Geddel: "Não se faz plebiscito em 80, 90 dias"

"Fazer açodadamente um plebiscito tão complexo em 80, 90 dias, é o passo primeiro para uma reforma que não é definitiva. Por que não trazer esse debate à sociedade e pautar o plebiscito, por exemplo, para 2014? Se assim não for, e for colocada na pauta do plebiscito, por exemplo, a reeleição e o povo disser que quer um mandato de cinco anos sem reeleição, o que você vai fazer? Prorrogar o mandato da presidente?"; secretário nacional do PMDB volta a dizer que aliança com PT em 2014 não é garantida

Geddel: "Não se faz plebiscito em 80, 90 dias"
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Bahia 247

"Orgulhoso" da sua "coragem de dizer o que pensa", o vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa e secretário nacional do PMDB, Geddel Vieira Lima, rejeita o título de causador de intriga na relação de seu partido com o Planalto, mas afirma em entrevista ao site Bahia Notícias que vai continuar a expressar suas posições "de forma clara".

Desta vez a pauta é o plebiscito que deve ser proposto oficialmente pela presidente Dilma Rousseff para realização da reforma política brasileira como forma de resolver a 'crise' instalada com a onda de manifestação que tomou as ruas do país há três semanas. Para o peemedebista, não há tempo hábil para o plebiscito.

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"Consulta popular é sempre boa, mas você fazer açodadamente um plebiscito tão complexo em 80, 90 dias, é o passo primeiro para você fazer uma reforma que não é definitiva. Por que não trazer esse debate concretamente à sociedade e pautar o plebiscito, por exemplo, para o ano de 2014? Se assim não for, e for colocada na pauta do plebiscito, por exemplo, a reeleição e o povo disser que quer um mandato de cinco anos sem reeleição, o que você vai fazer? Prorrogar o mandato da atual presidente da República? E depois, que tempo haverá para explicar à sociedade o que é voto aberto, lista?".

Geddel diz que está "dentro do entendimento" de manutenção do repeteco da chapa encabeçada por Dilma e tendo Michel Temer como vice-presidente novamente, mas pondera que o partido ainda não é unânime sobre o assunto e citou com exemplo que "enfraquece" a relação o fato de a presidente ter nomeado o vice-governador de Geraldo Alckmin em São Paulo, Guilherme Afif, ministro de seu governo.

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"Os partidos no Brasil não são nacionais. Nenhum deles é. As realidades locais falam muito mais forte. A aliança nacional deixou de ter um link ideológico, deixou de ter uma direção clara. Na hora em que você, em nome de entendimentos políticos, coloca o vice-governador de São Paulo para ser ministro do governo do PT, você permite que eu diga que tudo é possível fazer".

Abaixo os principais trechos e aqui a entrevista completa no Bahia Notícias.

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Bahia Notícias – Como o PMDB tem lidado com as manifestações que têm ocorrido no Brasil? Como o partido lê esse momento histórico da política? Quem sai perdendo nessa história é o PT?

Geddel – Pessoalmente, eu leio com muita tranqüilidade. Diferentemente de outros que dizem que a mensagem das ruas é difusa, eu acho que ela é de uma clareza absolutamente cristalina. O que as ruas, a juventude, as pessoas estão dizendo? Primeiro, "quero uma política decente, sem roubo". Segundo, "quero menos politicagem, quero mais gestão, ação". Para solucionar o posto de saúde sem médico, as emergências nos hospitais públicos transformadas em verdadeiros campos de guerra. Para enfrentar essa crise da Segurança Pública que nos deixa com medo de ir às ruas. Para fazer com que as creches e a educação fundamental saiam do papel. Fazer com que as escolas de tempo integral sejam uma realidade no Estado, se invista mais em tecnologia no ensino, se qualifique melhor os professores. O que a sociedade está dizendo nas ruas é o seguinte: "nós não aceitamos mais um preço de transporte público que não tenha uma contrapartida em qualidade". Eles não querem mais pagar um preço que consideram exorbitante por um ônibus que não tenha um ar condicionado, por um ônibus velho, com problema. Essa é a pauta que está nas ruas. Se o PT é quem paga o preço, eu acho que é, na medida em que é o partido que está no poder nacional há 10 anos e na Bahia há sete, completando oito, e que, portanto, teria a caneta para resolver esses problemas que a sociedade coloca. Claro que os protestos terminam atingindo a classe política como um todo, mas é inquestionável que bate mais diretamente em quem teria a condição de ter resolver os problemas que não resolveu. Não reconhecer isso é querer colocar uma venda nos olhos. O PMDB, como tantos outros partidos, vai pagar o seu preço e terá que efetivamente rever posições para voltar a ter uma força crescente na sociedade brasileira.

