Política do México explica americanos fora de Libra
Decisão do governo liberal de Enrique Peña Nieto, que quebrou o monopólio estatal da Pemex, suga investimentos de empresas como Exxon, Chevron e Shell, para o Golfo do México; expectativa, agora, é que o leilão do maior campo do pré-sal brasileiro seja dominado por empresas asiáticas, especialmente chinesas, que estão ávidas por novas reservas; grupos nacionalistas defendem que a prioridade na exploração desses campos seja dada à Petrobras; Globo culpa "intervenção estatal" por "ausência de gigantes"
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247 - A desistência de empresas americanas e europeias do leilão do campo de Libra, o maior do pré-sal, tem um motivo: a decisão do governo mexicano, comandado pelo liberal Enrique Peña Nieto, de quebrar o monopólio da Pemex. As principais reservas da companhia estão no Golfo do México, quintal dos Estados Unidos, onde os riscos exploratórios talvez sejam menores do que no litoral brasileiro.
Na sua coluna de hoje, Ilimar Franco, do Globo, aborda a questão:
Viva Zapata!
São vários os motivos que levaram as petrolíferas americanas Exxon e Chevron a não participar do leilão de Libra. Mas o lobista de uma petrolífera europeia avalia que teve peso decisivo a reforma das leis do petróleo no México. O seu presidente, Peña Nieto (PRI), propôs (em agosto) o fim do monopólio estatal do petróleo. As empresas privadas poderão se associar à Pemex e dividir o lucro da exploração. As empresas americanas estão eufóricas. Estimam-se reservas de 29 bilhões de barris no pré-sal do Golfo do México e 13 bilhões de barris de petróleo de xisto. E há ainda os custos. Esses campos ficam no quintal das refinarias que abastecem o mercado americano.
Outro colunista político, Luiz Carlos Azedo, do Correio Braziliense, afirma que, sem os americanos, o leilão de Libra será dominado por empresas asiáticas – especialmente chinesas:
Negócio da China - LUIZ CARLOS AZEDO
A norte-americana Exxon Mobil e as britânicas BP e BG, gigantes do setor de petróleo, anunciaram ontem que estão fora do leilão do pré-sal do campo de Libra, na bacia de Santos. Os norte-americanos já vinham sinalizando desinteresse pelo leilão, como a coluna antecipou no sábado passado, mas a desistência da britânica BG pegou de surpresa a Petrobras: é sua principal parceira no pré-sal.
Segundo a diretora da Agência Nacional de Petróleo, Magda Chambriard, cada empresa alegou um motivo particular para pular fora do negócio. O governo esperava, inicialmente, que até 40 empresas participassem do leilão, marcado para 21 de outubro. Somente 11, até agora, manifestaram interesse no arremate, cuja taxa de inscrição custa R$ 2 milhões.
Com isso, cresce no mercado a expectativa de que as estatais chinesas Sinopec, Sinochem e CNPC protagonizem a disputa. Quem vencer terá de fazer um pagamento imediato de R$ 15 bilhões e firmar o compromisso de investimento mínimo de R$ 610 milhões nos primeiros quatro anos, o que afastou as empresas brasileiras da disputa, com exceção da Petrobras, que já é dona de 30% do campo pela nova legislação. A norueguesa Statoil e a francesa Total seriam também fortes candidatas, segundo a ANP. Mas as chinesas levam vantagens, porque tempo e dinheiro não são problemas para a China. O mais importante é garantir 70% do petróleo do pré-sal para sua economia.
Ceticismo
A previsão da Agência Nacional de Petróleo é de que Libra esteja produzindo 1 milhão de barris por dia em 2020, metade do que a Petrobras levou 60 anos para obter. Essa expectativa, porém, não é consenso no mercado, no qual circulam informações de que a exploração do campo pode levar 20 anos, por dificuldades tecnológicas e custos financeiros.
Investimento
O prazo do contrato de exploração do campo de Libra é de 35 anos não renováveis, e o investimento previsto de US$ 200 bilhões.
