Miguel ao 247: "Travo a luta mais dura da minha vida"
Primeiro judoca brasileiro a ser campeão olímpico, vereador do PR e acusado de receber propina de R$ 600 mil para facilitar a ampliação de um shopping em São Paulo, Aurélio Miguel sai da defesa para o ataque; "Descobrimos 3,4 milhões de metros quadrados de IPTU não recolhidos na cidade, a arrecadação municipal aumentou em R$ 350 milhões e quem me acusa diz que o faz porque ouviu dizer, sem ter visto nada", disse ele ao 247; "O Gaeco já disse que meu patrimônio é compatível com a minha renda; mexi com interesses poderosos e estou sendo massacrado"
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Marco Damiani _247 – Ao pendurar o quimono e trajar o terno e a gravata de vereador em São Paulo, o judoca campeão olímpico Aurélio Miguel, de 49 anos, continuou, ao longo de três mandatos consecutivos, a bater mais do que apanhar – mas agora está sofrendo um forte revés.
Ele está sendo acusado pela ex-diretora financeira da construtora e administradora de shoppings centers Brookfield, Daniela Gonzalez, de ter recebido propina de R$ 600 mil, em maio de 2009, quando era presidente da chamada CPI do IPTU, na Câmara de São Paulo. O dinheiro, que seria partilhado com Hussain Aref Saab, o então todo poderoso diretor da seção Aprove da municipalidade, teria sido pago em espécie, transportado por um carro-forte. O caso está estampado nas manchetes dos principais jornais da cidade e, desde então, Miguel mergulhou num escuro inferno astral.
"A pessoa que me acusa está sendo processada, pela própria antiga empresa dela, por estelionato", inicia Miguel uma conversa de cerca de duas horas com o 247, na noite da quinta-feira 21, em São Paulo. "Não tem credibilidade. Em depoimento à polícia, ela disse que não viu correr dinheiro nenhum, mas me acusou apenas por ouvir dizer". Ele afirma ter, sim, dividido um café da manhã com empresários do grupo Brookfield, que chegavam a São Paulo vindos do Rio de Janeiro, interessados em conhecer aspectos da legislação paulistana. "Fui a convite de um antigo conhecido, o Sergio Ferrador, mas nunca ofereci facilidades. Eu nunca tive essa influência que dizem que eu tenho. Só se eu virei prefeito de São Paulo e não me avisaram", sustenta. Pela acusação, Miguel conseguiria concessões da CET – Companhia de Engenharia de Tráfego – para viabilizar a instalação do shopping Pátio Paulista, no bairro do Paraíso. "Ainda mais lá, onde eu sou brigado com todo mundo. Ninguém me daria dinheiro eu troca de um poder que eu não tinha. Estou sendo vítima de uma mentira por ter enfrentado interesses poderosos", afirma.
Com efeito, até ser enredado na denúncia da ex-diretora da Brookfield, que virou investigação formal no Ministério Público de São Paulo, Miguel fazia um trabalho exemplar para os interesses da cidade. Foi ele, por exemplo, que descobriu o caminho jurídico para tombar, pelo Condephat, um quarteirão inteiro, no bairro do Itaim, que a administração municipal comandada pelo prefeito Gilberto Kassab intencionava repassar para a construtora JHSF em troca de terrenos para a contrução de creches. O espaço no qual existem nove equipamentos municipais, entre eles uma escola, uma creche e um teatro que fora recém reformado, fica na área de metro quadrado mais cara de São Paulo. "Miguel agiu de maneira exemplar", atesta o presidente da Associação dos Moradores do Itaim, empresário Marcelo Motta. "Enfrentou uma construtora poderosa, peitou o prefeito, ficou do lado dos moradores da região e foi decisivo para a preservação do espaço público sobre os interesses privados".
