Prejuízo bilionário da Ford: caso à parte ou Brasil tem problema estrutural?

Economista ouvido pela Sputnik Brasil explica falhas estratégicas da empresa, que resultaram no fim de sua produção no país, e aponta aspectos e soluções para um cenário de "crise generalizada" do setor automotivo

(Foto: ABr | Divulgação)


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Sputnik - Seria a situação da Ford apenas a ponta de um iceberg prestes a colidir com toda a estrutura da indústria automotiva brasileira? Ou o caso da montadora norte-americana é semelhante a de uma ilha descolada da realidade pujante do continente?

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

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Uma reportagem da agência Reuters revelou que a Ford acumulou um saldo negativo de R$ 61 bilhões no país ao longo da última década.

A empresa, que encerrou sua produção de veículos no Brasil em janeiro deste ano, perdeu R$ 39,5 bilhões por prejuízos no negócio e gastos com aportes financeiros em tentativas de recuperação. Os dados divulgados pela reportagem constam em documentos arquivados na Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp).

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Quase todas as perdas e injeções de dinheiro ocorreram nos últimos oito anos, quando a companhia teve prejuízo de mais de R$ 10 mil por cada carro vendido, segundo a Reuters, com base em registros e dados do mercado.

O restante, R$ 21,7 bilhões, é a quantia que a Ford terá que desembolsar para quitar seus compromissos no país, de acordo com a agência.

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Para o economista Marco Rocha, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a empresa de fato cometeu erros fundamentais para o fracasso recente.

Mas há muitos outros fatores do contexto brasileiro que também contribuíram para seus resultados negativos.

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"A Ford sofreu por um problema de adequação da sua estratégia ao que estava acontecendo em concorrência global e no mercado brasileiro", disse Rocha em entrevista à Sputnik Brasil.

Segundo o especialista, a montadora demorou a adequar a sua linha de modelos ao novo cenário, focando naquelas que concorriam com marcas asiáticas - em expansão no mercado - e que tiveram menor dinamismo com relação aos SUVs (veículo utilitário esportivo, na sigla em inglês) e às picapes.

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"Teve esse aspecto no caso da Ford, mas também não dá para isolar isso, apontar como único fator que levou a empresa a sair do Brasil", afirmou o economista.

Ele lembra que há outros casos de montadoras na "corda-bamba" do mercado brasileiro.

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Mesmo as fabricantes que se anteciparam à onda dos SUVs, obtendo margens mais altas, como Volkswagen, General Motors e Toyota Motors, citadas pela Reuters, têm tido dificuldades para permanecer no azul.

Em abril deste ano, em entrevista ao portal Uol, o presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Luiz Carlos Moraes, afirmou que executivos das montadoras precisam travar uma "briga diária" para convencer as matrizes a manter investimentos no Brasil.

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O professor da Unicamp explica que há dois motivos centrais para "a crise generalizada" do setor no país.

O primeiro deles é o baixo crescimento do próprio Brasil, que, devido ao seu peso e importância no Mercosul, afeta o cálculo das empresas no espaço regional como um todo.

Já o segundo diz respeito às transformações intrínsecas à indústria automotiva. O especialista ressalta que as montadoras mais tradicionais ainda estão tentando absorver o novo paradigma tecnológico, com a indústria 4.0, os modelos ecológicos e a direção autônoma.

"Isso está significando o abandono de alguns segmentos do mercado automotivo e de linhas de produção, com revisão de focos estratégicos, fazendo as montadoras mais tradicionais, excluindo a dos países emergentes, recalcularem e reorganizarem suas estratégias", disse Rocha.

Ele aponta que a indústria está se movendo para veículos de maior porte, como a picape, e destinados ao público de alta renda.

Nesse sentido, o mercado brasileiro fica pouco atrativo para fabricantes de carros mais populares e de menor porte.

Assim, de acordo com o economista, as empresas tendem a fechar linhas de produção no país e atender ao mercado, majoritariamente, através de importações.

"Elas não precisam estar presentes em termos de produção no mercado nacional", lembrou.

A pandemia ainda aprofundou a crise do setor. Em mais de um ano na era do isolamento social, diversas montadoras já tiveram que interromper ou reduzir a produção no país.

"Dentro da indústria de transformação, o setor automotivo deve ter sido um dos mais afetados", disse o especialista.

A saída para a crise do setor

A solução para a crise parece longe de ser trivial. Se, por um lado, os empresários pedem menos encargos trabalhistas e mais reformas para dinamizar a produção, por outro, há uma população com menor poder aquisitivo e menos capacidade de contribuir para ampliar a demanda por automóveis.

Atualmente, o Brasil tem uma massa de 14,4 milhões de desempregados, salário mínimo sendo reajustado apenas pela inflação e previsão de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), de 3,5%, ainda abaixo da queda abrupta de 2020, de 4,1%.

Nessa longa estrada de recuperação, o economista aponta que um bom primeiro passo seria uma reforma de simplificação da tributação.

"O tipo de tributação que temos no Brasil penaliza a indústria de montagem, que funciona em cadeia, integrada nacionalmente como a indústria automotiva", pontuou.

Mas essa é uma parte do problema, segundo o especialista. Rocha afirma que é "muito difícil tornar atrativa para investimento uma economia que cresce pouco".

Por isso, para retomar uma trajetória de crescimento, ele indica a necessidade do aumento da participação do Estado para estimular o emprego, a renda e a demanda.

"Já é o que boa parte do mundo faz. É importante pensar o que ocorre no mundo primeiro, entre EUA e China, lembrando que isso vai se disseminar enquanto prática política", destacou.

O economista observa que hoje há o surgimento de uma série de grandes políticas de reestruturação de setores produtivos nacionais, principalmente em economias desenvolvidas, com modernização de infraestruturas industriais e logísticas e incorporação de novas tecnologias.

"É muito difícil que o Brasil reverta um processo desindustrialização apostando apenas no fator custo para a competitividade. Temos que entender que há um mundo em mudança, com novos aportes tecnológicos e novos planos de política de fomento aos setores produtivos locais. O Brasil precisa se preparar para esse cenário, com esforços em política científica, tecnológica e de inovação", apontou.

Por isso, para colocar o Brasil em uma rota de "reindustrialização", Rocha indica aproveitar o empuxo dos novos investimentos para alavancar a reconstrução do tecido industrial, a partir das próprias empresas brasileiras.

"O governo deveria estar mirando mais nisso do que nessas reformas microeconômicas de impacto exclusivamente no fator custo, que não vão ser suficientes para deter o impacto da modernização sobre a produtividade dos países centrais", afirmou.

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