Essa questão também abre um debate ideológico. Enquanto jornais conservadores, como o Globo, culpam o excesso de intervenção estatal, grupos nacionalistas defendem que a Petrobras tenha toda a prioridade no pré-sal. Abaixo, artigo de Fernando Brito, publicado no Tijolaço:
Americanos e ingleses se foram de Libra. Vamos perder a chance de que fiquem fora?
Desculpem os amigos se corro o risco de me repetir, mas é tanto, tanto dinheiro envolvido – e dinheiro tão importante para o Brasil – que acho importante esclarecer o quanto possa, e a quantos possa, sobre tudo o que está acontecendo nesta preparação do leilão de Libra.
Em primeiro lugar, um acréscimo que só confirma o que disse antes: a Chevron, outra gigante americana, juntou-se à Exxon, a British Petroleum e a British Gas na sua retirada. Americanos e ingleses agiram coordenadamente, numa atitude claramente política.
Governo americano e petroleiras vivem em tamanho mutualismo que é impensável que esta ação em bloco não tenha o beneplácito – senão a inspiração – dos dirigentes dos EUA.
Segundo, que todo mundo sabe que há um esqueleto de acordo firmado entre a Petrobras e os chineses para entrarem juntas no leilão como força virtualmente imbatível. Porque os chineses querem “remuneração” em vendas firmes de petróleo bruto ao seu país.
Então isso seria ruim para o Brasil? Não seria muito melhor refinar o petróleo e vender derivados refinados? Em alguns momentos – e essa é uma tendência mundial pela insuficiência global de parques de refino – sim.
Mas a questão é que, pelo investimento e prazo de implantação de refinarias, se tudo correr bem,chegaremos a 2020 com uma capacidade de refino de cerca de 3,6 milhoes de barris/dia, apenas o suficiente para suprir o mercado interno de derivados. Mas a produção de petróleo já terá chegado perto de 6 milhões de barris diários, o que produz um excedente de perto de 2 milhões diários de petróleo bruto, que terá de ser exportado em cru.
Mas não deveríamos, então, investir mais em refinarias? Sim, mas de volta o problema: é caro e demorado fisicamente e o retorno econômico do investimento é lentíssimo, de uma década ou mais. Justamente por isso, no mundo, há um déficit de refinarias e, nõ por acaso, fazer refinaria não está sequer nos planos das petroleiras estrangeiras para o Brasil.
Além disso, um refinaria não opera com qualquer tipo de petróleo, ela só pode utilizar óleo com determinada densidade. Antes do pré-sal, 85% do petróleo que hoje produzimos é pesado. O do pré-sal, que vai corresponder ao aumento de produção, é leve.
A inconveniência do leilão de Libra está no valor do bonus iniciial – de R$ 15 bilhões – que vai obrigar a uma descapitalização lesiva à Petrobras, que só pelos seus 30% obrigatórios na nova lei, terá um desembolso de R$ 4,5 bilhões. Se, como tudo indica, a participaçao da brasileira for de 60% ou pouco mais que isso, o desembolso será em torno de R$ 9 a 11 bilhões. Dinheiro que sai da sua capacidade de investir para formarmos o tal – e mau – superavit fiscal.
Mas, frente à conjunção política que se formou, isso acaba sendo aceitável, se nos garante o controle majoritário do maior campo de petróleo do mundo, hoje.
Escrevo no início da madrugada, ainda sem ver as manchetes desta sexta.
Mas já deu para ver com que espanto e indignação a nossa mídia trata a saída de americanos e ingleses do leilão, falando em “fracasso” e “esvaziamento”.
E pergunto aos setores nacionalistas que ainda advogam o adiamento do leilão: não era isso o que o país desejava, sobretudo depois da revelação da espionagem americana sobre a Petrobras?
Vamos perder, por puerilidade, a oportunidade histórica de controlar hegemonicamente o maior campo de petróleo deste paìs e , hoje, do mundo? Tudo dentro da lei, das regras por ela lixada, com tal solidez que balizará o desenvolvimento exploratório do enorme tesouro do pré-sal ainda por ser descoberto ou delimitado?
A resposta a isso só pode ser um não!
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