Em diplomacia não cabe demagogia

Uma mentira e um factóide são usados para pressionar Dilma a violar princípios básicos das relações internacionais



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A viagem da presidente Dilma Rousseff a Cuba, ainda este mês, tem levado algumas pessoas a deixar de lado, por razões ideológicas ou desinformação, dois princípios elementares das relações internacionais: o respeito à soberania das nações e a não interferência em assuntos internos de outros países. Desconhecendo ou fingindo desconhecer esses princípios básicos da diplomacia e das relações exteriores, querem colocar na agenda pública que a presidente terá em Havana, a todo custo, temas específicos ligados aos direitos humanos.

Uma mentira e um factóide têm servido como fundamentos recentes para essa posição. A mentira é que um oposicionista cubano preso por motivos políticos morreu em greve de fome. Na verdade estava preso por agressão à mulher e aos policiais chamados por sua sogra. E não fez nenhuma greve de fome. Já o factóide foi criado por uma blogueira que se opõe ao governo cubano e viu uma boa oportunidade de causar um problema político e diplomático para o Brasil e para Cuba às vésperas da visita de Dilma.

O Brasil não deve ignorar violações aos direitos humanos em Cuba e em qualquer país do mundo e fingir que nada acontece. Mas as conversas com autoridades de outros países, em qualquer nível, não podem ser públicas, apenas para render matérias na imprensa e agradar aos que fazem oposição aqui ou lá. Além de isso violar princípios diplomáticos, nada rende em termos práticos. Conversas privadas e reservadas, sem alarde, dão muito mais resultados do que as declarações midiáticas e espetaculosas que têm sido sugeridas a Dilma por pessoas que, apesar dos títulos que algumas ostentam, mostram que nada entendem de política externa e não buscam resultados, mas apenas barulho. Estrangeiros que foram presos no Irã já transmitiram ao governo brasileiro seus agradecimentos pelas gestões que possibilitaram sua libertação. O mesmo resultado não teria sido obtido com declarações públicas de condenação ao governo iraniano, como alguns querem.

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As questões referentes aos direitos humanos devem ser levadas aos fóruns multilaterais, da ONU e de outras organizações internacionais. Há situações que têm mesmo de ser condenadas e a chamada comunidade internacional pode exercer um papel importante para impedir as constantes violações de direitos humanos em vários países. Mas como as violações ocorrem em quase todo o mundo, inclusive – e em alta escala – nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos, muitas vezes as condenações e as absolvições têm viés político e ideológico. Os amigos são absolvidos, os inimigos são condenados. E Estados Unidos e Israel, dois contumazes violadores de direitos humanos, desconhecem arrogantemente qualquer resolução internacional que os condene.

Além disso, a ingerência que tem sido proposta no Brasil é seletiva. Vale apenas para países cujos governos não agradam aos Estados Unidos. Os mesmos que exigem essa postura de Dilma não pedem para que ela discuta com o presidente Barack Obama, por exemplo, as reiteradas violações aos direitos humanos e torturas na base de Guantánamo, ou as execuções de prisioneiros e mortes por greve de fome nos Estados Unidos. Poderiam propor que o Brasil manifeste ao governo dos Estados Unidos o desagrado pela condenação a apenas 90 dias de prisão de um sargento acusado de ordenar o assassinato de 24 civis no Iraque, entre os quais mulheres e crianças. Ou protestar contra a repressão violenta a manifestações populares em países europeus e no Chile. Os intervencionistas também não defendem que Dilma discuta com Obama, sob as luzes de refletores, a prisão de cinco cubanos, nos Estados Unidos, sob as falsas acusações de espionagem e responsabilidade na derrubada de aviões de exilados que sobrevoavam reiteradamente o território cubano.

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Dilma está certa em não tratar desses temas publicamente, nem com Raúl nem com Obama ou qualquer outro governante. Deve respeitar a soberania das nações e não interferir em assuntos internos. A diplomacia também se faz com gestos sutis, sem ofensas desnecessárias. Aos que defendem o intervencionismo falta autenticidade e sobra hipocrisia. Direitos humanos são apenas pretextos para eles. O que querem mesmo é reforçar uma posição política e ideológica bem definida.

Já se esperava que Dilma sofresse pressões desse tipo antes de ir a Cuba. Aos oposicionistas brasileiros interessa desgastá-la. Aos oposicionistas cubanos – e aos Estados Unidos, que os financiam abertamente -- interessa isolar o governo de Raúl Castro e impedir que o Brasil fortaleça suas relações econômicas com Cuba. Assim, era natural que surgissem fatos e factóides para alimentar o noticiário em órgãos de imprensa que comungam as mesmas ideias e assim dar respaldo aos oposicionistas dos dois países.

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A primeira ação para tentar atrapalhar a visita de Dilma a Havana veio da blogueira cubana Yoani Sánchez. Ela postou na web a gravação de um apelo para que a presidente interceda a seu favor para que obtenha visto de saída do governo cubano e possa vir ao Brasil. Se Yoani quisesse mesmo vir, e não criar um fato político para prejudicar a visita de Dilma e as relações entre Brasil e Cuba, teria feito o pedido formal e discretamente. Deixaria para fazer sua propaganda política quando estivesse aqui. Mas apenas no dia 20, depois de cobrada pela imprensa, é que ela entregou uma carta formal à embaixada do Brasil em Havana.

Yoani teve a indelicadeza de enviar uma mensagem pública a Dilma, antes de formalizá-la, para obter repercussão. Há alguns meses, ela inventou que havia sido sequestrada por policiais em Havana e havia sido agredida. O fato não ocorreu e ela nunca mostrou uma só marca das agressões, como prometeu que faria. Agora quer comparar sua situação à que Dilma enfrentou nos tempos da ditadura. Só que Yoani não é obrigada a viver na clandestinidade, nunca foi presa e torturada e não teve companheiros assassinados. O que o governo cubano lhe deve é um visto de saída, ou uma justificativa coerente para negá-lo.

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Depois veio o caso de Willam Villar, apresentado como preso político que morreu em decorrência de uma greve de fome. Villar foi preso quando sua sogra chamou a polícia porque ele estava agredindo a mulher. Resistiu à prisão e atacou os policiais. Quando respondia ao processo em liberdade, foi cooptado por um grupo oposicionista que lhe convenceu de que assim seria considerado preso político, e não comum, podendo ser libertado por gestões da Igreja e de outros países, como tantos que agora estão nos Estados Unidos e na Espanha. Condenado a quatro anos de prisão pelas agressões à mulher e aos policiais e pela resistência à prisão, teve um problema respiratório grave e morreu alguns dias depois, no hospital. Nunca fez greve de fome. Sua atividade política e a greve foram inventadas pela oposição para provocar repercussão – e prejudicar as visitas de Dilma e, em fevereiro, a do papa.

A imprensa brasileira acreditou logo na primeira versão que recebeu sobre a morte de Villar e agora não quer voltar atrás e reconhecer a “barriga”. Insiste na versão falsa, e nisso é acompanhada até por professores universitários entrevistados por emissoras de televisão. Às favas com os fatos, para eles é mais conveniente assim.

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