Transplante de mãos. Garoto já usa seus novos membros com sucesso
O primeiro transplante das duas mãos pediátrico do mundo foi realizado em um menino de oito anos de idade, e, após 18 meses de seguimento, os médicos estão cautelosamente otimistas sobre o prognóstico dele, de acordo com um artigo publicado on-line no The Lancet Child & Adolescent Health.
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Por: Troy Brown
Fonte: Revista Lancet Child & Adolescent Health
"Nosso estudo mostra que a cirurgia de transplante das mãos é possível quanto realizada cuidadosamente, e com o apoio de uma equipe de cirurgiões, especialistas em transplante, terapeutas ocupacionais, equipes de reabilitação, assistentes sociais e psicólogos", disse a Dra. Sandra Amaral, da divisão de nefrologia do Children's Hospital of Philadelphia, Pennsylvania, em um comunicado à imprensa do Lancet.
"Dezoito meses após a cirurgia, a criança está mais independente e capaz de completar atividades do dia-a-dia. Ele continua a melhorar enquanto realiza terapia diária para aprimorar a função das mãos, além do suporte psicológico para ajudar a lidar com as demandas da cirurgia".
Amputação dos quaro membros
O garoto, Zion Harvey, de Baltimore, Maryland, contraiu sepse estafilocócica com lesão sistêmica isquêmica aos dois anos e subsequentemente foi submetido a amputação nos quatro membros, além de desenvolver insuficiência renal. Ele recebeu um transplante de rim da mãe, Pattie Ray, aos quatro anos. Os cirurgiões o selecionaram para o procedimento nas mãos, pois ele já estava recebendo terapia imunossupressora para evitar a rejeição do rim.
"Um psicólogo infantil, farmacêutico de transplante pediátrico e assistente social avaliaram a prontidão psicossocial para a realização da cirurgia e para o período prolongado de reabilitação, história de adesão médica, e a habilidade da família de prover apoio social e logístico", escrevem a Dra. Sandra e colaboradores.
"A criança e a mãe, a cuidadora principal dela, mostraram resiliência durante a doença crítica inicial, diálise peritoneal e transplante renal, e não foi identificada nenhuma contraindicação psicossocial ao transplante".
Zion Harvey e sua irmãzinha Zoe, antes do duplo transplante de mãos a que foi submetido em 2015.
Antes da cirurgia, a criança tinha habilidade restrita para se vestir, se alimentar e tomar banho, e necessitava de equipamento especializado. Os objetivos da mãe para ele após a cirurgia eram de que ele fosse capaz de se vestir, escovar os dentes e cortar alimentos de forma independente. A criança esperava conseguir brincar se pendurando e usar um taco de beisebol.
Órgãos doados apropriados ficaram disponíveis em julho de 2015 e quatro equipes médicas trabalharam simultaneamente nas mãos do doador e no menino por 10,5 horas.
Algumas horas após a cirurgia a criança precisou de revisão vascular da artéria ulnar. Ele não apresentou outras complicações vasculares pós-operatórias imediatas.
Terapia ocupacional diária
Ele começou a terapia ocupacional diária seis dias após o transplante. A terapia incluía videogames e exercícios atrativos usando luzes e fantoches nos dedos, assim como escrita e atividades de vida diária. Ele e a mãe receberam apoio emocional regular de psicólogo e assistente social, que também ajudaram no plano de retorno à escola.
"A evolução do paciente foi complicada por vários episódios de rejeição do enxerto, infecções sistêmicas leves, prejuízo funcional moderado do transplante renal, hiperlipidemia, necessidade de anticoagulação crônica com aspirina em baixas doses, necessidade de mais imunossupressão do que era preciso antes do transplante de mãos, meses de reabilitação intensa e um período prolongado de tempo até a recuperação funcional a um nível pré-transplante", escrevem os pesquisadores.
A criança foi capaz de usar os ligamentos dos próprios membros residuais para mover os dedos dentro de dias após o transplante, e os nervos das mãos cresceram o suficiente para que ele pudesse movê-las e sentir o toque dentro de aproximadamente seis meses. Imagens cerebrais funcionais mostraram que o cérebro desenvolveu vias para controle do movimento das mãos e sensação de toque.
Ele foi capaz de se alimentar e segurar uma caneta nos primeiros seis meses, usar uma tesoura e giz de cera com oito meses, e balançar um taco de beisebol com as duas mãos em um ano da cirurgia.
O transplante de mãos não é um procedimento para salvar uma vida, então a decisão de submeter uma criança a medicamentos contra rejeição por toda a vida, incluindo corticoides, não pode ser tomada de forma leviana, escreve o Dr. Marco Lanzetta, do Institute of Hand Surgery, em Monza (Itália), do Departamento de Ortopedia e Microcirurgia da University of Canberra(Austrália), e do Departamento de Ortopedia da Ludes University (Suíça), em um comentário anexo.
Sem problemas clínicos
"Após o transplante de rim, essa criança estava em um protocolo anti-rejeição sem corticoides, que incluía micofenolato mofetil e tacrolimus, com função renal normal (creatinina sérica de 0,4 mg/dL). Não tomar corticoides é uma enorme vantagem para se evitar efeitos colaterais com necrose óssea e retardo do crescimento no pós-transplante", escreve o Dr. Lanzetta.
"No momento do enxerto de mão, o paciente não tinha problemas clínicos. Após o segundo transplante, por conta da necessidade de aumento da terapia imunossupressora, o que incluiu esteroides, a concentração de creatinina sérica mais que dobrou. Ele está no momento em terapia quádrupla que inclui sirolimus, em uma tentativa de diminuir a nefrotoxicidade", explica.
Avanços na tecnologia de próteses complicam o cenário, diz o Dr. Lanzetta.
"Nós agora temos disponíveis diferentes tipos das tão faladas próteses biônicas, nas quais o movimento é muito menos mecânico e mais controlável, com flexão e extensão suaves e independentes dos dedos. Elas são muito leves, com boa estética, e podem ser equipadas com sensibilidade. Na visão desses desenvolvimentos, pode-se argumentar que é muito tarde para se tentar o transplante heterólogo de mãos em pediatria, uma vez que as próteses são agora muito sofisticadas. De forma semelhante, pode-se argumentar que é muito cedo para que esse procedimento prossiga sem as tão necessárias novas drogas imunossupressoras".
Um coautor relata ter recebido fundos para pesquisador da Eisai fora do trabalho submetido. Um coautor relata apoio não financeiro da Pfizer fora do trabalho submetido. Um coautor relata fundos de Hansjörg Wyss e do Departamento de Defesa dos EUA durante a realização do estudo. Os demais coautores e o Dr. Lanzetta não relataram conflitos de interesses relevantes.
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