O Flamengo vingador e o soco no ar

O garçom olha para o seu colega que está dentro do botequim e exclama ao tempo que indaga: "Cara, o Flamengo meteu 6 a 0 no Botafogo?!"



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Era o ano de 1972. Eu tinha12 anos de idade. Estava no segundo ano do ginásio, que se equivale atualmente à sexta série e morava na Rua São Sebastião, no bairro da Urca. Naquele tempo não existia tecnologia para as crianças e adolescentes brincar ou estudar ou simplesmente ligar o computador e navegar pela internet, além dos celulares, dos ipad, iped e ipod, além da televisão a cabo, em HD, é claro. Era uma época de brincadeiras de pique, garrafão, subir o morro da Urca, pegar frutas em árvores, ir à praia até a noite e, evidentemente, jogar futebol — muito futebol.

Foi um ano difícil no que se trata do futebol, apesar de o Mengão Campeão do Mundo ter sido campeão carioca, em um time em que jogavam craques como o magnífico Paulo César Caju, o raçudo e goleador argentino, Horácio Narciso Doval, ídolo da torcida rubro-negra e meu primeiro ídolo no futebol — o grande Doval, o goleiro de seleção, Renato, que foi convocado para a Copa do Mundo de 1974, além do becão Reyes, defensor paraguaio de muita técnica, excelente colocação e ótimo toque de bola, sem me esquecer de citar o centroavante Dionísio (o Bode Atômico), do lateral da seleção de 1978, Rodrigues Neto, e do meio campo de muito talento, Zanata, que depois foi para o time que usa um cinto de segurança na camisa, talvez para não cair ou não bater com a cara no muro, ou seja, vou traduzir: sete vice-campeonatos seguidos para o Urubu Cruel ao tempo que humilde. É o nosso vice de estimação.

Como se observa, o Flamengo não era um time qualquer. O Rubro-Negro foi o campeão carioca de 1972, que superou times fortes, a exemplo de Fluminense e Botafogo. Não posso falar do time da cachorrada impunemente, sempre me causa náusea, sentimento profundo de rejeição à viralatagem e um misto de desprezo e ironia, porque os torcedores daquele time insistem em considerar seu clube grande, apesar de terem conquistado meia dúzia de títulos e até a década de 1940 terem uma torcida menor que a do rubro América Futebol Clube, que até a década de 1980 era um time médio para grande, que, no decorrer de sua história, cedeu jogadores para a Seleção Brasileira.

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Todavia, antes de voltar ao assunto, quero lembrar que o Mengão — o maior clube do mundo, o papa-títulos dessas bandas cariocas e fluminenses — gostou muito de colocar a torcida alvinegra em seu devido lugar: o vice do Brasileiro de 1992, que foi muito doído para a cachorrada, além, é óbvio, do trivice recente imposto nos anos de 2007, 2008 e 2009. Em 2010, eles ganharam, mas, contudo, não teve final, pois os alvinegros venceram os dois turnos. E é somente o que interessa: vice é com eles.

Ditas as verdades irrefutáveis, pois totalmente verdadeiras, voltemos ao assunto. Estamos em 1972. A minha mãe coloca os alimentos na mesa e chama a família para lanchar. Foi um dia de domingo ensolarado, e as conversas na praia da Urca e entre os meus amigos era sobre o Flamengo e o Botafogo, que jogariam às 17 horas — horário, na época, tradicional dos clássicos de domingo no Rio. Sentei à mesa e levei meu radinho de pilha. Meu pai me chamou, perguntou pelo placar e me deu dinheiro para que eu fosse comprar a Coca Cola Família, como era chamada a garrafa de vidro e de um litro do refrigerante.

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O placar estava zero a zero. Deixei o radinho em casa e fui para a rua em direção ao pequeno comércio. Mal dei início à caminhada, o Botafogo marcou o primeiro gol. Vi um amigo, parei para conversar. Depois segui caminho, quando ouvi gritos, e pensei: o Flamengo empatou. Nada disso. Era o segundo gol do antipático adversário. Cheguei ao botequim, e fiz o pedido. O atendente me deu a Coca Cola e segui meu caminho de volta. Antes de entrar no prédio, o Botafogo, também conhecido como Chorãofoguinho ou Botachorãonisso, fez o terceiro gol, o que me deixou preocupado, porque ainda o Mengão tinha pela frente o segundo tempo. Começou o tempo final. Acabou a partida: Flamengo 0 X 6 Botafogo!

Eu, como informei antes, frequentava os bancos do ginásio. Terminei o ginásio a escutar gozações de amigos e colegas de turma botafoguenses. Nada, porém, que impedisse de o Flamengo vencer os campeonatos Torneio do Povo de 1972, o Carioca de 1974 e o tricampeonato carioca de 1978, 1979 e 1979 (Especial), quando o Rubro-Negro começou a formar um esquadrão quase imbatível, que, posteriormente, dominaria o futebol brasileiro por cinco anos, retratados em vitórias e títulos inestimáveis e inesquecíveis, inclusive a ter o Chorão alvinegro como vítima, a tal ponto de o Urubu Rei superar o clube de General Severiano em vitórias, no que diz respeito ao confronto entre os dois clubes no decorrer da história. A resumir: o Chorão é pato (Donald?); é freguês nas estatísticas. Esta é a mais saborosa e irrefragável verdade.

