Provocações de Bolsonaro à França podem causar gelo nas relações

Antes ou depois de assumir a presidência, Jair Bolsonaro não hesitou em multiplicar as críticas diretas à França e a fazer ameaças, como a de sair do Acordo de Paris, posturas que causam desconforto na diplomacia e podem acabar em prejuízos comerciais; “As empresas francesas são as maiores empregadoras estrangeiras do Brasil, mais do que empresas americanas ou alemãs”, lembra o economista Thomás de Barros

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Provocações de Bolsonaro à França podem causar gelo nas relações


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RFI“Insuportável” devido à presença de imigrantes, “mau exemplo” em política de fronteiras, ou ainda a ameaça de abandonar o Acordo de Paris sobre o Clima. Antes ou depois de assumir a presidência, Jair Bolsonaro não hesitou em multiplicar as críticas diretas à França, numa postura que causa desconforto na diplomacia e pode acabar em prejuízos comerciais.

Desde que a chancelaria brasileira assumiu uma posição alinhada aos Estados Unidos, Paris se tornou um dos alvos preferenciais de Bolsonaro na cena internacional. Não à toa, o último disparo ocorreu durante a visita do presidente brasileiro a Washington, quando argumentou que “quem é favorável ao socialismo deve olhar para a experiência da França, que abriu suas fronteiras a todo tipo de refugiado” e “é um mau exemplo”.

Uma fonte diplomática francesa reconhece que as declarações causam “estranheza” e “com certeza não ajudam a relação bilateral”. Para o economista Thomás de Barros, professor e pesquisador do Cevipof, ligado à Sciences Po, de Paris, o impacto acaba por se tornar negativo ao colocar o diálogo de alto nível com a França sob uma perspectiva conflituosa.

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“A relação entre o Brasil e a França ou com a União Europeia é muito maior do que qualquer governo que venha a se instalar tanto no Brasil quanto na França. Não acho que estejamos em uma situação de regressão, mas o que vivemos atualmente é uma situação de imobilismo”, comenta o pesquisador. “Não estamos indo para frente, abrindo mão de uma série de oportunidades para fazer novas parcerias e aprimorar a nossa relação. Ela vai acabar esfriando, ou ao menos em ponto morto, pelos próximos três anos.”

Distanciamento de valores

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Além dos comentários em si, a posição de Bolsonaro contra os direitos humanos e minorias também o afasta de valores historicamente defendidos pelos franceses.

Por enquanto, a postura de Paris é de ignorar as provocações. A única resposta até agora veio quando o presidente Emmanuel Macron advertiu sobre as consequências de um eventual abandono do Acordo de Paris sobre o Clima. Meses depois de Donald Trump fazer o mesmo nos Estados Unidos, Bolsonaro havia prometido retirar o Brasil do tratado, uma das maiores conquistas diplomáticas de Paris das últimas décadas.

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“O Brasil não é os Estados Unidos. O Brasil não tem esse cacife para conseguir sair impunemente do Acordo de Paris. Já em Buenos Aires, em dezembro de 2018, o Macron avisou que o acordo comercial que está sendo gestado há muitos anos entre o Mercosul e a União Europeia não sairia do papel se Bolsonaro de fato retirasse o Brasil do Acordo de Paris”, ressalta Barros. “Essa é uma questão importante: há consequências econômicas disso.”

França é um dos principais investidores estrangeiros no Brasil

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Depois do Marrocos, o Brasil é o maior destinatário de investimentos públicos franceses para desenvolvimento, possíveis graças ao acordo climático. Além disso, mais de mil empresas francesas estão presentes no país e empregam mais de 500 mil funcionários.

“As empresas francesas são as maiores empregadoras estrangeiras do Brasil, mais do que empresas americanas ou alemãs. A França está em primeiro lugar no setor de varejo, com o Carrefour e o Casino, e também no automobilístico”, sublinha o economista Thomás de Barros. “A França é uma parceira econômica muito importante do Brasil.”

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A fonte diplomática francesa, que prefere não se identificar, avalia que “as relações entre o Brasil, a França e a Europa são bem maiores do que essas colocações grotescas” de Bolsonaro, mas pontua que o Brasil pode acabar “isolado" se insistir na retórica hostil.

Nas declarações, o diplomata vê “influência do Steve Bannon”, o ex-estrategista de Donald Trump, que aconselha os filhos de Bolsonaro a consolidar uma onda global ultraconservadora e contrária a valores sociais-democratas em vigor na maioria dos países europeus, incluindo a França.

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Até o momento, não há previsão de encontro bilateral entre os presidentes Bolsonaro e Macron, no Brasil ou na França. Essas visitas costumam ser acompanhadas de comitivas de empresários e são ocasiões preciosas para o fechamento de contratos entre os dois países.

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