Pai de vítima da Boate Kiss, vê decisão do MP como ‘ironia muito grande’
Flávio Silva definiu a notícia divulgada na tarde de segunda-feira como "uma ironia muito grande" - ele fez referência ao anuncio do Mp de que pedirá absolvição para pais de vítimas da Kiss processados por promotores, que alegaram calúnia por parte de pais de vítimas; Silva é pai de Andrielle Silva, uma das vítimas do incêndio na Boate Kiss, e presidente do Movimento do Luto à Luta; "O Procurador-Geral [de Justiça do Rio Grande do Sul, Fabiano Dallazen] cita que um dos motivos seria que os promotores já estariam satisfeitos porque nós paramos com as cobranças e com as críticas. Isso não é verdade. A gente continua criticando e cobrando isso aí dia-a-dia", diz Flávio
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Gregório Mascarenhas, Sul 21 - Flávio Silva definiu a notícia divulgada na tarde de segunda-feira como “uma ironia muito grande”. Ele é pai de Andrielle Silva, uma das vítimas do incêndio na Boate Kiss, em janeiro de 2013, e presidente do Movimento do Luto à Luta. A novidade é que o Ministério Público Estadual anunciou, ontem, que vai pedir a absolvição de três pais de vítimas – Flávio entre eles – processados por três promotores de Santa Maria por calúnia e difamação.
Em entrevista ao Sul21, Flávio diz que vê a decisão do MP – e todas as decisões que partem do órgão – com “um pé de apoio atrás”. “O Procurador-Geral [de Justiça do Rio Grande do Sul, Fabiano Dallazen] cita que um dos motivos seria que os promotores já estariam satisfeitos porque nós paramos com as cobranças e com as críticas. Isso não é verdade. A gente continua criticando e cobrando isso aí dia-a-dia”, diz Flávio.
A Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) também se manifestou, em nota. Eles dizem que embora devam aguardar para conhecer o conteúdo e o teor dos pedidos do MP, o reconhecimento – mesmo que tardio – do “abusivo processo contra pais que manifestaram seu sentimentos de injustiça” é importante “para seguirmos mais fortes na luta por Justiça”.
Houve, para Flávio, uma consequência da pressão social pelo fim do processo contra os pais. Ele e o presidente da AVTSM, Sérgio da Silva, foram processados porque denunciavam – inclusive com cartazes espalhados pela cidade – que o Ministério Público sabia de irregularidades em relação à segurança na cidade. Foi pedido, então, pelo advogado de defesa, a faculdade jurídica da “exceção da verdade”, isto é, que o MP investigasse a conduta de seus promotores para verificar a factualidade da alegação dos pais. A decisão pelo pedido de absolvição partiu, inclusive, dos três promotores responsáveis pelos processos contra os pais.
Paulo Carvalho, um pai que questionou a conduta dos promotores Joel Dutra e Maurício Trevisan em um artigo publicado em jornais locais, também foi contemplado pela decisão de ontem do MP; o caso da aposentada Marta Beuren – que é processada por injúria, difamação e falsidade ideológica pelo ex-promotor João Marcos Adede y Castro e seu filho, o advogado Ricardo Castro –, por se tratar de um promotor aposentado, não tem relação com os anteriores e portanto não é abrangido.
Eu acho uma ironia muito grande eles falarem que estão nos perdoando. A gente perdoa uma pessoa quando ela nos pede perdão ou quando ela está precisando do nosso perdão – o que não é o nosso caso agora. A gente viu que o que o MP quer é reverter a imagem que ficou deles nos últimos tempos. As cobranças por parte das pessoas que aderiram à campanha #SomosTodosPaisKiss repercutiram muito.
Para Flávio, todavia, o pedido de absolvição “não muda em nada” sua situação, pois o objetivo do processo de exceção da verdade seria provar que o MP tinha conhecimento “de todas as irregularidades da casa noturna e não moveu uma palha para que ela fosse fechada”.
Ele acredita que a reportagem do jornalista Marcelo Canellas, veiculada pelo Fantástico ainda neste mês, também contribuiu para pressionar o Ministério Público pelo fim do processo: “depois daquela reportagem, com áudios do promotor [nos quais ele diz que acreditava haver ‘mutretas’ na relação entre Mauro Hoffmann, um dos donos da boate, e a Prefeitura de Santa Maria], houve uma repercussão do caso muito grande e isso foi um ponto muito negativo para o Ministério Público”.
Antes da decisão de absolver os pais, houve uma votação para deliberar a respeito da continuidade do processo, e apenas dois desembargadores, Rui Portanova e Gelson Stocker, acataram o pedido dos pais, em uma totalidade de 20. “O desembargador Rui Portanova não só votou, mas justificou o porquê de ter acatado o pedido de exceção da verdade. Ele relata que o desembargador Silvio Batista Neto, relator do processo, e os outros desembargadores, cometeram equívoco muito grande. Pior é que mesmo tendo ouvido o relato do promotor Portanova, perguntados se mudariam o voto, nenhum esboçou resposta. Isso entristece, saber que um ser humano, mesmo que eles sejam desembargadores, promotores ou juízes, não consegue ter humildade para reconhecer que se enganou”.
Houve, durante o processo, um fato insólito: Kiko Spohr, um dos donos e o principal responsável pela Kiss, foi chamado como testemunha informativa no processo contra Flávio. Isso porque ele afirmou, em juízo, que o Ministério Público sabia das irregularidades a respeito da segurança na casa noturna. “Tomarem depoimento dele como informante não tem problema nenhum. Só que não foi reconhecido pelo Tribunal de Justiça do Estado, e isso nos deixa muito frustrados”, lamenta Flávio.
O objetivo dele é seguir tentando provar que o Ministério Público conhecia as irregularidades no prédio da Boate Kiss: “para nós, está tudo bem. A gente, com esse material, tem força e está bem embasado, vamos recorrer para Brasília e vamos até o final. A exceção da verdade é o que vai conseguir provar o que a gente quer”, finaliza.
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