Dora aposta em delação de Valério contra Lula

Agora que está condenado a 40 anos de prisão, por que proteger outros personagens? Está desenhado o roteiro para tentar fisgar o ex-presidente Lula; “enquanto o cenário era de dúvida, Valério jogou com ameaças veladas. Agora a certeza do duro destino extingue as razões da dubiedade”, diz ela

Dora aposta em delação de Valério contra Lula
Dora aposta em delação de Valério contra Lula


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247 – Há um roteiro desenhado para que o ex-presidente Lula fique impedido de participar diretamente do jogo eleitoral no Brasil – indiretamente, ele tem provado que ainda é o maior cabo eleitoral do País, como prova a eleição de São Paulo. Basta que Marcos Valério, agora falido e condenado a 40 anos de prisão, o acuse de ter chefiado o mensalão. Esta parece ser a sugestão implícita na coluna desta quinta-feira da jornalista Dora Kramer. Leia:

Condições objetivas

Dora Kramer

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Observado o sagrado direito ao esperneio, há de se considerar a lógica na análise da anunciada reação que estaria sendo preparada por PT e adjacências contra as condenações de José Dirceu e José Genoino, logo após as eleições.

De um lado existe o desejo, justo na perspectiva de quem o manifesta, de buscar algum tipo de saída menos desonrosa para se confrontar com a dura possibilidade da condenação de dois símbolos do partido à prisão por corrupção e formação de quadrilha.

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Nesse cenário o PT já nem seria mais igual aos outros partidos, mas o único a ter dirigentes na cadeia. Compreende-se, portanto, a aflição, pois não se trata de mera derrota eleitoral, mas da perda da liberdade e do nivelamento ao patamar de criminosos comuns.

É dolorido, embora decorrência inexorável dos atos julgados pelo Supremo Tribunal Federal.

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De outro lado estão as condições objetivas para a eficácia dessas reações. Não parecem favoráveis. Nos últimos anos não foram poucas, não obstantes frustradas, as tentativas de transformar o mensalão em obra de ficção escrita pelos inimigos.

Se o PT não conseguiu “desmontar a farsa” antes nem durante o julgamento, muito menos agora terá capacidade de desmentir a palavra final da Justiça.

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Não há manifesto que contradiga a fundamentação das sentenças, não há esforço de retórica que dê aos condenados o status de presos políticos, não há injúria que abale a credibilidade do Supremo. Não há ativismo que mobilize multidões em defesa dos presos, não há indignação capaz de obscurecer a indignidade cometida no uso partidário do patrimônio coletivo.

Não há, enfim, objetivamente o que fazer. E por isso acabará prevalecendo o discurso do “cumprimento democrático” da decisão. Apenas e tão somente porque não existe opção.

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Antes tarde

O rigor do tratamento dado a Marcos Valério, seja pelo papel de protagonista na dita “organização criminosa”, seja pelo volume das penas, ultrapassa em muito o esperado pelo publicitário quando colaborou de maneira comedida com a Justiça na fase de instrução do processo.

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Como ainda enfrenta várias ações em primeira instância, há quem veja interesse em colaborar mais ativamente de forma a se beneficiar do instituto da delação premiada. Recurso que, para ser concedido, precisa se mostrar comprovadamente eficaz.

Enquanto o cenário era de dúvida, Valério jogou com ameaças veladas. Agora a certeza do duro destino extingue as razões da dubiedade.

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Crime e castigo

O publicitário Cristiano Paz, ex-sócio de Marcos Valério e condenado por peculato, corrupção ativa e lavagem de dinheiro, escreveu um longo depoimento para o jornal Correio Braziliense.

Perplexo com o desfecho do caso, diz algo importante para a compreensão desse tipo de episódio: “Sou um criador publicitário que não soube enxergar os riscos”.

Quais riscos? Pelo que se depreende do relato, não percebeu o perigo de embarcar em operações financeiras nebulosas, de fazer crescer a agência de publicidade mediante aproximação com o partido do poder como “uma porta certa” para campanhas eleitorais, de não pesar nem medir consequências a despeito dos sinais de que havia algo de profundamente errado nas negociações de sua empresa com o PT.

E por que não enxergou os riscos? Porque a tradição de condescendência no trato de crimes contra a administração pública dispensava a análise prévia do custo-benefício.

Ao conferir tratamento mais igualitário a esse tipo de ilícito, o Supremo introduz o fator de equilíbrio entre perdas e ganhos na decisão da freguesia interessada em se locupletar naquele conhecido balcão.

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