Cachoeira, o articulista, faz ataques a sociólogo
Em texto publicado com destaque de capa no jornal Diário da Manhã, de Goiânia, contraventor acusa professor da UFG, doutor em sociologia pela UnB, de ser garoto de recados da “estrutura do Estado”; no texto, bicheiro cita Nietzsche -- “Prefiro dormir em meio às vacas que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades” --, garante que provará sua inocência, fala até do problema das drogas e se propõe a “contribuir para o elevado debate de ideias que permitam o crescimento do Brasil”; professor, alvo dos ataques de Cachoeira, publicou texto onde diz que disputa territorial da contravenção pode levar a uma “onda de crimes violentos típicos da lei e da ordem do crime organizado”
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Goias247 - O contraventor Carlinhos Cachoeira acaba se revelar seu lado articulista. Em texto publicado na edição desta segunda-feira, 15, jornal Diário da Manhã, de Goiânia, a principal figura da Operação Monte Carlo acusa o professor Dijaci David de Oliveira, doutor em sociologia pela UnB e professor de Ciências Sociais da UFG, de ser garoto de recados “da estrutura do Estado”.
O contraventor não dá pistas sobre quem ou o que seria essa “estrutura do Estado”, mas sugere que o professor leve o recado de volta. A revolta de Cachoeira foi motivada pelo artigo “Geografia do crime” (aqui, para assinantes), publicado pelo professor Dijaci no jornal O Popular do domingo, 14, em que fala sobre a existência de grupos de exploração de jogos de azar, a manutenção de territórios de exploração e da reorganização dos esquemas do contraventor.
http://goo.gl/DDbWN
Em trecho de seu texto, professor faz um alerta: “Como praticamente todos os envolvidos com a operação dos jogos ilegais estão soltos, o mais provável é que o grupo de Cachoeira esteja se reorganizando. Mas se prevalecerem os cenários de insubordinação de ex-operadores ou de invasão territorial, então podemos assistir, em um tempo não muito distante, a uma onda de crimes violentos típicos da lei e da ordem do crime organizado. Se esses cenários se evidenciarem, certamente o ambiente da segurança pública se tornará preocupante.”
Veja a íntegra do artigo de Cachoeira:
Ao mestre, com o respeito que ele não teve
Carlinhos Augusto de Almeida Ramos
Especial para o Diário da Manhã
“Saí da casa dos eruditos e bati a porta ao sair. Por muitas vezes minh’alma assentou-se faminta à sua mesa. Não sou como eles, treinados a buscar o conhecimento como especialistas em rachar fios de cabelo ao meio. Amo a liberdade. Amo o ar sobre a terra fresca. Prefiro dormir em meio às vacas que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades.” Friedrich Nietzsche
O professor Dijaci David de Oliveira, doutor em sociologia pela UnB e professor de Ciências Sociais da UFG, publicou um artigo em seu nome no jornal O Popular, edição desse domingo, 14 de abril, intitulado “Geografia do crime”, tecendo comentários a meu respeito, conjecturando sobre a existência de grupos de exploração de jogos de azar e a manutenção de territórios dessa exploração. Divagou sobre o que chama de minha “reorganização” e um fantasioso cenário de insubordinação de pessoas que possam, talvez, um dia terem sido ligadas a mim.
O texto do professor traz claramente o ranço de ter sido produzido a mando de alguém com a clara intenção de tentar me intimidar, de servir de cabo de chicote para me mandar calar a boca, de impor-me um silêncio para não incomodar quem quer que seja. Longe de ser um exercício de formulação sociológica o texto busca claramente dar credibilidade a acusações feitas contra mim e cujas quais exercito democraticamente meu direito de defesa no espaço legítimo: o Judiciário.
Pois bem, busco as páginas do Jornal Diário da Manhã para responder ao professor, prestando-lhe a devida reverência, o respeito que ele não me dispensou em seu artigo. Encontro tribuna livre no DM, veículo que se tornou a materialização da democracia e da livre circulação de ideias. Presto o mesmo respeito ao O Popular sabendo que poderia replicar o ataque, mas teria de esperar vários dias para incluir minha resposta e quando isto acontecesse o assunto já estaria frio e a circulação da versão do doutor em sociologia teria ganhado a condição de verdade absoluta. Nas páginas do Diário impera a liberdade para o debate respeitoso, sem dogmas e sem ataques pessoais.
