Há solução para a Saúde Pública de Sergipe?
Problemas se avolumam: profissionais insatisfeitos; médicos de Aracaju em greve há duas semanas; setor de ortopedia do Huse passando por uma crise; serviço de oncologia do mesmo hospital ainda tentando se reerguer de uma guerra de egos; pediatria da UPA Fernando Franco desativada, ocasionando a superlotação do setor homônimo do Huse; clínicas de saúde da família no interior com serventia limitada, e judicialização excessiva do setor; união, como a que foi vista em torno do Proinveste, pode ser um caminho
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Valter Lima, do Sergipe 247 – Há duas semanas, tenho percebido na mídia sergipana a elevação das pautas sobre problemas no serviço de saúde pública, tanto no de Aracaju, quanto no Estadual. Para tratar deste tema, permitam-me romper o tradicional formato dos textos que escrevo para este espaço, sempre em terceira pessoa, para fazer um comentário mais pessoal.
Há cerca de três anos precisei em duas ocasiões distintas dos serviços públicos de saúde – uma vez, recorri a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Nestor Piva, da Zona Norte de Aracaju. Estava com uma alergia na pele, que me causava uma irritação muito grande e febre. Esperei por duas horas para ser atendido. O médico me recebeu, enquanto atendia outra pessoa. E me passou um remédio, que soube depois, não servia para o problema que me havia acometido.
Em outra ocasião, recorri ao Hospital de Urgência de Sergipe (Huse). Estava com sintomas da dengue. Neste dia, o atendimento não foi demorado. Na medida do serviço público, se mostrou até eficiente, mas o que me chocou foi ver duas pessoas com dor intensa no ouvido, que ouviram da enfermeira que o médico (que deveria estar no hospital, pois era seu plantão) só se deslocaria de casa para a unidade se uma terceira pessoa precisasse ser atendida por ele. Por “apenas” dois pacientes, não viria. Eles que agüentassem a dor e torcessem ou rezassem para surgir uma terceira vítima da dor no ouvido. Não vi o desfecho da história daquelas duas pessoas naquele dia.
Perdoem-me o nariz de cera para chegar ao ponto que desejo tratar: há algo de muito errado no setor público de saúde. Não quero fazer demagogia. Tentarei ser objetivo: as situações que passei e vivi devem se repetir ainda hoje. E em maior medida. Atualmente, os problemas se avolumam. São profissionais insatisfeitos; médicos de Aracaju em greve há duas semanas; setor de ortopedia do Huse passando por uma crise; serviço de oncologia do mesmo hospital ainda tentando se reerguer de uma guerra de egos; pediatria da UPA Fernando Franco, na Zona Sul de Aracaju, desativada, ocasionando a superlotação do setor homônimo do Huse; clínicas de saúde da família no interior com serventia limitada, e judicialização excessiva do setor. Sei que esta lista poderia ser mais extensa, mas encerro-a por aqui.
Avalio que é vontade dos dois principais gestores públicos do Estado, o governador Marcelo Déda (PT) e o prefeito João Alves Filho (DEM), resolver tantos problemas. Eles tentam. Seus secretários de igual modo. Mas por que não conseguem? Dificilmente se avança de forma definitiva quando o assunto é saúde pública, porque a demanda é sempre crescente, mesmo que o investimento na área não siga a mesma linha. É preciso colocar mais dinheiro na Saúde.
E há, infelizmente, muita disputa política dentro das secretarias, dos hospitais, dos postos e até no menor dos setores. E isto atravanca muito o processo. Há facilitações para alguns, há boicote, há desperdício, há descaso. Tudo em nome do interesse político. Os sindicatos, que me perdoem, mas eles também atrapalham muito. Na ânsia da defesa de uma classe, ignoram o que é mais precioso: a vida. E, claro, os políticos, sejam os secretários, os vereadores, os deputados, os senadores, os prefeitos, o governador, o ministro, a presidente... todos são, de certa forma, omissos.
Há deficiências em diversos setores (educação, segurança, trânsito), mas não há outra urgência no Estado (que deve se estender pelo país) que não seja na Saúde. Déda prometeu ser o segundo secretário da pasta. João prometeu melhorar o sistema até junho. São promessas. Não passarão daí. Eles não estão conseguindo, assim como seus antecessores não conseguiram. E quem conseguirá?
Sozinho, ninguém! Mas se cada ente deste intrincado processo tomar para si a responsabilidade que lhe é devida, algum passo será dado. Será suficiente? Não sei. Seria presunção demais da minha parte tentar encontrar uma solução definitiva para tantos problemas sentado em frente a um computador, com algumas centenas de palavras. Entendo e vejo que há muitas experiências bem sucedidas, muitos profissionais engajados, mas ainda não são todos. Mais do que profissão e obrigação, saúde é devoção.
Mas não me entendam mal: não estou aqui pedindo para ninguém tomar esta responsabilidade toda para si e ignorar suas necessidades (sejam salariais, sejam políticas, sejam extremamente particulares). O cerne da questão é que cada um que integra este bloco fazer a sua parte. Corretamente. E isto começa até mesmo pelo paciente.
Sei também que nunca se alcançará o todo. Sempre terão os do contra, mas estes não podem, nunca, ser maioria. Recursos financeiros precisam ser redirecionados. Leis precisam ser criadas. O sistema que já está posto precisa funcionar na integralidade. Não coloquem mais nenhum tijolo em obra nova, enquanto o que já está em pé não estiver oferecendo todos os serviços de forma satisfatória.
Em tempos de Proinveste, de R$ 567 milhões em empréstimo, de um grande acordo político de todas as forças do Estado, porque não pensar em aliança semelhante em prol da saúde? O remédio não pode mais faltar; a maca tem que estar disponível; o plantonista não pode se ausentar do seu horário; o governo não pode se recusar a discutir o plano de carreira; a greve não pode ser ignorada; o político não pode fazer uso eleitoral; os recursos não podem ser diminuídos. A saúde precisa ser prioridade. Definitiva!
Foto: Portal Infonet
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