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Pano rápido para a piada. O Botafogo foi o único clube grande que, em dado momento, perdeu a sua sede, a de General Severiano, localizada em Botafogo, bairro da Zona Sul. O Alvinegro foi para o bairro suburbano de Marechal Hermes. Nós, rubro-negros, inventivos e criativos (o que é uma redundância), afirmávamos que o Botafogo foi promovido de General para Marechal. Não é uma ótima piada, caro leitor? Hê hê hê!

Entretanto, os títulos do Flamengo, a formação de um timaço capitaneado pelo craque fora de série Zico, as vitórias históricas, os grandes jogos não aplacavam a arrogância da torcida menor, órfã de títulos, mas, contudo, prisioneira de poucos títulos distantes, do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, ou melhor, do tempo do ronca. Por mais que o Mengão Campeão do Brasil, depois do Mundo e da Libertadores se esmerasse em vencer para conquistar, lá vinha o botafoguense com as palmas das mãos abertas, a mostrar com os dedos os 6 a 0 de nove anos atrás.

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A torcida chorona e cri-cri, conforme a apelidou o rubro-negro e talentoso cartunista Henfil, provocava os rubro-negros e usava uma faixa que lembrava à grande torcida do Flamengo, a torcida do povo e multifacetada em todas as raças e classes sociais e aos jogadores do Mais Querido os 6 a 0 de 1972. Era sempre assim. Incomodava... Mas sabíamos que o fatídico placar era somente que os botafoguenses tinham como triunfo naqueles anos e momento, afinal o Flamengo os superou até em vitórias nos confrontos diretos.

Passaram-se os anos, e eu e minha família não mais morávamos na Cidade Maravilhosa. Mudamo-nos para o Rio Grande do Sul, depois para Brasília, e, posteriormente, para o Mato Grosso do Sul. Esses momentos saltimbancos ocorreram no tempo de sete anos, quando retornamos para o Rio de Janeiro em 1982, agora para morarmos no bairro do Flamengo. Nome lindo e sugestivo, não é mesmo? Porém, há um interregno. Quando eu estava em Mato Grosso do Sul, na linda, arborizada e organizada Campo Grande, resolvi fazer vestibular em Uberaba, cidade do Triângulo Mineiro. Passei e fui morar naquela ótima cidade, a terra do boi zebu. Morava em república de estudantes, o que nos dava autonomia, porque administrávamos a casa, com muita festa regada a música, cerveja e galinhada (arroz, galinha, batatas, temperos mil, tudo em um panelão).

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Jogávamos bola nos fins de semana. Depois da peleja (como diziam os narradores antigos), íamos sempre a um bar, com mesas e cadeiras espalhadas pela calçada, beber cerveja com as garotas, quase todas do curso de Psicologia — nossas fiéis torcedoras. Naquele dia, jogamos contra dois times, em um torneio de três. As partidas começaram às 4 da tarde e foram até as 8 da noite. Era um domingo, dia 8 de novembro. Chegamos ao botequim e pedimos cerveja e alguma coisa para beliscar. Em 1981, os bares não tinham televisão. Raro era algum tê-la. Não existia o celular e muito menos internet, TV a cabo etc. Enfim, estávamos no bar, depois de jogar futebol...

O garçom coloca cerveja no meu copo. Enche-o, espumadamente... De repente, ele olha para o seu colega que está dentro do botequim e exclama ao tempo que indaga: "Cara, o Flamengo meteu 6 a 0 no Botafogo?!" Eu tinha esquecido o jogo. Levo um susto, pois tomado pela surpresa e pela dúvida. O outro garçom responde: "Foi de seis, fora o baile!" A notícia mexeu com a minha alma e a transpassou como um raio... Tomou conta do meu espírito e do meu pensamento e coração rubro-negros.

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Durante longos nove anos eu esperava por esta doce vingança, temperada pela humilhação que eu, quando menino de 12 anos, tive de suportar. Olhei perplexo, quase que assombrado para o garçom, que me atendia, e, ainda em intrigado, reconfirmei: "Meu amigo, você tem certeza do que está falando sobre o Flamengo e os seis a zero?" O garçom respondeu, sem vacilar: "Certeza absoluta"! Os meus amigos e as minhas amigas pararam de beber e ficaram a prestar atenção no diálogo. Era como se o tempo parasse e ninguém respirasse. Comecei a rir, gritei, vibrei, levantei da cadeira, disparei pela rua e dei um soco no ar.

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ESCALAÇÕES

8/11/1981 – Maracanã – Rio de Janeiro
Flamengo 6 x 0 Botafogo
Juiz: Édson Alcântara do Amorim (MG)
Renda: Cr$ 15.031.600
Público: 69.051
Gols: Nunes 7, Zico 27, Lico 33 e Adílio 40 do 1º tempo. Zico (pênalti) 30 e Andrade 42 do 2º tempo.
Cartões Amarelos: Júnior e Perivaldo.
Flamengo: Raul, Leandro, Figueiredo, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Técnico: Paulo César Carpegiani.
Botafogo: Paulo Sérgio, Perivaldo, Gaúcho, Osvaldo e Jorge Luiz; Rocha, Mendonça e Ademir Lobo; Édson (Jairzinho), Mirandinha e Ziza. Técnico: Paulinho de Almeida.

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