Colunista insinua que governo tucano sabia de cartel

Vladimir Safatle, da Folha, diz que Geraldo Alckmin tem razão em dizer que o Estado é vítima nesse caso, mas para ele, o culpado é o próprio governo: "É difícil acreditar que um cartel dessa monta passe décadas a operar no Estado sem que seu governo simplesmente não soubesse de nada"

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247 – O governador Geraldo Alckmin obteve ontem aval da Justiça para ter acesso às investigações de suspeita de cartel em contratos de metrô e trem desde a gestão de Mario Covas. Para o colunista da Folha Vladimir Safatle, a postura de que o caso era desconhecido pelo governo não convence. Leia:

No fim da linha

"Se for confirmado cartel, o Estado é vítima." Esta é uma frase que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pode anexar ao seu compêndio.

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Ela poderá vir na mesma página de outra que gosto muito, proferida à ocasião de mais uma ação espetacular de sua polícia: "Quem não reagiu, está vivo". As duas têm em comum a mesma capacidade de tentar, digamos, usar o óbvio para esconder o absurdo.

De que há um cartel comandando a construção do metrô de São Paulo não precisávamos esperar as últimas semanas para desconfiar.

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O caso Alstom roda nas cortes europeias há anos, com denúncias substantivas contra o governo paulista.

Notícias que davam conta de concorrências forjadas frequentaram as páginas dos jornais mais de uma vez. Devido a elas, o presidente da companhia estadual de metrô chegou a ser afastado pelo Ministério Público por suspeita de fraude em licitações, para em seguida ser reconduzido e, meses depois, pedir demissão.

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Com uma lista dessas nas mãos, não era difícil juntar os pontos e perceber que havia indícios extremamente plausíveis de que o Metrô paulistano se tornara um celeiro de propinas para o partido que governa São Paulo há tanto tempo que a maioria até parou de contar.

Não são poucos os paulistas que esperam uma devassa capaz de explicar por que, afinal, o Metrô ultimamente aparece mais nas páginas policiais do que nas páginas dedicadas à inauguração de obras públicas.

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De fato, o Estado é vítima em toda essa história, como bem lembrou o governador. Falta perguntar de quem. Pois, ao que tudo indica, o Estado é, neste caso, vítima de seu próprio governo.

É difícil acreditar que um cartel dessa monta passe décadas a operar no Estado sem que seu governo simplesmente não soubesse de nada. Claro que os membros do governos poderão dizer: "Eu não sabia". Já vimos esse filme antes, só que em outro canal.

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De toda forma, temos diante de nós um belo instante para recuperar a luta contra a corrupção, para além do udenismo que a colonizou nos últimos tempos.

Até o momento, tentou-se atrelar a indignação popular ao raciocínio seletivo de quem acusa seus inimigos corruptos para proteger seus amigos igualmente corruptos.

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Agora que a exigência de uma outra política aparece de maneira ampla, o fastio com a corrupção pode ser uma arma importante para a conscientização da necessidade de uma reinvenção democrática radical.

Neste modelo de democracia que temos, com suas relações incestuosas entre empresariado e classe política, todo inverno termina em um mar de lama.

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