Superbactéria revela disputa política na Saúde

Em audiência pública promovida pela Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do RS (AL-RS), houve divergência sobre o número real de pacientes infectados e fortes trocas de acusações entre gestores do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição (ASERGHC)

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Rachel Duarte
Sul21 - A possível ameaça à saúde pública com o surgimento da bactéria NDM-1 no Hospital Conceição, em Porto Alegre, revela também uma disputa política e partidária envolvendo a gestão da Saúde no Rio Grande do Sul. O possível surto de infecção no hospital, iniciado no começo do mês com o aparecimento da bactéria indiana até então inédita no país, foi motivo de debate entre gestores do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição (ASERGHC), nesta quarta-feira (22). Em audiência pública promovida pela Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do RS (AL-RS), houve divergência sobre o número real de pacientes infectados. E também fortes trocas de acusações.

A ASERGHC denunciou a existência de 160 casos no Hospital Conceição. “Nossos dados são baseados em documentos com timbre do GHC que foram fornecidos pelo diretor técnico nas reuniões do Conselho Administrativo do Hospital”, alega o representante da associação, Valmor Guedes. Já o diretor-superintendente do GHC, Carlos Eduardo Neri, apresentou outros dados, que garantiu serem oficiais. “A denúncia de 160 pacientes infectados foi desmascarada logo que foi divulgada.

Inclusive houve manifestação da Vigilância Sanitária estadual e da Anvisa. É um absurdo o número divulgado. Vamos responsabilizar quem disparou o pânico na sociedade de forma generalizada”, disse, salientando que apenas sete pessoas tiveram infecção por conta da bactéria. Os dados do diretor pertencem ao Serviço de Controle de Infecção do Hospital Conceição, órgão que abastece a Vigilância Sanitária e a Anvisa.

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A diferença técnica dos números pode estar no fato de que a colonização da bactéria nos pacientes não está proporcionalmente ligada a uma futura infecção. Segundo o diretor Neri, nem todos que possuem a superbactéria irão desenvolver a infecção. “Os níveis de infecção variam entre infectados com doença e os que estão colonizados e portando a bactéria em algum lugar do corpo, mas que não precisam ser medicados. Porém, estando no mesmo ambiente do hospital que os demais infectados, o risco de contaminação é muito grande”, rebate o servidor do hospital Valmor Guedes.

O diretor discorda, alegando que é normal o surgimento da NDM 1 em hospitais, normalmente em Unidades de Tratamento Intensivo (UTI), em pacientes com situações específicas, ligados a sondas, cateteres e equipamentos externos em geral.

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“Essas pessoas já estão mais suscetíveis, então quando elas também estão sendo tratadas com antibióticos, pode surgir a colonização dessa bactéria (mais resistente)”, explicou. Segundo ele, um plano de redução dos índices de mortalidade por infecção hospitalar já está sendo aplicado desde o ano passado e teve influência no baixo número de pacientes que desenvolveram doenças ligadas à superbactéria. “Fazemos um processo de busca constante, por sermos um hospital sentinela. Com isso, identificamos os casos de forma precoce”, explica Carlos Eduardo Neri.

Funcionários alegam que superbactéria é reflexo da gestão política do GHC

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Desde janeiro, o Ministério da Saúde ampliou as medidas de vigilância no Grupo Hospitalar Conceição devido à presença de uma bactéria de outra família, a KPC, que também é resistente a antibióticos. A Agência de Vigilância Sanitária já avisou os hospitais brasileiros a respeito da bactéria, e já existem laboratórios aptos a identificá-la no país. No começo desta semana o Hospital Santa Casa, também em Porto Alegre, apresentou um caso da superbactéria NDM1. Porém, a ASERGHC alega que o caso do Hospital Conceição resulta de uma má gestão e os riscos seriam menores se não houvesse a terceirização do serviço de limpeza. “Somos completamente contra a gestão do GHC, (que é conduzida) de forma partidária e com cargos sem preparo técnico. Diante de casos de risco de mortalidade de pacientes como este quem corre o risco de ter o exercício da profissão cassado somos nós, os profissionais da saúde”, diz o funcionário Gilson Ricardo dos Santos.

Segundo dados da ASERGHC, em 2011 foram 17 casos de pacientes infectados no hospital e em 2012 o número saltou para 117. Já os dados oficiais do GHC são de que houve apenas oito casos em 2011 e 34 em 2012. Mesmo com a divergência, a explicação sobre os números e as condições sanitárias do Hospital Conceição não foi o foco da manhã de debate na audiência pública na Assembleia. Por três horas, representantes dos sindicatos de saúde e de funcionários do hospital dispararam para todos os lados. Acusações de partidarização na gestão da instituição de saúde e de uso partidário de entidades para defender “o patrão” foram repetidas diversas vezes, nas mais variadas roupagens argumentativas.

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“Esta terceirização do serviço de limpeza em pleno Bloco Cirúrgico aumentou os índices de infecção para os níveis atuais, que geraram o surgimento desta superbactéria. E todos que estão aqui são cientes disso. Só a claque trazida para aplaudir os patrões que não”, disparou o presidente da ASERGHC, Arlindo Ritter. Ao subir para compor a mesa de autoridades, o deputado estadual Adão Villaverde (PT), cochichou algo no ouvido do presidente. “Ele está me ameaçando de ação judicial, de dizer coisas sem provar”, falou Arlindo Ritter após o cochicho. O deputado petista negou que tivesse dito algo nesse sentido. O clima se agitou no Teatro Dante Barone e a audiência teve que ser suspensa por alguns minutos.

Clima quente da discussão pode ter relação com eleição sindical

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Para o presidente do Sindisaúde, Gilmar Franco, há uma disputa em nome da associação dos funcionários do hospital supervalorizando o episódio da superbactéria. “É um grupo que está disputando a próxima eleição do Sindisaúde, mas esteve ao lado da atual direção do GHC na última eleição. Este debate é político. Na hora que estávamos lutando para aprovação dos 12% para Saúde para a emenda parlamentar de R$ 450 milhões para hospitais filantrópicos na AL-RS, este grupo não estava aqui”, falou.

Para o representante do Conselho Nacional de Saúde, Wilson Lopes, a discussão sobre a terceirização e cobrança de plano de carreira para os servidores do hospital tem espaço no Conselho e não deveria ser misturada com o episódio da bactéria.

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“Isto é terrorismo com os usuários e um ataque ao SUS e a saúde pública, porque o Hospital Conceição hoje é 100% SUS”, alegou.

A promotora de justiça Marines Hashmann também reconheceu que o interesse do capital pode estar por trás do debate político instalado no estado com o surgimento da bactéria, mas que o foco tem que ser o usuário do sistema e o controle da saúde público no estado. Para isso, atacou a escolha da terceirização. “Eu sou contra a terceirização. É sinônimo da precarização do serviço público e contra o princípio constitucional da valorização dos trabalhadores. É lógico que o capital está interessado no insucesso da saúde pública, mas o funcionalismo tem resistido”, avaliou.

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Sobre a escolha pela terceirização, o diretor-superintendente do GHC, Carlos Eduardo Neri, disse que sofreu influencia do contexto de pleno emprego em Porto Alegre, mas que já solicitou ao Ministério do Planejamento mais cargos para servidores próprios. “O pleno emprego faz com que tenhamos uma rotatividade maior nas áreas de remuneração mais baixa. Isso gerava o risco de que as empresas de terceirização não conseguissem nos fornecer o número de funcionários necessário.

Identificamos esta situação de necessidade de contratação de servidores próprios para bloco cirúrgico, UTI e outras áreas. Fizemos esta solicitação em abril para o Ministério do Planejamento que está sendo avaliada pela Casa Civil agora”, afirmou.

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