O batismo de fogo de Fernando Haddad

"Se a tarifa não baixar, olê, olê, olê, olá, São Paulo vai parar", cantavam os manifestantes na tarde de ontem; nesta terça, as lideranças do Movimento Passe Livre serão recebidas pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que, até a semana passada, dizia ser impossível recuar no aumento das passagens de ônibus; no entanto, o ex-presidente Lula, com notável faro político, prega a negociação; hoje, há novo protesto marcado para a Praça da Sé, e a massa já provou ser mais forte do que o poder; Haddad conseguirá se manter inflexível?

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O batismo de fogo de Fernando Haddad


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247 - Está nas mãos de uma pessoa a possibilidade de começar a solucionar o impasse que paralisou as grandes cidades brasileiras e nocauteou o poder. É ele, Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, quem pode tomar a primeira decisão capaz de conter a onda de insatisfação. Nesta terça, às 9 horas, ele receberá os líderes do Movimento Passe Livre, que defendem o transporte público e gratuito nas grandes cidades e iniciaram os protestos depois que as passagens na capital paulistas foram reajustadas de R$ 3,00 para R$ 3,20.

Até a semana passada, Haddad mantinha-se inflexível e dizia ser impossível recuar no reajuste. Ontem à noite, no entanto, seu mentor político, o ex-presidente Lula, sugeriu um caminho diferente. "Não existe problema que não tenha solução", disse Lula, propondo que as partes sentassem na mesa de negociação. "Estou seguro, se bem conheço o prefeito Fernando Haddad, que ele é um homem de negociação. Tenho certeza que dentre os manifestantes, a maioria tem disposição de ajudar a construir uma solução para o transporte urbano".

Lula foi direto. Quer uma negociação. E ela só será possível se a prefeitura de São Paulo, que, ao aumentar as tarifas, provocou o estopim da crise, cujo escopo de reivindicações se ampliou nos dias seguintes, estiver disposta a ceder.

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Pego de surpresa, em Paris, quando defendia a candidatura de São Paulo à Expo 2020, Haddad no início defendeu a ação da polícia contra a depredação promovida por uma parte minoritária dos manifestantes. Depois, ajudou a colocar a Polícia Militar de São Paulo numa posição defensiva, ao criticar os excessos e abusos policiais contra manifestantes e jornalistas.

Ontem, livres para tomar a cidade de São Paulo, os manifestantes mostraram que são mais fortes do que as instâncias de poder. Cercaram o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, a Rede Globo e ocuparam as principais artérias de São Paulo, como a Marginal Pinheiros, a Avenida Paulista, a Faria Lima e a Rebouças.

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Para esta terça, mais um grande protesto está marcado, desta vez partindo da Praça da Sé. Caótica por natureza, São Paulo não suportará mais um, dois ou três dias de protestos.

Enfraquecido, o poder não tem alternativa, a não ser recuar, seguindo o grito de guerra dos manifestantes que ontem pararam a maior cidade do País. "Se a tarifa não baixar, olê, olê, olá, São Paulo vai parar", cantavam os manifestantes.

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Congelar os reajustes por 45 dias, enquanto se abriria um canal de negociação, já era a proposta inicial de integrantes do Ministério Público.

Com planilhas e cálculos na mão, Haddad dizia ser impossível impedir o reajuste, na sua visão, "menor do que a inflação".

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Os jovens, no entanto, criticam a inversão de prioridades. Ontem, por exemplo, o BNDES finalmente liberou o empréstimo de R$ 400 milhões para a construção do Itaquerão, o estádio do Corinthians, numa cidade que já tinha arenas possíveis para a Copa, como o Morumbi, o Pacaembu e o Palestra Itália. O empreendimento em Itaquera também conta com a ajuda financeira da cidade de São Paulo, que liberou créditos imobiliários para a construtora Odebrecht, que toca o empreendimento.

A bola está com Haddad, que, nesta terça, enfrentará seu batismo de fogo. Os jovens já mostraram que estão prontos para radicalizar.

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