Rolando dívidas
O problema não apareceu hoje, nem terá seus contornos definidos de um dia para o outro, mas a mensagem está clara: os países desenvolvidos não possuem capital suficiente para pagar suas dívidas
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O problema não apareceu hoje, nem terá seus contornos definidos de um dia para o outro, mas a mensagem está clara: os países desenvolvidos não possuem capital suficiente para pagar suas dívidas, e o que me parece pior ainda, não conseguem ter credibilidade no mercado para rolar as dívidas, o que significaria na verdade tentar um prazo maior para que possam ganhar um fôlego em seus combalidos fluxos de pagamentos e através da recuperação econômica ampliar sua arrecadação.
A pergunta que paira em diversos debates econômicos é sobre qual o espaço temporal que se levará para a crise de dívida soberana atingir economias como a Alemanha?
Com uma crise de arrecadação ligada à queda da atividade econômica, um grande número de países se colocou frente a um desafio fiscal que pode adicionar o sofrimento de sua população ao que se propõe como saída da crise econômica.
De um lado, a ideia pode até parecer simples: cortar os gastos. Porém, a solução caminha por outra rota que promove muito mais desarticulação do que uma soma de ideais e valores.
As ações de cortar despesas públicas, ou mais promovidas como medidas de austeridade, carregam consigo uma dose alta de impopularidade, que gera nos meandros políticos um enfraquecimento que acaba inviabilizando ainda mais medidas que possam ajudar o país neste momento econômico difícil.
Assim, a oposição política apóia-se em tal discurso para buscar os votos necessários para chegarem ao poder, porém, quando o conquistam, notam que uma das saídas passa pelo impopular projeto de corte de despesas, praticamente voltando ao horizonte planejado pelo seu antecessor.
Um dos mais recentes exemplos foi a eleição francesa, em que Nicolas Sarkozy perdeu o pleito eleitoral para o socialista François Hollande, que prometia um rompimento da estrutura de política econômica adotada por Sarkozy, reconhecidamente um aliado da austeridade imposta por Ângela Merkel, primeira ministra da Alemanha.
O que se viu, no entanto, foram medidas na mesma linha de austeridade econômica antes implementadas por Sarkozy, o que gerou mais greves, ações contra o governo e reiterada impopularidade para o novo primeiro ministro recém eleito, que em tese, assumiria para mudar os rumos desta política restritiva.
A austeridade que vem sendo implantada na Europa e que deverá entrar de forma mais incisiva nos EUA caminham para uma ação que sufocará a economia de tal maneira a quase imobilizar seus agentes econômicos. Propõe-se uma elevação da carga tributária e uma redução da injeção de gastos públicos na economia.
O giro econômico terá sua temperatura rebaixada a patamares alarmantes, somando ainda uma conjuntura econômica em que os níveis de relações comerciais externas estão em uma leve redução, muito provocado pelas mudanças econômicas e políticas que a China enfrenta. Ou seja, baixa atividade econômica interna e ausência de opções para escoamento produtivo.
Assim, com um aperto nas contas públicas mais firme do que normalmente se espera, uma das ações defendidas seria a rolagem de dívidas, que repetidamente, não passa de um movimento em alongar o período de pagamento para que se encaixe nos orçamentos públicos o pagamento de tais passivos. De se destacar que ocorrerá aumento das despesas de juros devido à extensão do prazo de pagamento.
Porém, a variável exógena que não se materializa nestes modelos de negociação é a queda total das expectativas e credibilidades dos agentes econômicos para com os países endividados, temendo não honrar suas dívidas. Houve uma perda institucional muito grave sobre as nações que hoje estão praticamente mendigando milhões. Pode parecer irônico utilizar o termo mendigo para se buscar milhões, porém, a estrutura do mercado financeiro não garante mais nenhum centavo para as dívidas soberanas.
A elevação do teto de dívidas do governo estadunidense fará com que Barack Obama inaugure uma rota de negociação muito pesada com as forças políticas ali enraizadas. O termo abismo fiscal, que vem sendo cunhado pela imprensa dos EUA rascunha parte do problema a ser enfrentado pelo presidente recém eleito, que deverá ficar na história marcado com o presidente que gerenciou uma crise econômica onde a capacidade de pagamento de dívida estadunidense foi questionada em duas oportunidades. (Deve-se lembrar que no ano passado o governo de Obama teve que negociar com o Senado uma elevação do teto de dívida, que colocou quase em paralisia as operações de seu governo)
A opção agora é: ou o governo de Washington seduz os Republicanos para conseguirem ter margem de manobra, ou, já no início de 2013, a situação econômica do país se agravará porquê não há uma rede social ativa e muito menos indicadores de que a atividade econômica será capaz de compensar a ausência dos subsídios e capital estatal e criar empregos para reincluir seus cidadãos à economia local.
O grande problema dos EUA é a ausência de uma rede social formal para aqueles que estão sem emprego, uma vez que sempre se acreditou que as crises econômicas que assolaram aquele país abriria janelas de oportunidades, e a retomada da atividade econômica ocorreria de forma tão rápida ao ponto de o trabalhador não necessitar do apoio do estado. Assistências médicas, seguro saúde, planos de previdência e outros estão intimamente ligados a relação trabalhista. Quando ela se perde, o trabalhador fica desprotegido.
Acreditava-se que a política monetária via FED sempre conseguiria reanimar a economia dos EUA, evitando problemas permanentes, mas não se imaginou que esta torpe política monetária é que fosse jogar o país na sarjeta fiscal.
Há necessidade de reequilibrar os orçamentos, porém, precisam-se incluir nesta pauta as instituições reguladoras e a retomada dos investimentos naqueles setores em que o país hoje possui sua melhor vocação.
Reitero ainda que cada país precisa de uma solução específica, e que cada governantes precisará reconhecer suas dificuldades, amargar ações impopulares e colocar a credibilidade de volta aos patamares capazes do mercado da dívida pública aceitar seus papeis e seus riscos. Não é uma tarefa fácil, e isso não ocorrerá dentro de um mês. A credibilidade deve ser conquistada através da soma de muito trabalho.
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