Trabalho informal sem direito à quarentena: “Se eu ficar em casa como vou sobreviver?”

Diaristas, motoristas, entregadores e ambulantes contam à Agência Pública como têm passado os primeiros dias de recomendação de isolamento em São Paulo

(Foto: abr | reprodução)


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Por Júlia Dolce e Rute Pina, na Agência Pública - Após entrar em seis lojas do centro de São Paulo à procura de um recipiente de 60ml para vender álcool em gel, a ambulante Ana Santana, de 30 anos, desistiu. Conformada, ela explicou: “Todos os marreteiros estão vendendo álcool em gel. Eu precisava das embalagens deste tamanho porque já mandei fazer os rótulos”. Acostumada a vender chocolates na Linha 7-Rubi da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), ela acordou às 7 da manhã na terça-feira (17) para organizar a mercadoria com maior demanda no momento.

Ana faz parte do grupo de trabalhadores informais e autônomos que dificilmente conseguirão seguir a recomendação de isolamento voluntário feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para a população de países com casos confirmados do novo coronavírus. A indicação do órgão internacional tem como objetivo frear a curva de transmissão da doença Covid-19. No Brasil, os trabalhadores informais representam 41,4% do mercado de trabalho, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicados em janeiro deste ano. A porcentagem, que representa 38 milhões de pessoas, vem crescendo anualmente.

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No caso da marreteira, o esforço em vender um dos produtos mais relacionados ao combate do coronavírus corre contra o relógio da quarentena da população paulistana. “O trem já está praticamente vazio perto do que é normalmente. Nós vamos vender pra quem?”, questionou. Ana explica que vai trabalhar em dobro nesta semana porque, além da redução dos clientes, terá que ficar em casa com as filhas nas próximas semanas. Mãe solo, ela tirou os primeiros dias do avanço das contaminações no país para ficar “para lá e pra cá”, tentando alcançar sua meta mínima diária de R$ 50 livres, vendendo cada álcool gel por R$ 5.

“As aulas foram suspensas, não tenho com quem deixar minhas filhas. Não podem ficar com os avós, minha mãe tem problemas de saúde. A babá da minha filha mais nova, que tem dois anos, mora com dois idosos, então não pode ficar”, explica, acrescentando que o planejamento provavelmente será o suficiente apenas para manter os mantimentos da casa, “porque contas não vou conseguir pagar nenhuma”.

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Pela falta de álcool em gel nas lojas paulistanas, Ana calcula que conseguirá encontrar o produto para vender até amanhã (19). Para sua segurança, ela tem usado máscara de enfermagem no rosto mas se preocupa com o caminho que faz para chegar ao centro de São Paulo, passando pelo aeroporto de Guarulhos, onde tem contato com pessoas vindas de diversos países.

Evitar aglomerações, outra recomendação do Ministério da Saúde, tem sido difícil para vendedores ambulantes. A poucos quilômetros do centro, Maria Eva, de 47 anos, vende acessórios, como carteiras e película protetora para Carteira Nacional de Habilitação, em frente ao Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran) na Armênia, zona norte da capital paulista, que costuma ficar lotado.

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Ela mostra no WhatsApp as mensagens que tem recebido sobre a epidemia do coronavírus, quando é interrompida por um colega, que também trabalha como ambulante, para ela trocar uma nota de R$ 50 reais. Ela abre a pochete, troca por duas notas de R$ 20 e uma R$10. “Aqui toda hora a gente pega em dinheiro, então a gente está se protegendo como pode”, diz ela, com um pequeno frasco de álcool em gel na bolsa. “A gente fica com medo também, mas não tem o que fazer”.

Eva trabalha em frente ao Detran de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. “A hora que o Detran abre, eu começo a trabalhar. O Detran fecha, eu vou embora. É assim”, conta. Até a segunda-feira (16), o movimento parecia normalizado, o que não era a tendência dos próximos dias. “Se alastrar de verdade, se o Detran fechar…. Aí não tem como. Por enquanto, estamos indo até segunda ordem”, diz a vendedora. Um dia após nossa conversa, governo do estado anunciou que começaria a restringir a entrada de pessoas no prédio do órgão, por conta da epidemia.

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