Quebra de livrarias arrasa o mercado editorial

Depois de Cultura em outubro, agora foi a vez da Saraiva pedir recuperação judicial. Gigantes do varejo devem R$ 325 milhões para editoras, que também dão calote nos autores

Quebra de livrarias arrasa o mercado editorial
Quebra de livrarias arrasa o mercado editorial


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Da Rede Brasil Atual O modelo de negócio das livrarias brasileiras está em xeque. Neste ano, as duas maiores redes no país, Livraria Cultura e Saraiva, entraram com processo de recuperação judicial. Quantidade expressiva dos livros vendidos no Brasil, quatro em cada dez, passa por essas lojas. A quebra arrasta toda a cadeia editorial, altamente dependente desse oligopólio que hoje não consegue mais se sustentar.

O problema é mais complexo do que parece. Culpar a crise econômica ou o fraco hábito de leitura dos brasileiros não basta. E as soluções também são delicadas, mas existem.

Diferente de um senso comum que culpa os brasileiros por lerem pouco, a busca por livros vem aumentando ano a ano no país. A Associação Nacional de Livros (ANL) promove mensalmente um estudo sobre o comportamento do varejo de livros no Brasil. A procura por livros cresceu 4,2% este ano – na comparação com 2017. Destaque para áreas como HQs, com alta de 27,1%, e Turismo, Lazer e Culinária, 21,5%.

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Apesar do aumento na demanda, é importante perceber um dado contrastante. Após mais de uma década de crescimento desde o início dos anos 2000, a partir de 2015, o setor editorial apresenta resultados negativos na quantidade de títulos e também na lucratividade. No auge, em 2014, foram produzidos 501.371.513 exemplares em todo o país. Em 2017, após consecutivas quedas, esse número caiu para 393.284.611. Os dados são da série de pesquisas realizadas pela Fipe em parceria com a Câmara Brasileira do Livro.

O presidente da ANL, Bernardo Gurbanov, explica que "os tempos do varejo são diferentes dos tempos da produção". "As pessoas estão começando a consumir um pouco mas, no caso do livro, temos de entender que o processo de produção é demorado. Esse é um elemento importante para entender que o aumento do consumo não está necessariamente relacionado com o aumento da produção. A produção está mais lenta do que o consumo e as livrarias são o principal canal de vendas para 50% da produção."

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Mas se existe a demanda, então quais seriam as razões pelo enfraquecimento da indústria de livros? Para Bernardo, destacam-se dois fatores: a concorrência predatória de grandes grupos e a hiperconcentração do varejo.

Selvagens

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O hábito de compra de livros em todo o mundo foi alterado significativamente graças à ascensão das compras via internet. Bernardo disse à RBA que a representatividade das vendas on-line da Saraiva, por exemplo, corresponde proporcionalmente às vendas da melhor de suas lojas físicas. É um processo natural que cresce com o advento das novas tecnologias, mas o problema começa com práticas predatórias de empresas digitais, como a Amazon, e também o e-commerce das grandes varejistas.

Para a gigante norte-americana, os livros não passam de meras iscas de clientes. “Os principais players do comércio eletrônico utilizam o livro, em muitos casos, como uma isca para atrair o consumidor de outros produtos. É uma técnica de vendas que utiliza o livro para apontar para produtos que têm maior valor agregado. Então, eles abaixam radicalmente o valor do livro, sacrificam uma linha de produtos em função de um lucro posterior”, explica Bernardo.

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“Temos de identificar o que é livre concorrência e o que é concorrência predatória. Isso contribui para o fechamento do varejo físico. Colocam um produto a preço inferior do custo. Isso faz parte de uma estratégia para eliminar a concorrência. Entramos em um território difícil que é a questão da ética comercial”, completa. Por isso, muitas vezes, os livros são muito mais baratos pela internet do que em lojas físicas, o que cria um mal estar no consumidor.

Oligopólios

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O outro aspecto central que ajuda a explicar o processo de falência do setor é a concentração do mercado nas mãos de poucas empresas. “Verificamos um efeito perverso disso. Na medida em que o varejo se concentra, o fornecedor também concentra sua atenção. As principais redes, Saraiva e Cultura, significam aproximadamente 40% de todas as vendas. Então, as editoras passaram a fornecer com privilégios e grandes descontos para essas redes. Agora elas estão quebrando e arrastando o mercado inteiro. A lista de credores da Saraiva arrasta todo o mercado editorial.”

É o caso da Editora Contraponto. A empresa busca novas formas de sustento com a quebra da cadeia, como explica o editor César Benjamin. “Somos uma pequena editora. Como todas as demais, fomos atingidos pela crise que quebrou a cadeia de livros brasileira com muitas falências. Estamos nos esforçando para estabilizar e poder voltar a crescer em 2019.”

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Para isso, eles iniciaram campanhas de financiamento coletivo, com contrapartida de distribuição de livros para os que ajudaram. “Estamos em um esforço de manutenção da cultura viva no Brasil. É um momento de resistência em uma situação tão difícil em que a vulgaridade avança sobre todas as áreas. Ajude as editoras, não deixe o livro morrer”, apela.

Passado e futuro

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Ações como a da Contraponto revelam um dos caminhos possíveis para a sustentabilidade da indústria de livros. Para Bernardo, o varejo é dinâmico, com transformações, e isso não significa uma tragédia. “Temos que ter claro que o mundo não acabou, não é estático. Tem renovação e adaptação permanente às exigências do consumidor.”

Um dos movimentos que tende a ganhar força para Bernardo é uma espécie de “retorno às origens”, com a ampliação da rede de pequenas livrarias. “Há um movimento de renovação dos menores. Fecharam muitas nos últimos anos, mas estão aparecendo novas. E com isso vêm as novas gerações que chegam ao mercado de trabalho. Jovens que amam o livro e o ambiente cultural e não carregam os modelos do passado. Muitas vezes os próprios proprietários atendem o público.”

“O passo é procurar alternativas que passam pela maior atenção com essas livrarias pequenas e médias. Também podemos pensar no comércio online das próprias editoras que precisam escoar seus produtos. São alternativas que estão em curso. Não digo que sejam estratégias definitivas e nem a salvação da pátria. Mas são saídas, tal como maior participação em eventos literários, feiras, enfim, uma maior aproximação com o consumidor vai ser essencial”, completa.

As livrarias físicas possuem importância social e devem se renovar. É possível citar o exemplo da Tapera Taperá, em São Paulo, que promove cursos e palestras quase que diariamente. “A livraria traz a experiência para o consumidor mais exigente. É um lugar de encontro com livros, autores, colegas e pessoas afins. As livrarias, desde que existem, sempre propuseram algo além da compra e venda. A estratégia de transformar a livraria em um centro cultural tende a se fortalecer”, argumenta Bernardo.

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