Meirelles sobre 2008: 'Quebra do Lehman não foi inevitável'
Ex-presidente do Banco Central atribui crise do crédito à bolha da internet e à queda das torres gêmeas e diz que episódio foi uma absoluta surpresa para as autoridades do mundo todo. Ele revela ainda bastidores de ações do Brasil: "As medidas foram tão agressivas e bem-sucedidas que gerou aquele episódio, em 2009, quando entrei na reunião dos presidente dos bancos centrais, no BIS (em Basileia), e, para minha surpresa e embaraço, eles levantaram-se e me aplaudiram de pé". Hoje à frente do Conselho Consultivo da J&F, ele alerta para riscos do déficit externo e da inflação, mas diz que série bem-sucedida de leilões pode restaurar confiança
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247 – O ex-presidente do Banco Central e atual presidente do Conselho Consultivo da J&F Henrique Meirelles decidiu abrir o passado e retomar momentos tensos de sua gestão durante a explosão da crise do crédito nos EUA. Segundo ele, o episódio foi consequência da bolha da internet e da queda das torres gêmeas. Sobre a crise atual, vê Brasil ainda forte e diz que a crise de confiança pode ser revertida com uma série bem-sucedida de leilões.
Leia alguns trechos da entrevista ao Globo:
Crise de 2008
É importante entender que a quebra do Lehman não foi um processo natural, que viria inevitavelmente. Quando houve a quebra do Bear Stearns, com US$ 29 bilhões de créditos questionáveis, o JPMorgan absorveu o banco e o Fed garantiu. Quando o Lehman teve problema, o Fed entendeu que não era mais viável repetir a solução. A carteira era de US$ 75 bilhões. Ficou acertado que as 15 maiores instituições americanas comprariam a carteira, sem garantia do Fed. No entanto, o Financial Service Authority (FSA) inglês ligou para as autoridades americanas e disse que não aprovaria. Foi um choque e uma absoluta surpresa para as autoridades americanas, europeias e do mundo todo. As empresas que tinham empréstimos externos passaram a tomar crédito em reais nos bancos, para liquidar as linhas externas. O cidadão que entrava em uma revenda para comprar carro entre outubro e dezembro, não encontrava financiamento. Ele se assustou e não comprou mais nada. A produção industrial caiu 20% em dois meses e o Brasil perdeu 800 mil postos de trabalho. Era esse o quadro, gravíssimo.
Momento mais crítico
Quando houve a paralisação do crédito. O Fed (BC americano) passou a oferecer linhas de liquidez para os BC Europeu, o Bank of England, o Bank of Canada, e o Banco do Japão. Após um trabalho duro, abriram linhas para Brasil, México e Coreia do Sul. A crise de liquidez em reais atingiu o seu pico durante a reunião do FMI em Washington. A reunião foi no sábado (dia 11 de outubro), eu participei e voltei ao Brasil. No domingo, convoquei reunião de diretoria do BC em São Paulo e tomamos a decisão de liberar compulsório.
Mercado internacional
O terceiro problema era o dos derivativos. Configurou-se um córner clássico, em que especuladores do mundo todo vieram para o Brasil operar contra o real.Era uma situação muito mais aguda do que agora. