Professores em greve cobram pagamento do piso
Docentes protestaram em frente ao Palácio Piratini pelo pagamento do piso e por melhorias na estrutura das escolas gaúchas; manifestação reuniu mais de mil pessoas nas ruas; paralisação dos professores estaduais deve seguir até quinta-feira
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Sul 21 - No início da tarde desta terça-feira (23), mais de mil professores, funcionários e simpatizantes participaram do ato organizado pelo CPERS para cobrar o pagamento do piso pelo Governo do Rio Grande do Sul e melhorias na estrutura das escolas gaúchas. A manifestação, que trouxe centenas de professores do interior para Porto Alegre, marca o início no RS da greve nacional da categoria. A concentração se deu na frente do próprio sindicato, na Avenida Alberto Bins, e logo os manifestantes partiram em marcha para a Praça da Matriz – mais precisamente, para a frente do Palácio Piratini.
Desde os primeiros minutos de mobilização, quando as bandeiras ainda se ajustavam à multidão e o caminhão de som ensaiava os primeiros cânticos, o alvo do protesto ficou evidenciado, e nisso não houve qualquer surpresa: as reclamações se dirigiam ao governador Tarso Genro (PT), nome presente em boa parte dos gritos que se estenderam pela tarde. Do microfone, ainda antes da multidão colocar-se em marcha, saltaram as duas principais reivindicações do ato: a urgência no pagamento do piso salarial para a categoria e a atenção para as condições de estrutura das escolas, principalmente as do interior.
Na medida em que a marcha percorria o Centro de Porto Alegre, mais pessoas se juntavam ao bloco, que teve boa aceitação dos observadores da região. No trajeto em direção à praça, o grupo recebeu uma chuva de papel picado que surgiu do alto de um prédio da Rua Doutor Flores. Na mesma rua, vários trabalhadores deixaram o comércio de lado por um momento para observar a movimentação. De terno e gravata, o porteiro de um prédio comercial demonstrou simpatia com a causa dos professores: "a gente vê passar muita marcha aqui no Centro, e nem concorda com todas elas. Mas essa eu acho muito válida. Até porque foi esse pessoal que elegeu o Tarso".
As bandeiras do CPERS e da central sindical Conlutas constituíram, de forma visível, ampla maioria no ato, mas partidos políticos, como o PSOL e o PSTU, também se fizeram presentes – e suas bandeiras estiveram bem posicionadas durante todo o tempo. Para marcar a presença do interior, representantes dos núcleos do CPERS levantavam placas com o nome de cada cidade. Muitos atravessaram a madrugada para participar da manifestação na Capital. A professora Ana Dorneles, de Alegrete, embarcou para Porto Alegre às onze horas da noite de ontem. Para ela, além do pagamento do piso, o que motivava a participação no ato era a estrutura da Escola Farroupilha, da sua cidade. Ana conta que a escola tem um andar do prédio interditado desde o final do ano passado, e que desde então faltam salas de aula.
Desde ontem à noite, ônibus chegaram de todos os lados do Rio Grande do Sul. Volnei, professor em Faxinal do Soturno, na Região Central do estado, conta que o pedido por melhorias faz parte da luta: "a escola em que trabalho hoje está em boas condições, mas porque economiza o ano inteiro para se manter funcionando. Parte dos repasses do governo não chegam". No meio do caminho que levava ao Piratini, o carro de som respondeu ao comunicado da Secretaria de Educação, na qual o governo pedia o comparecimento dos alunos nas aulas de hoje, apesar da chamada do sindicato para a greve. Do microfone que comandava a caminhada, saiu o grito de que "hoje nós vamos dar aulas sim, nas ruas do Rio Grande do Sul".
Durante o ato, a diretoria do CPERS afirmou que 80% das escolas da rede pública estadual, que reúne 2.574 escolas, ficaram sem aulas nesta segunda-feira. A Secretaria de Educação, por outro lado, informou um percentual significativamente menor: cerca de 45% das escolas teriam registrado paralisação no dia de hoje. Na Avenida Borges de Medeiros, já na parte final da caminhada, uma senhora que se definiu como professora aposentada saudou os manifestantes: "apesar desses protestos não mudarem nem um centímetro da realidade, eu apoio. Essa gente caminha tanto porque tem amor pela profissão".
A chegada da marcha às imediações da Praça da Matriz fez com que os representantes do sindicato no carro de som evocassem a lembrança de manifestações antigas: "essa praça sempre foi nossa", gritaram no momento em que os professores buscavam um espaço perto do Palácio Piratini. No local, a entrega de panfletos fez com que setores de oposição ao sindicato também se expressassem. Assinado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), um dos papeis critica o motivo – e a hora – da viagem da diretoria do CPERS a Brasília, marcada para esta semana : "a direção do CPERS estará em Brasília, no meio da nossa greve nacional, numa marcha que não defende o Piso e é feita de encomenda para atacar organizações construídas pelos trabalhadores em luta. Para nós isso é inaceitável!".
Já na praça, discursos curtos – e críticos – encaminhavam o ato para o encerramento. No momento em que Rejane de Oliveira, a presidente do CPERS, iniciava o discurso final, parte dos professores já preparava a viagem de volta. Para muitos, a terça-feira de protestos ainda reservava várias horas de estrada. Antes que Rejane alcançasse o microfone, do caminhão de som soou o aviso: "o ato não se encerra aqui, é uma trégua, e ainda temos mais dois dias de greve". Amanhã, novas mobilizações devem ocorrer em Porto Alegre e no interior.
Em seu discurso, Rejane afirmou que o ato serve como nova manifestação de força da categoria, e que "não dá para contar a história da luta dos trabalhadores no Rio Grande do Sul sem falar nos professores". A presidente lembrou que a pressão do sindicato durante o governo de Yeda Crusius (PSDB) se manteve no governo Tarso Genro, e que independe de quem estiver no poder: "a categoria enfrentou Yeda, enfrenta Tarso e irá enfrentar quem não respeita a educação e os trabalhadores". Por último, disse que o governo que assinou a "Lei do Piso" "não honra a própria assinatura" e que os professores precisam seguir mobilizados. Os professores da rede estadual devem continuar em greve até quinta-feira (25).
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