'Trabalhadores de aplicativo são os maiores exemplos de precariado', diz Ruy Braga
Sociólogo explica que país vive sob uma informalidade, convocado a esquerda para propor políticas mais radicais de proteção aos trabalhadores
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.
Opera Mundi - No programa 20 MINUTOS ENTREVISTA desta quarta-feira (13/10), o jornalista Breno Altman entrevistou o sociólogo Ruy Braga sobre as novas relações de trabalho na era dos aplicativos.
Especialista em sociologia do trabalho, Braga fala em “precariado” ao invés de utilizar o termo proletariado. Para ele, essa expressão indica uma fração precarizada da classe trabalhadora submetida às incertezas do trabalho e que "pendula entre o aumento da exploração econômica e a ameaça mais ou menos permanente de exclusão social e perda de direitos trabalhistas”.
Apesar de afirmar que o fenômeno já está atingindo classes médias, de trabalhadores mais qualificados, “o maior exemplo de precariado são os trabalhadores de aplicativo”.
“É uma tendência mundial. A desregulação do mercado de trabalho se somou ao aumento exponencial de startups. Hoje, você tem uma economia de plataformas, dominada por grupos de tecnologia e presentes em todos os setores. Então você vê o trabalhador dessas plataformas como o menos qualificado, numa relação totalmente informal e desprotegida. É uma relação muito mercantilizada”, explicou.
De acordo com Braga, a precarização é um fenômeno de certa forma inevitável à desindustrialização e um elemento estrutural do capitalismo. Assim, “o fim da precarização do trabalho depende da superação do capitalismo, porque está ligado à natureza da relação salarial que, por sua vez, está ligada à mercantilização, à volatilidade do mercado de trabalho”.
Consequências do precariado
O sociólogo discorreu sobre os efeitos “devastadores” da precarização do trabalho, principalmente nos sindicatos, que se enfraquecem ou não conseguem se constituir nos trabalhos informais.
Ele explicou que durante a era lulista, por exemplo, o que havia no Brasil era uma sociedade com um projeto de industrialização. Por mais que houvesse a informalidade, o objetivo de conseguir um emprego formal estava no horizonte. Essa dinâmica de emprego está em declínio, já que “o horizonte da formalidade foi colapsando com o avanço do neoliberalismo”.
“Em aplicativos de entrega, os jovens não têm expectativas de se aposentar, não têm nenhuma proteção perante acidentes, por exemplo, e ainda são impedidos pelas empresas hightech de progredir na linha de acesso a direitos. É a nova informalidade: quem entra no mercado informal da economia de aplicativo nunca vai entrar no mercado formal. E aí é complicado exigir que os sindicatos façam frente a isso porque o projeto de sociedade mudou”, refletiu.
Com um cenário desses, Braga ponderou que estaríamos diante da ideia do desmanche das classes trabalhadoras, pois vão deixando de existir as antigas classes ligadas à industrialização. Consequentemente, numa sociedade que integrava pelo trabalho, passa a haver o “desmanche de identidades sociais”.
“Afastados dos sindicatos, os trabalhadores não constroem mais suas identidades pelo trabalho. E, como permanece a dinâmica da individualização, da ideia falsa de que o trabalhador trabalha para ele mesmo, não ficam claros os interesses de classe, porque eles não estão assentados como interesses coletivos”, argumentou.
Isso não significa, contudo, que não existe a possibilidade de construção de uma coletividade, pois as identidades passam a se construir por outras formas. O sociólogo listou a religião, a cultura dos bairros e os movimentos sociais.
Para ele, é fundamental que a esquerda consiga conectar essas identidades com o trabalho, “pois o trabalho atravessa todas elas". "Sem a relação com o trabalho, essas lutas não vão conseguir avançar em direção a uma luta anticapitalista", disse o especialista.
‘Esquerda pode mitigar os efeitos’
Braga se aprofundou no que ele considera como tarefas da esquerda no combate à precarização do trabalho. Ele reafirmou que, apesar de uma revolução ser a única forma de superar o fenômeno totalmente, governos de esquerda “podem mitigar essa realidade”.
Para tanto, o sociólogo defendeu a necessidade de uma esquerda mais radical para de fato atender as demandas das massas afetadas pela precarização e deu exemplos de políticas públicas nesse sentido.
“A informalidade não contribui com a Previdência nem com mecanismos de defesa ao trabalhador. A esquerda tem que apresentar soluções que protejam os trabalhadores sem exigir contribuição, por exemplo taxando os ricos, as empresas, ampliando o Bolsa Família e o Auxílio Emergencial. Sem isso, não vamos conseguir enfrentar o problema da precariedade”, enfatizou.
Simultaneamente, ele falou sobre a importância de criar um projeto de desenvolvimento sustentável e de se planejar para a recuperação do investimento capitalista para criar empregos e passar o precariado à formalidade.
“Não podemos aceitar a situação e falar na abolição dos trabalhos assalariados. Lula provou que é possível articular crescimento econômico com assalariamento. De momento, temos que, além de implementar políticas de segurança social, mobilizar a estrutura de assistência social, qualificar os trabalhadores e criar mecanismos para apoiá-los nesse momento de transição. Em algum momento o mercado vai se recuperar, vão aumentar os empregos e a gente precisa poder voltar a integrar essa massa pelo trabalho”, concluiu.
Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:
iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popularAssine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:
Comentários
Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247