De funcionário a dono de franquia
O que muda para quem sempre viveu de salário e passa a comandar uma unidade franqueada. Ninguém deve largar o emprego antes de fazer autoanálise criteriosa
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Luciane Macedo _247 - Ser dono de uma franquia é o sonho de consumo de muitos brasileiros que querem dizer adeus à vida de assalariado e, não raro, também ao chefe. Em franca expansão Brasil adentro há dez anos, as franquias oferecem menos riscos de dar errado que abrir um negócio por conta própria. No franchising, já se começa com o knowhow de uma marca e o suporte para fazer um bom plano de negócios e escolher o lugar certo. Neste mercado, que movimentou R$ 88,8 bilhões no ano passado e deve crescer 15% em 2012, é tentador começar a poupar para embalar o sonho. Ele pode virar realidade tanto para quem dispõe de apenas R$ 1.000,00 para investir, como para quem tem mais de R$ 1 milhão para abrir sua unidade de franquia.
O que poucos candidatos nas filas de espera das marcas mais concorridas se dão conta é que a trilha do sucesso começa não no mercado, mas neles mesmos. Nem todo mundo nasceu para ter uma franquia, e é preciso estar preparado para fazer a transição entre trabalhar como empregado e ser um empreendedor. Em essência, essa mudança requer todo um novo modo de pensar e agir a que nem todo mundo se adapta por traços pessoais, que nada têm a ver com estratégias de negócios ou tendências de mercado. Então, antes de largar o emprego na levada do entusiasmo, vale a pena fazer a pergunta: franquia é o tipo de negócio para você?
"O pior erro de quem compra uma franquia é pensar: 'Vou partir para esse negócio porque não aguento mais o meu chefe'", comenta Adir Ribeiro, presidente da Praxis Business, consultoria especializada em franchising e varejo. "No momento em que você se torna um empresário no ramo de franquias, você vai ter o chefe mais crítico do mundo, que é o cliente", assinala o executivo. "Pensar que você vai ter independência total é comprar franquia pelo motivo errado, porque, no fim das contas, o que vale sempre é o cliente, é ele quem manda nos negócios e até na empresa".
E não há quem não tenha vivido essa experiência na pele como consumidor. No ramo de franquias, quem nunca passou pela situação de receber um atendimento ótimo em uma loja e péssimo em outra na rede de uma mesma marca? "Gerar uma experiência de compra adequada é ponto-chave para o sucesso de uma unidade de franquia, e o cliente é um chefe implacável", ressalta Ribeiro.
Não basta ter bom treinamento para gerar uma experiência de compra que faça do cliente um freguês. O dono de uma franquia tem que ter veia de empreendedor para comandar o negócio e saber que o sucesso de sua unidade depende dele. É uma mudança e tanto para quem está habituado a trabalhar para os outros sem ter tanta responsabilidade.
"Nem todo mundo nasceu para ser empreendedor, quem quiser ter uma franquia precisa fazer uma autoavaliação criteriosa, a análise interior tem que vir antes da análise de mercado", recomenda Ribeiro. O especialista em franchising e empreendedorismo sugere cinco passos para fazer essa reflexão e descobrir se uma franquia é mesmo o negócio mais adequado aos seus planos (veja abaixo).
"Tem muita gente que não vira a chavinha e reclama do franqueador como se fosse o chefe", comenta Ribeiro. "A postura da pessoa demora para se transformar em atitude empresarial", observa. "Tem muito franqueado reclamando com o franqueador que o cliente não entra na loja. Mas a loja é dele, ele tem que entender que o negócio é dele. Não dá para confundir franqueador com chefe e achar que ele tem que cuidar de tudo".
O papel de cada um tem que ficar claro para quem pensa em entrar no ramo. "O papel do franqueador é pensar globalmente e no longo prazo, desenvolver produtos e campanhas", explica o especialista. "O papel do franqueado é pensar regionalmente e no curto prazo, como ele vai agir para operar a sua unidade de franquia com excelência".
Segundo Ribeiro, mensurar o nível de satisfação do cliente também é tarefa do dono da unidade de franquia, e essencial ao sucesso, mas muitos a ignoram por não pensarem como empreendedores. "É fundamental você encantar o cliente. Se antes não havia muita opção de compra, hoje não há compra sem opção", salienta o especialista. "Então, o franqueado tem que ser ele a melhor opção, e é essa ficha que não cai de maneira natural".
