O novo normal

Nos anos em que predominou o otimismo no Brasil, estávamos pegando uma carona no crescimento chinês com sua fome de commodities, e infelizmente estávamos ignorando a necessidade de reformas



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Alguém, não sei quem, carimbou o termo que intitula esta coluna para explicar o estado do mundo atual, pós 2008. O novo normal se refere ao momento atual, marcado por incertezas e indefinições. Diferentemente do status quo pré 2008, mais do que nunca, nada é certo, nada é garantido e temos que ultrapassar obstáculos dia após dia. Há entre nós aqueles que acreditam que passada esta fase, voltaremos ao normal. Eu não sei se este estado de coisas vai durar para sempre, mas sei que vai durar pelo menos alguns anos devido à situação dos EUA e Europa, seguida da China. Esta incerteza se reflete em extrema volatilidade nos mercados acionários. Está cada vez mais difícil proteger o patrimônio da volatilidade do mercado; os paradigmas que governavam a administração de portfolios no passado – comprar bons ativos e segurar, procurar rendimento e preservar riqueza – estão sob ataque e é muito dificil identificar um bom investimento. O rebaixamento dos titulos do tesouro americano não evitou que estes continuem a ser o ativo considerado seguro. Isto é surpreendente, considerando o rendimento menor do que a inflação. Quem não perceber a mudança em curso, em alguns anos  vai se surpreender com a erosão do seu patrimônio e perda de poder de compra. É necessário que se tenha uma visão do que está acontecendo, que narrativa seguir e então agir/investir de acordo com esta visão.

Para os que investem a longo prazo acho que a aposta deve ser a economia americana apesar de o país encontrar-se dividido como nunca. É muito difícil prever quem sairá vitorioso em Novembro e mesmo que fosse possível, é difícil dizer quem terá o controle da Câmara e do Senado. Há varias combinações possíveis e a maioria delas nos leva a crer que o que se vem chamando de um Congresso disfuncional continuará a existir: um Congresso que não legisla, não passa nenhuma medida relevante, pois a divisão partidária é muito profunda. É provável que nos defrontemos com o “abismo fiscal” que provavelmente levará a uma recessão em 2013 ou no mínimo a uma considerável desaceleração na economia. As estimativas são de que o impacto fiscal será de 4% do PNB ou 600 bilhões e vai variar de acordo com a combinação que sairá vitoriosa das urnas. Presidente com Câmara e Senado do mesmo partido ou algum outro resultado. Apesar de tudo isto, os Estados Unidos tem uma classe empresarial com invejável capacidade administrativa, tem as melhores escolas e apesar das reclamações dos republicanos, um mercado flexivel o suficiente para promover mudanças.

Na semana passada, Obama teve duas grandes vitórias com as decisões do Supremo Tribunal sobre imigração e plano de saúde. Estas vitórias não mudam as tendências eleitorais, mas mudam a “narrativa”: tentar votos para rejeitar a lei que implementa o novo plano de saúde pode ser uma boa bandeira para Romney. Entretanto Obama vai lembrar os eleitores da inconsistência de Romney uma vez que como Governador ele implementou um plano parecido.

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Não preciso me estender muito sobre a Europa: o mercado financeiro festejou na sexta-feira o resultado de mais um encontro, mas como se diz, o diabo está nos detalhes. O efeito de curto prazo foi positivo, mas os problemas estruturais ainda permanecem inalterados. Como economista, sempre me defronto com a inevitável pergunta... – e aí? Como vão as coisas, vai melhorar? Aprendi com os anos que as pessoas não querem realmente uma análise econômica da situação ou explicação dos indicadores econômicos. O que as pessoas querem saber é se a renda delas vai se manter, se o mercado vai subir ou cair. No fundo as pessoas sem saber, estão pensando no Dow Jones, pois é isto que diz se a situação vai melhorar ou não. Mercado acionário subindo, vai melhorar, e o mercado caindo, vai piorar. Mercado subindo você se sente mais rico e vice versa. É por isto que as pessoas estão atrapalhadas com o vai e vem do mercado. Senão vejamos: no começo do ano, até Março, o mercado subiu quase que constantemente, fruto das medidas tomadas no fim do ano na Europa que pareciam mostrar que os Europeus haviam finalmente assumido o controle dos eventos. Subiu também porque os indicadores da economia Americana estavam bons. O Dow Jones chegou a atingir 13.300 pontos, mas em Junho bateu 12.102. O que mudou do primeiro trimestre para cá? A periferia europeia voltou ao noticiário, a Espanha e Itália tem se financiado a taxas cada vez mais altas e os indicadores americanos se deterioram. Além disto, ficamos mais perto das eleições americanas e, portanto, com mais incerteza e indefinição. Para completar a China começou a dar mostras de uma desaceleração maior do que a esperada e outros emergentes também apresentaram piora da situação, entre eles o Brasil e a Índia.

Falando de Brasil, o Governo anunciou na semana passada um novo pacote econômico. Nos anos em que predominou o otimismo no Brasil, eu nunca esqueci que estávamos pegando uma carona no crescimento mundial, particularmente no crescimento chinês com sua fome de commodities, e infelizmente estávamos ignorando a necessidade de reformas (newsletter Janeiro 2012). Agora que o crescimento mundial não é mais o mesmo e parece que nem será, a economia brasileira vem sentindo o impacto. Quanto ao efeito do pacote na economia como um todo, registro aqui meu ceticismo. O crescimento brasileiro foi baseado no consumo e crédito. Com a desaceleração da economia, a inadimplência sobe e o modelo se esgota. Em termos simplistas, quando há crescimento as pessoas se endividam achando que vão continuar empregados e a economia vai continuar a crescer. Quando a economia desacelera o emprego some, mas infelizmente as dividas ficam.

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Na segunda-feira os mercados devolveram parte do ganho de sexta-feira, e na terça o Dow fechou a 12.944. Dependendo dos indicadores americanos que serão anunciados nos proximos dias, das novidades na Europa e China e dos resultados das empresas, o mercado pode passar os 14.000 nas proximas semanas ou voltar para 12.100. Este é o novo normal, façam suas apostas.

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