Minirreforma trabalhista transforma jovens em trabalhadores de segunda classe, diz pesquisadora

Na semana do Dia da Juventude, aprovação da MP 1045 na Câmara "traz grandes problemas", segundo especialista

(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)


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Brasil de Fato - Na semana que marca o Dia Mundial da Juventude, celebrado nesta quinta-feira (12), a Câmara dos Deputados aprovou, por 304 votos a 133, o texto-base da Medida Provisória 1045/21, que renova o programa de redução ou suspensão de salários e jornada de trabalho. As regras, votadas na terça-feira (9), valem para quem tem carteira assinada e para os contratos de aprendizagem e de jornada parcial. A aprovação tem sido criticada por especialistas e movimentos que lutam por direitos para a juventude brasileira.

O texto-base aprovado cria o Programa Primeira Oportunidade e Reinserção no Emprego (Priore), direcionado a jovens entre 18 e 29 anos, no caso de primeiro emprego com registro em carteira. Esse programa é semelhante ao Carteira Verde e Amarela, proposto com a MP 905/20, que perdeu a vigência sem ser votada.  A remuneração máxima será de até dois salários mínimos, e o empregador poderá compensar com o repasse devido ao Sistema S até o valor correspondente a 11 horas de trabalho semanais por trabalhador com base no valor horário do salário mínimo.

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A medida também cria um regime especial de trabalho, qualificação e inclusão produtiva, chamado de Requip. Destinado a quem está sem registro em carteira de trabalho há mais de dois anos, a jovens de 18 a 29 anos e beneficiários do Bolsa Família com renda mensal familiar de até dois salários mínimos, o programa prevê o pagamento de bônus pelo trabalho em jornadas semanais de até 22 horas (BIP) e de uma bolsa por participação em cursos de qualificação de 180 horas ao ano (BIQ).

No total, a empresa poderá descontar até 15% das contribuições devidas ao sistema de aprendizagem (Sesi, Senai, Senac e outros). Esse percentual vale para o bônus desse programa e também do programa de requalificação (Requip). Segundo o texto, o governo poderá usar recursos do orçamento, do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza para restituir os valores ao Sistema S.

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O Brasil de Fato entrevistou a socióloga Léa Marques, especialista em Direitos da Juventude há cerca de 10 anos. De acordo com ela, o projeto "é uma afronta brutal aos direitos da juventude e vão totalmente na contramão do que a juventude brasileira precisa e quer, que é trabalho decente, exercido em condições de liberdade, com uma renda adequada, com uma jornada de trabalho que permita conciliar com os estudos e com o direito à relação social e com a família".

Marques aponta ainda a falta de diálogo para votação do programa. Segundo a socióloga, as medidas estão sendo inseridas em uma MP que deveria tratar apenas de questões emergenciais de combate aos impactos socioeconômicos causados pela pandemia do novo coronavírus.

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"O governo faz isso sem nenhum diálogo com a sociedade, por meio de uma MP que deveria tratar de medidas emergenciais para pandemia. O governo incluiu esses dois programas para destruir os direitos da juventude sem nenhum diálogo social, sem diálogo com nenhum movimento ou coletivo de juventude. É um grande problema e será uma grande luta que a juventude brasileira vai ter que enfrentar mais uma vez. Eu acredito que com muita unidade a consiga denunciar o que está acontecendo com o direito da juventude", declarou a socióloga.

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato: Qual o contexto da aprovação dessa MP para a juventude brasileira?

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Léa Marques: A MP 1045 é mais uma afronta desse governo contra os direitos da juventude brasileira. A juventude atualmente passa por uma situação bastante complicada, sobretudo com relação a possibilidades de trabalho, de gestão de emprego e renda. Temos um quadro bastante complicado para a juventude brasileira no que diz respeito a emprego, de bastante precariedade. Os jovens têm muita dificuldade de continuar seus estudos. Isso, para jovens mulheres, para as pessoas negras e para os moradores das periferias. Ao invés de se preocupar em transformar para melhor essa realidade, o governo brasileiro propôs uma medida provisória que tem dois problemas graves, tanto na forma quanto no conteúdo.