Vale lembrar, no entanto, que uma unidade de franquia não é uma ilha: o sucesso (ou fracasso) de cada um repercute na reputação e no faturamento da marca. Não por acaso, as redes de franquias líderes de mercado em seus segmentos têm processos de seleção criteriosos e, muitas vezes, já usam seus próprios franqueados de sucesso para comandar novas unidades.
Mesmo assim, há quem entre no franchising sem estar preparado para aderir aos padrões de uma marca, um dos fatores que minimizam o risco do negócio. "É muito fraco o sentido de pertencimento do franqueado brasileiro, ele esquece que faz parte de uma rede", comenta Ribeiro. "Se ele não gosta do padrão, mas comprou a franquia mesmo assim, então que participe dos conselhos ou comitês que existem nas redes e questione o franqueador", sugere o especialista.
O ideal é que o potencial franqueado já comece a pensar no negócio conhecendo bem o DNA da marca, sua missão e valores, além de se identificar com o ramo de atividade da franquia para poder alinhar sua formação e afinidades a tudo aquilo que o franchising já oferece para que o negócio decole.
"Já somos o quarto país do mundo em marcas franqueadoras, são mais de 2 mil e 94% delas são nacionais", comenta Ribeiro. Na avaliação do especialista, é grande a vocação franqueadora do Brasil e a cultura empreendedora vem se desenvolvendo a passos largos, um cenário que tem tudo para favorecer a expansão deste mercado com novos êxitos entre recém-chegados e potenciais donos de novas unidades de franquia.
"O melhor candidato a comandar uma franquia de sucesso é o que tem perfil gestor aliado ao comportamento empreendedor", conclui o presidente da Praxis Business. "É aquela pessoa que está preparada para receber as informações bem elaboradas do franqueador e sabe como agir para conduzir o seu negócio com excelência".
De funcionário a dono
Leandro Zanella, franqueado da Ortodontic Center há seis anos, decidiu abrir sua própria franquia depois de vivenciar o funcionamento do negócio de dentro. O dentista trabalhava em uma unidade da rede em Caxias do Sul e, depois de um ano como funcionário, decidiu partir para o empreendedorismo. Zanella, dono da única unidade da rede em Porto Alegre, já pensa em expandir os negócios com novas unidades. As instalações, ele já ampliou: embora tenha começado pequeno, com o retorno financeiro do investimento ele triplicou de tamanho -- e clientela.
Mas engana-se quem pensa que foi uma transição fácil. "Eu sou dentista, então também enxergava o negócio de franquia como dentista, tive que correr atrás e ampliar meus conhecimentos", lembra o empreendedor. "Embora a franquia passe todo o knowhow, eu completei minha formação com cursos nas áreas de administração, marketing e gestão de pessoas".
Quando era dentista na Ortodontic Center de Caxias do Sul, Zanella tinha, também, seu consultório particular. No comando de sua própria franquia e sem o consultório, dedica-se a conduzir o negócio em tempo integral, com a ajuda da mulher, Paula, mas não abandonou o dia a dia do atendimento. O dentista também não trabalha menos só porque tem uma franquia de sucesso, e sabe que a clientela é seu maior patrimônio.
"Hoje sou um criador de relacionamentos", define-se. "Este mês, recebi meu cliente de número 12, que voltou depois de seis anos", orgulha-se. "A maior parte das avaliações é comigo, eu já crio um relacionamento com o cliente na porta de entrada, que é com Dr. Leandro", conta. "Só depois é que redireciono ao atendimento, mas fico à disposição dos meus clientes o tempo todo".
Zanella lembra que começou do zero em uma cidade estranha, e acredita que sua atitude empreendedora também ajudou a contornar os riscos do negócio em franquias. "Investi tudo o que eu tinha, mas foram riscos calculados e programados, acho que isso é ser empreendedor", avalia. "Poderia não ter dado certo, mas ficar na minha cidade de origem também poderia não ter trazido os resultados que eu almejava, então todo mundo tem que medir os seus riscos", pondera. "Hoje, tenho satisfação financeira e pessoal com meu negócio e fazendo o que gosto".
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