le Figaro

 

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Le Figaro –Você explora as causas da  violência das mulheres há vários anos. O que há de específico nesse fenômeno?

Liliane Daligand – Nas mulheres, a violência está realmente relacionada a uma busca de poder e de dominação dos outros. Esta equação psicológica - também presente em muitos homens – torna-se ainda mais evidente nas mulheres que se deixam tomar pelo desejo de possuir uma potência fálica que, acreditam elas, lhes daria o poder de controlar e dominar os outros. Na adolescência, em particular, essas mulheres demonstram com frequência que gostariam de absorver a força dos “caras”. Muitas adotam um estilo de vida mais masculinizado e pensam que se tivessem manifestado mais cedo esse poder seminal que procuram, não teriam experimentado os traumas pelos quais passaram.

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Algumas mulheres violentas falam alto, gesticulam, querendo ser como homens, gênero que, no entanto, elas desprezam. Exigem igualdade aos homens, e nunca dizem “fui espancada”, mas sim «eu lutei»…

A senhora diz que, com frequência, essas mulheres sofreram violências e ficaram traumatizadas. Estaria aí a raiz principal dos seus comportamentos violentos?

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Sim. A grande maioria dessas mulheres foi vítima de violência e de rejeição. Elas experimentaram um caminho que é muito parecido com o das suas vítimas. Muitas vezes, elas não tiveram um pai verdadeiro. Tiveram um pai ausente, ou desqualificado para a tarefa. A figura do pai, para elas, passa a ser desvalorizada, torna-se insignificante. Essas mulheres têm muita dificuldade para se impor como mulheres, e não se sentem seguras na sua identidade feminina.

Pais ausentes, mães indiferentes

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Mas as mães delas não as ajudaram nesse sentido?

Muitas vezes, suas mães manifestaram indiferença ao problema que as filhas estavam vivendo, ou então se posicionaram muito próximas a elas, como se fossem um espelho, não aceitando nenhuma diferença, estabelecendo uma relação do tipo «somos amigas, nós duas somos a mesma pessoa”. Nessas circunstâncias, a filha vive uma “confusão de gerações”, e se sente reduzida, sem encontrar um lugar e uma posição clara em sua própria geração. Ela não encontra seu lugar no quadro simbólico do parentesco.

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Mas, se elas são tão rígidas psiquicamente, a senhora observa que elas também são muito influenciáveis. Como isso é possível?

Sim, são muito influenciáveis. Sua falta de senso crítico está relacionado à sua imaturidade. Elas são pouco desenvolvidas psiquicamente e muito maleáveis. Têm dificuldade para se separar de uma imagem de mãe onipotente. Para se separar, elas precisam se aliar a um outro poder, no caso o de um homem, figura na qual elas se projetam e se identificam.

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