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Há um clamor da sociedade nessas manifestações pela reforma política, que vai tirar boa parte das regalias da estrutura parlamentar. O PMDB é o partido maior em número de parlamentares no país e poderia ser o principal afetado. Qual é sua visão como dirigente do partido em relação a isso?

Primeiro, eu não vejo esse clamor nas ruas por reforma política. Eu vejo clamor nas ruas por política decente, pelo fim da impunidade – e começa o Supremo Tribunal Federal a colocar um deputado condenado na cadeia. Se o STF agilizar a conclusão do julgamento dos mensaleiros e colocá-los na cadeia, a sociedade, que tanta esperança despertou quando do julgamento daqueles envolvidos no Mensalão, começará a ver que há uma mudança em relação a essa questão da impunidade. Eu não creio que o que falta no Brasil é lei, é transformar a corrupção em crime hediondo. O que falta no Brasil é agilidade do poder judiciário para fazer cumprir as leis. É não ter tanto recurso, não ter tanta protelação, é uma justiça que não seja tardia. É uma justiça que seja contemporânea das reivindicações da sociedade. A reforma política é fundamental desde sempre, mas precisa ser tratada com a cautela necessária para que, açodadamente, na ânsia de dar respostas às ruas, ela termine não sendo uma coisa perene. Ela tem que ser uma reforma que paute o futuro, que paute as novas gerações. E o PMDB tem dito isso, eu tenho dito isso. Por exemplo, o plebiscito. Consulta popular é sempre boa, mas você fazer açodadamente um plebiscito tão complexo em 80, 90 dias, é o passo primeiro para você fazer uma reforma que não é definitiva. Por que não trazer esse debate concretamente à sociedade e pautar o plebiscito, por exemplo, para o ano de 2014? Se assim não for, e for colocada na pauta do plebiscito, por exemplo, a reeleição e o povo disser que quer um mandato de cinco anos sem reeleição, o que você vai fazer? Prorrogar o mandato da atual presidente da República? E depois, que tempo haverá para explicar à sociedade o que é voto aberto, lista? Eu, que sou político e tenho a obrigação de saber, por vezes não conheço. Como é que as pessoas que estão com tantas preocupações em relação a seu dia a dia vão tomar conhecimento para votar de forma consciente esse assunto? Eu não acho que essa seja a pauta que a sociedade está cobrando. Não quero que a reforma política seja uma cortina de fumaça. Quero que seja uma solução concreta e real para os problemas políticos que o Brasil enfrenta. Não vejo clamor em relação a esse assunto. O clamor que eu vejo é em relação a posto de saúde com médico, transporte de qualidade, educação correta e decência na política. Esse foi o clamor que eu captei nas ruas.

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Como vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa, o senhor é aliado com o PT nacionalmente, como o PMDB é. Mas, internamente, no partido, há um movimento que quer romper também com a presidente Dilma Rousseff. O senhor defende a manutenção do pacto com o governo federal?

Os partidos no Brasil não são nacionais. Nenhum deles é. As realidades locais falam muito mais forte. A aliança nacional deixou de ter um link ideológico, deixou de ter uma direção clara. Na hora em que você, em nome de entendimentos políticos, coloca o vice-governador de São Paulo para ser ministro do governo do PT, você permite que eu diga que tudo é possível fazer. A posição que eu vou defender vai estar muito vinculada à questão da Bahia. A diferença que eu tenho em relação a outros é que o fato de eu ocupar um espaço no governo hoje não me inibe de dizer o que eu penso. Eu não mostro nem nunca mostrei amor a cargos. Eventualmente, e isso também não vai demorar, se eu perceber que o nosso caminho é o de pregar outro que não a aliança nacional, eu saio imediatamente da função que ocupo. Como, para não parecer discurso, fizemos quando divergimos de Jaques Wagner do ponto de vista administrativo em 2009 e, ao contrário de vozes que diziam: "não sejam burros", "vão até o final", "façam como eles fizeram com João Henrique na época de Walter Pinheiro", eu disse: "Não. A minha posição é outra. Eu quero ser criticado pela clareza e não pela falta de clareza". Portanto, a nossa posição nacional vai ser vinculada ao que for importante para o PMDB da Bahia.

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Então, Geddel hoje apoia a manutenção do acordo entre PT e PMDB nacionalmente?

Eu estou dentro desse entendimento, mas essa definição vai se dar agora no evento do segundo semestre, a partir dessas movimentações que vão acontecer no Estado. No decorrer desses entendimentos, vão começar a se definir as forças regionais, como elas vão se pautar. Evidentemente, não sou, nunca fui e não serei político para ficar em cima do muro.

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