Vereadora Lucimara Passos revela que já sofreu violência sexual
“Os dois acusados que praticaram este crime contra mim estão soltos, mesmo ambos sendo julgados e condenados", disse ela; fato ocorreu em dezembro de 1999; ela estimula que mulheres denunciem, mas critica tratamento das delegacias; "posso garantir que não me arrependo. Sofri muito. Desde a hora que cheguei à delegacia, eu me senti julgada. Os policiais perguntaram ao meu marido, que era meu namorado à época, e ao meu advogado, que é meu primo, se eu não estava drogada, se eu deveria estar realmente na festa em que eu estava e se a criminosa não era eu”, conta
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Valter Lima, do Sergipe 247 – A vereadora por Aracaju, Lucimara Passos (PC do B), revelou, durante discurso no plenário da Câmara, na tarde desta terça-feira (5), que já sofreu violência sexual. Segundo relato emocionado da parlamentar, que está em seu primeiro mandato, o crime ocorreu há 13 anos, em dezembro de 1999, quando dois homens abusaram sexualmente dela.
A propósito do Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, a vereadora disse que decidiu contar o que ocorreu com ela, para que, mesmo diante da impunidade da maioria dos casos, as vítimas de violência sintam-se estimuladas a denunciar.
“Os dois acusados que praticaram este crime contra mim estão soltos, mesmo ambos sendo julgados e condenados. Todos entraram com pedido de revisão criminal, algo que eu não sabia que existia depois que um processo é transitado em julgado. Não consigo entender porque esses artifícios jurídicos ainda permeiam nossa legislação. Os recursos foram rejeitados, mas só um foi preso e apenas por um ano”, contou.
Ela prosseguiu o relato dizendo que um dos homens que praticaram o abuso, por ter uma condição social mais favorável, está solto, inclusive é funcionário do Estado e trabalha no Departamento Estadual da Infraestrutura Rodoviária – DER. “O outro condenado a sete anos de prisão foi solto, após cumprir apenas um ano, porque tinha direito a progressão da pena para regime semiaberto. Para minha surpresa, o sistema carcerário não ofereceria condições adequadas para recebê-lo e os juízes decidiram que ele iria cumprir a pena em regime aberto e desde o ano passado este cidadão está solto”, disse.
Neste contexto, a vereadora questionou com ela pode, enquanto parlamentar e figura pública, “olhar e falar para mulheres que foram vítimas de violência – sexual ou doméstica – que vale a pena denunciar?”. “Posso garantir que não me arrependo. Sofri muito. Desde a hora que cheguei à delegacia, eu me senti julgada. Os policiais perguntaram ao meu marido, que era meu namorado à época, e ao meu advogado, que é meu primo, se eu não estava drogada, se eu deveria estar realmente na festa em que eu estava e se a criminosa não era eu”, afirmou.
Para Lucimara, não é suficiente ter uma delegacia especializada para mulheres, pois ela defende que todas as unidades de polícia estejam preparadas para situações como a que ela viveu. “Acontece com mulheres, com negros e com homossexuais, que sofrem discriminação e violência, mas as delegacias não estão preparadas para receber estas pessoas”, afirmou.
Ela contou ainda que investigou, por conta própria, a vida de um dos acusados e descobriu que ele já havia cometido o mesmo crime outras vezes e ainda assim estava solto. “Este fato ocorreu há 13 anos e eu sofro ainda pelo ocorrido. Durante anos, uma das minhas filhas me perguntava porque eu estava chorando em determinados momentos e eu dizia para ela que não podia contar. Hoje, ela ficará sabendo”, disse.
“Como nós vamos garantir justiça, proteção e que a denuncia de fato tenha efeito? Infelizmente, hoje, a sociedade, a política, os poderes ainda não garantem tudo isso que acabei de dizer. Isso não significa que as mulheres não devem lutar. Espero que esse relato fique guardado na mente de todos os vereadores e na hora de votar sobre questões relacionadas a este tema não levem em conta se são de direita ou de esquerda, mas pensem em quem sofre a agressão”, afirmou.
Ao final, a vereadora volta a reforçar a importância da denúncia. “Nada do que ocorre nas nossas vidas que nos faça sentir ofendidos deve ser colocado de lado, deve ser esquecido. A partir desse processo eu decidi que nenhuma agressão a mim feita passaria incólume. Mesmo com todas as dificuldades, vale a pena denunciar”, ressaltou.
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