Não é hora de comemorar
A queda da taxa de inflação anunciada não apresenta uma realidade econômica de um país livre e democrático como o Brasil tenta se apresentar
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Os dados da economia (taxa de inflação) foram amplamente divulgados e comemorados por parte de pessoas ligadas ao governo. Nos 12 últimos meses, a taxa caiu de 6,7% a.a. para 6,27%, retornando para o teto da meta inflacionária, que é de 6,5%. Vale ressaltar que o centro da meta é 4,5% ao ano.
Artigos já proliferam na internet defendendo o sucesso da política econômica aplicada nos últimos dias pelo governo federal, e tentando demonstrar que a confiança foi recuperada. Ora, ainda não podemos comemorar, e ao que me parece, o grupo formulador da política econômica entende a mesma informação, e sabe que a baixa inflacionária ocorreu por outros motivos que não aqueles divulgados.
Enquanto o nível de inflação de produtos não administrados pelo governo cresceu 7,9%, as tarifas administradas por Dilma reajustou apenas em 1,3%. Ou seja, há uma tentativa reiterada do governo em segurar a inflação via distorções de mercado, via subsídios torpes, aplacando sobre a economia desvios que podem custar caro aos cofres públicos, romper o ímpeto de inovação de nossos empresários e cobrir a ineficiência dos formuladores da política econômica.
Mais do que isso, é subsidiar áreas em que deveria se investir para desenvolver novas técnicas. Deveríamos criar formas de inovar, e não fidelizar empresários como clientes do governo em que apenas conseguem operar suas empresas se o governo estiver ali para compartilhar o risco de se empreender.
O governo precisa garantir a confiança institucional, moral, oferecer engrenagem que funcionem de forma plena, e não ser um segurador do risco financeiro ao qual o empresário opta por assumir.
A queda da taxa de inflação anunciada não apresenta uma realidade econômica de um país livre e democrático como o Brasil tenta se apresentar. A redução do nível inflacionário ocorreu às custas de não repasse de aumento de tarifas, queda vertiginosa do investimento publico e perda de empregos. Houve excesso de gastos de custeio da máquina pública.
Mas a grande discussão não para por aí. Há ainda um viés de queda na confiança institucional do BC e retardamento da confiança do empresariado na retomada da economia que precisam ser urgentemente contidos.
Significa dizer que não podemos ainda tratar a batalha contra a inflação e a piora econômica como vencida. O índice, para mim, parece mais como um repique baixista do que propriamente uma tendência veemente que não pode ser revertida. Não espero também que iremos retomar a tempos de calamidade pública, mas não podemos deixar o fantasma inflacionário atordoar nossa população, pois o pior custo recaí nas camadas mais pobres da população.
A inflação tem um custo social altíssimo, e retira de todos a sensação de realidade, desloca o mercado para um nível desastroso e impede o desenvolvimento da nação.
A ação de elevar a taxa SELIC não pode ser único, precisa ser acompanhada de um melhor gasto público, com contingenciamento do orçamento de custeio e ampliação de investimento. Manobras contábeis também devem ser abolidas.
Quero dizer que, mesmo com o cenário mais tênue, o índice de inflação deste mês pode ter sido apenas um soluço, e que a guarda da política econômica não pode ser baixada. Ainda não temos cenário econômico para baixarmos SELIC. Talvez, e somente após novos números relacionados ao emprego e renda, poderemos pensar em segurar o viés altista da taxa básica de juros, mantendo-a neste patamar.
Por outro lado, tivemos a entrada maciça de dólares via investidores externos em nossa economia. Infelizmente, a grande maioria para especulação, mas tal ação ajudou a conter a forte alta do dólar, que também é variável importante para os níveis inflacionários nacionais, uma vez que regredimos em nosso desenvolvimento industrial e estamos reféns da importação de produtos.
As ações de desoneração feitas pelo governo cobraram seu preço, mas acredito ter sido uma alteração acertada. O que não se pode permitir é tornar comum impedir altas de tarifas para que a inflação fique dentro da meta. Temos que consolidar uma política econômica capaz de fazer este trabalho, capaz de externalizar confiança ao empresariado, e não atuarmos como meros apagadores de incêndio.
Precisa-se de uma política macroeconômica estratégica, com visão de longo prazo, institucionalmente forte e desapegada de raízes partidárias.
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