Valério Luiz e a cultura de paz

A morte brutal do radialista de Goiânia nos leva a perceber, novamente, a proximidade com a barbárie que sempre toca a nossa sociedade



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No século 20, o mundo ocidental passou por duas grandes guerras e diversos países sofreram com guerras civis, que ainda são realidade em alguns lugares. São tragédias que causaram inúmeras mortes, famílias destruídas e sequelas irreversíveis. Algo muito doloroso. O Brasil não passou, oficialmente, por uma guerra civil, mas teve seu período de ditadura encerrado no início dos anos 1980, quando, além de situações de violência, direitos políticos e de liberdade de expressão foram cerceados de forma muito agressiva.

Falar desses fatos como realidades que estão longe de nós ou fazem parte de um passado cada vez mais longínquo pode gerar um alívio, uma falsa sensação de segurança e de paz. Mas não é esta a realidade: a violência está perto de nós. Segundo a Delegacia de Investigações de Homicídios, o número de assassinatos em Goiânia no primeiro semestre deste ano foi de 271, sendo que 55 pessoas foram mortas no mês de junho. Números "dignos" de uma guerra civil não declarada.

Mesmo quando se apontam índices, a realidade pode ainda estar longe de alcançar nossas consciências. Mas a violência não deixa de nos alcançar. Em setembro do ano passado, meu irmão, um jovem de 18 anos, foi assassinado numa tentativa de assalto. A situação violenta chegou mais perto de mim do que eu poderia imaginar: meu irmão, Mayk Henrique Borges Gomes, incluído nas horríveis estatísticas!

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Será que a violência só deve ser uma preocupação quando nos afeta dessa forma abrupta? Tenho certeza que não. Proponho a construção de uma cultura de solidariedade e paz como resposta a isso. Diante de cada pessoa que morre, de cada um dos que já foram assassinados neste ano em nossa cidade, devemos fazer uma reflexão sobre os rumos que nossa sociedade está tomando.

O filósofo alemão Theodor Adorno, tempos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, afirmou que "a exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação". Segundo ele, a educação deveria ser capaz de fazer com que a barbárie ocorrida nos campos de concentração durante a guerra não voltasse a ser cometida. O pensador mobiliza a sociedade para uma educação civilizatória capaz de mudar os seres humanos e não permitir que "Auschwitz" voltasse a acontecer.

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Ainda não foi iniciada uma nova guerra mundial, com toda a situação de extermínio e genocídio, que seria a terceira na horrenda lista de guerras envolvendo dezenas de países. Mas, em outro sentido, a violência cotidiana das grandes cidades e o número de assassinatos levam à sociedade a uma preocupação de igual amplitude. Estamos em meio a uma grande guerra que nos é entregue em pequenas parcelas.

Diante dessa realidade, o aviso da exigência da educação se encaixa de igual modo. A educação para a cidadania, para a cultura de solidariedade e para a geração de paz é a solução para o enfrentamento dessas situações. O sentimento de que fazemos parte de uma mesma família, de que uma morte violenta de um cidadão não é de alguém distante, mas de uma pessoa próxima a nós e que merece nossa preocupação. Cada jovem assassinado, por exemplo, é sinal de que ainda não estamos vivendo plenamente em uma cultura de paz, pois uma vida foi impedida de seguir adiante.

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Na época da ditadura militar no Brasil, agentes agitavam com violência em questões de cerceamento da liberdade de expressão e de imprensa. Essa situação violenta também não está longe de nós. Em nossa cidade, assistimos, atônitos, ao assassinato do cronista esportivo Valério Luiz, ao que tudo indica, por seu posicionamento, suas opiniões. Um absurdo dos absurdos.

A morte brutal de um comunicador nos leva a perceber, novamente, a proximidade com a barbárie que sempre toca a nossa sociedade. Ainda há falhas que insistem em saltar diante de nossos olhos. A morte de Valério chama a atenção e preocupa por aumentar o número de mortes violentas e também por ser uma retaliação a todos aqueles que trabalham expondo sua opinião.

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Quem vive do jornalismo lida com a opinião em seu dia a dia. Ou seja, expressar-se e posicionar-se faz parte, em grandes momentos, do essencial da profissão. A situação que acompanhamos é uma coação a todos os profissionais da comunicação. É preciso restaurar a liberdade de imprensa e de expressão que foram atacadas fortemente nesse caso.

Diante desses questionamentos, a cultura de paz — reforço aqui — deve ser de restauração da convivência social como espaço de solidariedade e de paz. Nossos hábitos particulares devem levar em conta um compromisso amplo com os demais. A mudança que pode nos ajudar a encaminhar para resolução de problemas é a de uma consciência de que tudo nos afeta e de que contribuímos para transformar o mundo do qual fazemos parte.

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O assassinato de alguém é a morte simbólica de algo em mim e um sinal de falha no projeto de civilização no qual estou inserido. A execução de um profissional da comunicação afeta toda a imprensa e seu trabalho de fiscalização social e de geração de transparência. Ou seja, colocar as situações mais próximas do contexto pessoal pode nos ajudar a construir o projeto de uma sociedade mais pacífica.

Tayrone di Martino é jornalista

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