À frente da chamada CPI do IPTU, que funcionou entre 2007 e 2009 na Câmara Municipal, o ex-judoca apurou o não recolhimento do imposto predial e territorial urbano de nada menos que 3,4 milhões de metros quadrados na cidade. Grande parte dessas áreas eram oriundas de ampliações feitas por shoppings centers, mas não oficialmente comunicadas à Prefeitura. "Depois do nosso trabalho, o Shopping West Plaza passou a pagar um IPTU 35% maior do que vinha recolhendo; o SP Market teve um aumento de 91%; o Market Place, de 116%; o Morumbi, 33%; e o Cidade Jardim, da JHSF, passou a pagar nada menos que 235% a mais do que vinha pagando", enumera. Ele lembra que o shopping Bourbon, no bairro da Pompéia, declarava, para efeito de recolhimento de IPTU, a área correspondente apenas à lanchonete McDonald´s que fica dentro de seu estacionamento. "Era uma zorra total, ninguém pagava praticamente nada e a prefeitura ficava de olhos fechados, com gente, provavelmente, ganhando muito dinheiro por fora com essa leniência".
Com dezenas de documentos dentro de duas pastas de couro, Miguel mostra que a CPI do IPTU teve seus pedidos de apoio de fiscais municipais, para a realização de diligências, negados sucessivamente por integrantes do primeiro escalão da administração Kassab, como o então secretário de Governo Clóvis Carvalho e o então secretário de Negócios Jurídicos Cláudio Lembo. "Poderíamos ter ido muito mais fundo, mas a máquina da administração municipal claramente boicotou o nosso trabalho", disse Miguel ao 247. "Apenas do shopping Villa Lobos, que a rigor não poderia ter todo aquele tamanho, naquela região (em Pinheiros, diante de uma área desapropriada pelo Estado durante o governo de Orestes Quércia, 1987-1990), teve seu IPTU aumentado em 548% graças ao nosso trabalho. Eu nunca fui parceiro de shoppings, ao contrário, fui o cara que denunciou a balbúrdia de anistias e falta de fiscalização e cobrança". Nas contas de Miguel, a arredação municipal subiu R$ 350 milhões graças às novas cobranças que passaram a ser feitas após a CPI.
O vereador está particularmente incomodado com a postura do jornal Folha de S. Paulo sobre o seu caso. Ele frequentou, esta semana, a manchete do jornal, como tendo seu patrimônio pessoal multiplicado durante o exercício dos seus três mandatos. "Até o Gaeco já afirmou que minha renda é compatível com o meu patrimônio", lembra. "Eu tenho galpões, invisto em imóveis faz mais de 30 anos, é claro que eles se valorizaram. Qualquer um que aplicou em imóveis nesse período ganhou dinheiro". De uma das pastas, retira recebidos de pagamentos de aluguéis que, em três contratos, somam, a seu favor, cerca de R$ 100 mil mensais. "Eu tenho renda, sempre tive, está tudo no meu imposto de renda", que ele passa, então, a mostrar ao repórter. Miguel conta que subiu ao 4º andar do prédio da Folha de S. Paulo, onde fica a redação do jornal, para apresentar sua versão aos jornalistas encarregados do caso. "Mas mal quiseram me ouvir e nem aceitaram ver os documentos que eu levei", reclama. "É um massacre".
O combate é visto pelo vereador – primeiro medalhista de ouro do judô brasileiro em Olimpíadas, mas que ficou fora de quatro campeonatos mundiais seguintes por ter denunciado falcatruas na Confederação Brasileira de Judô – como a luta da sua vida. "É minha honra que está sobre o tatame", compara. "Estou nessa briga até resgatá-la". Com suas pastas de documentos e explicações sobre o trabalho da CPI do IPTU, Miguel pretende dar a sua versão a outros órgãos da mídia e mostrar a cara onde vier a ser chamado. "Durmo tranquilo, não fiz nada de errado. Eu não deveria ter ido àquele café da manhã, mas nenhum crime foi combinado ali nem praticado em seguida. Usam, hoje, aquele encontro para me enrolar, mas não há provas, a verdade está do meu lado".
Baixe aqui o depoimento de Daniela Gonzalez;
Baixe aqui o relatório final da CPI do IPTU.
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