Doria criou teologia da privatização para iludir paulistanos

“A sedução é prometer aquilo que se sabe desde o início que não se vai cumprir. O blefe é fazer crer que você tem mais capacidade do que realmente tem. Esses são os dois sentimentos que resumem o processo de privatizações do prefeito. O que temos é uma ideologia da privatização. Uma crença de que basta isso para tudo funcionar", diz Lúcio Gregori, ex-secretário municipal de Transportes

Doria, em evento no Instituto Tomie Ohtake
Doria, em evento no Instituto Tomie Ohtake (Foto: Leonardo Attuch)


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Por Rodrigo Gomes, da Rede Brasil Atual

A Câmara Municipal de São Paulo recebeu na noite de segunda-feira (31) o primeiro de uma série de eventos para debater criticamente a proposta de concessões e privatizações do prefeito da capital paulista, João Doria (PSDB). Os presentes ao evento organizado pela vereadora Sâmia Bomfim (Psol) avaliam que a proposta de Doria não está amparada em qualquer estudo sério, não apresenta diagnóstico realista dos problemas em cada equipamento ou serviço que pretende conceder e garante ao prefeito um “cheque em branco” para conduzir o processo da forma que ele achar melhor.

“A sedução é prometer aquilo que se sabe desde o início que não se vai cumprir. O blefe é fazer crer que você tem mais capacidade do que realmente tem. Esses são os dois sentimentos que resumem o processo de privatizações do prefeito. O que temos é uma ideologia da privatização. Uma crença de que basta isso para tudo funcionar”. Assim resumiu sua crítica o engenheiro e ex-secretário municipal de Transportes Lúcio Gregori, para quem a gestão Doria está apenas preocupada em agradar os empresários com seu plano de privatizações, sem demonstrar quais seriam os benefícios para população da capital paulista.

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Gregori não vê justificativas, por exemplo, para concessão do sistema do Bilhete Único e dos terminais de ônibus. Exceto pelo benefício aos empresários. “Para fazer um Bilhete Único temos de ceder muitos dados à SPTrans. E ali vão ser registrados muitas informações sobre nossa navegação cotidiana. Que são de alto interesse para o mercado, para estratégias de venda e propaganda. Mas o mercado não pode nos obrigar a ceder essas informações. Então ele vai usar a prefeitura para obrigar os cidadãos a ceder tais informações”, explicou.

Por outro lado, no caso dos terminais, a justificativa fica ainda mais estranha. “A prefeitura diz que gerir os terminais custa R$ 200 milhões por ano. E que a iniciativa vai fazer isso apenas ofertando comércios e serviços no espaço, aproveitando a grande movimentação de pessoas. Ora, se a resposta do mercado é essa, porque a prefeitura mesma não aproveita esse potencial e faz ela mesma?”, questionou. O ex-secretário pontuou, porém, que bens públicos não podem ser observados apenas na perspectiva de lucro ou prejuízo, mas do benefício público que proporcionam.

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O economista e ex-vereador Odilon Guedes defendeu que é preciso esclarecer a população de que a privatização não é a solução mágica dos problemas. “O presídio em Manaus, no Amazonas, que teve aquelas rebeliões terríveis com vários mortos, era privatizado. E custava 50% mais caro. A Linha 4-Amarela do Metrô está em construção há mais de uma década. O concessionário que ganhou a licitação do aeroporto de Viracopos está devolvendo porque o negócio não deu o lucro esperado. Precisamos acabar com esse mito”, afirmou.

Guedes destacou ainda que a justificativa da gestão Doria para privatizar e conceder serviços e equipamentos – que o dinheiro arrecadado será investido em saúde, educação, segurança e assistência social – não é aceitável. “Muitos dos serviços e espaços anunciados dão lucro. O Anhembi, os mercados municipais, por exemplo. Esse dinheiro já pode ser investido nessas áreas. Não precisa vender o patrimônio”, afirmou.

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As concessões da gestão Doria estão divididas em seis projetos. Três já foram enviados à Câmara Municipal. As audiências realizadas na última semana trataram do Projeto de Lei 367/2017, chamado de "pacotão das privatizações". Os demais devem chegar no segundo semestre. Entre os serviços e estabelecimentos a serem concedidos ou privatizados estão o estádio do Pacaembu, o Anhembi, o Autódromo de Interlagos, os parques e as praças, os mercados e sacolões municipais e o mobiliário urbano – bancos, lixeiras, quiosques, banheiros.

Uma das principais reclamações dos vereadores tem sido a falta de detalhamento dos projetos. “É um verdadeiro cheque em branco para que a prefeitura possa executar tudo. Eles apresentam uma concepção de cidade problemática, em que é preciso se desfazer de bens públicos porque eles não dão lucro. No entanto, se eles promovem o direito à cidadania, a política pública não pode ser vista como um negócio”, afirmou Sâmia.

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