O comentário do professor Dijaci David de Oliveira é puramente pessoal e visa exclusivamente agredir-me de forma pessoal. Começa divagando sobre “submundo do crime”, “invasão de território”, de “agente hegemônico”. Os delírios do sociólogo falam de escutas telefônicas e de uma possível reestruturação do “mercado da contravenção”. Sem falar no “grau de infiltração nas estruturas do Estado”. Esse foi o ponto mais nevrálgico e que revela o lugar de maior vulnerabilidade no recado que lhe foi mandado dar.
Como quem traz recado também se habilita a levar recado, o professor-recadeiro deve ficar ciente de que não me intimido com qualquer das bravatas rastaqueras presentes na tentativa de intimidação. Como já disse anteriormente, respondo na Justiça contra todas as acusações que me foram feitas. Faço isto com dignidade e cabeça erguida, com respeito ao Poder Judiciário, fórum legítimo para resolver os conflitos, inclusive dos organismos policiais contra cidadãos.
O estado democrático de direito preconiza obrigatoriamente respeito ao que está na Constituição, soberana garantia que nos dá a certeza de que “ninguém será considerado culpado antes do trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Como qualquer cidadão exercito meu direito ao contraditório e provarei, tenho certeza, que são infundadas as acusações e ilegais as provas juntadas contra mim. O que não existe é o direito ao doutor em sociologia me apontar um dedo sujo cumprindo o mando de alguém para me impor um silêncio como se já existisse uma pena a ser cumprida: o degredo e a palavra cassada.
Continuo a ser cidadão, pai de família, empresário que paga impostos e que presta contas de seus atos. Compareço com minhas obrigações ao “pacto social”, recolhendo os tributos que me são exigidos e que garantem salários de professores e universidades públicas e gratuitas, onde o mesmo professor encontra trabalho para fazer suas pregações.
Como estudioso de ciências sociais o professor Dijaci devera declinar de ser recadeiro de quem quer que seja e analisar com imparcialidade todos os aspectos da sociedade brasileira, não apontar seu dedo parcial para quem já se defende de todas as acusações na esfera competente. Preocupar-se com contravenção, com máquinas caça-níqueis, com invasão de território do jogo, com provas colhidas de forma ilegal é muito pobre, usar seu texto e colocar sua cara de fora para dar recado intimidador é muito rastejante. Isto é muito pouco para quem ostenta o título de doutor, para quem forma mestres e bacharéis. O figurino de pensador medíocre não lhe cabe, distinto professor.
Creio que seria mais nobre os doutores se debruçarem sobre situações mais urgentes para a sociedade brasileira, como a fome, a miséria, a corrupção, o ensino deficitário, a falta de vagas nas escolas, a imundície dos cárceres, o inferno das drogas. Sim, elas, as drogas. Nenhum sociólogo. Nem mesmo um mestre em sociologia. Nenhum doutor em sociologia foi capaz de até agora apresentar um projeto exequível que consiga fazer um competente enfrentamento ao crack e combater de forma efetiva a desgraça que se abate sobre a sociedade brasileira com o avanço das drogas sobre as famílias brasileiras, principalmente as mais carentes, onde sociólogos ou doutores em sociologia chegam para dar assistência, prestar solidariedade e apresentar solução. Por uma razão bem simples: a vivência acadêmica lhes exige dedicação. Enquanto as drogas corroem nossos jovens em plena idade produtiva doutores formam grupos para discutir seus problemas, enquanto outros promovem revoluções em salas de aula e se vendem para levar recado de quem lhes dá uma paga, muitas vezes muito abaixo de seu peso.
Mas, se o distinto professor quiser polemizar sobre o que iniciou na discussão aceito o desafio. Será gratificante debater com tão eminente figura. Um doutor, confesso que jamais pensei que poderia enfrentar no campo das ideias. Comecei a trabalhar bem moço. Não tive condições de frequentar salas de aula por tanto tempo a ponto de me tornar um doutor. Entretanto, se puder, ainda que contra mim pesem acusações de ser contraventor, de pertencer a um grupo criminoso, de defender território com “todos os meios possíveis” e tentar reestruturar o “mercado da contravenção”, repito, se me for permitido, gostaria de contribuir para o elevado debate de ideias que permitam o crescimento do Brasil, a melhoria de vida de minha gente e o esclarecimento da verdade, ainda que seja incômoda a tantos, em tantos níveis de poder e com a possibilidade de influenciar pessoas com tal alcance, chegando ao ponto de usar um professor-doutor para ser seu recadeiro.
Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, é empresário.
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