Quais são os problemas em relação à forma de aprovação da MP 1045?

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Primeiro, eu vou falar com relação a forma. A forma com que o governo quer passar esse conteúdo é bastante problemática. Eles vão inserir no meio de uma medida provisória que deveria tratar de medidas emergenciais para seguir enfrentando a pandemia como, por exemplo, continuar possibilitando a redução da jornada de trabalho com redução de salários para que não seja aumentado o desemprego especialmente da juventude.

E quais são as questões sobre o conteúdo das medidas?

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Esses dois novos programas que o governo brasileiro quer passar são uma tentativa de reedição da proposta da Carteira verde e Amarela, que o Governo já apresentou e já foi rechaçado pela sociedade brasileira. É uma tentativa de oferecer para a juventude brasileira, ao invés de trabalho com direitos garantidos, emprego sem nenhum tipo de direito. Essa é a tentativa de fazer com que a juventude brasileira invista suas energias, sua mão de obra, sua inteligência, sem nenhum tipo de contrapartida de direitos trabalhistas, através da ideia de que o jovem tenha uma carteira de trabalho diferenciada do resto da da da população trabalhadora.

Por que é possível dizer que os jovens seriam tratados como trabalhadores de segunda classe?

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A juventude vai fazer o mesmo trabalho, mas não vai ter os mesmos direitos garantidos. Com a aprovação, o jovem vai ter um tipo de trabalho, mas sem vínculo, sem receber salário. Ele receberia um bônus de inclusão produtiva, que não seria pago pelo empregador e sim pelo governo. E também receberia uma bolsa de incentivo à qualificação que seria paga pelo empregador, só que com o valor máximo de R$ 275, o que é muito abaixo do salário mínimo.

Essa proposta é boa em algum aspecto?

Na verdade, só seria bom para o empregador, não seria bom para a juventude, não seria bom para o jovem trabalhador, porque ele não vai ter direitos garantidos, ele não vai nem ter férias. Nessa proposta, as férias são trocadas por um recesso parcialmente remunerado. O jovem também não teria vale-transporte pago de forma integral, não teria recolhimento previdenciário... Então essa tentativa de criar esse regime especial de trabalho para os jovens vai ser bastante prejudicial para a juventude e para os cofres públicos. Porque quem vai pagar parte desse bônus de inclusão produtiva é o governo, é a União. O empregador é quem vai ter o mesmo trabalhador e o mesmo serviço sendo feito e vai pagar somente uma bolsa de incentivo à qualificação com valor máximo de R$ 275.

Onde residem os principais problemas do programa?

Esses programas tentam resolver a situação da juventude trabalhadora, mas precarizam ainda mais. Eles transformam o jovem trabalhador em um trabalhador de segunda classe, como se por ser jovem ele não merecesse seus direitos trabalhistas que foram tão duramente batalhados para todos e todas. Essa discriminação com relação a juventude fere os direitos da juventude garantidos pelo Estatuto da Juventude, que diz que todos os jovens têm direito ao trabalho e à renda, além de condições de liberdade, atividade, segurança, proteção social.

Qual o impacto da MP na Lei de Aprendizagem?

A MP traz mais um problema ao criar essa nova modalidade de qualificação de qualificação e inclusão produtiva, pois enfraquece a Lei da Aprendizagem, que é um uma das poucas iniciativas que a gente tem conseguido incluir de forma mais assegurada e menos precária a juventude no trabalho. A Lei da Aprendizagem vem sendo cumprida e tem trazido bons frutos. A juventude que entra pela Lei da Aprendizagem nas empresas tem sido bem acolhida e tem conseguido ter uma inserção menos precária no trabalho. Ao invés de fortalecer essa lei, o governo tenta criar dois novos programas para destruir o que ainda há de direitos da juventude.

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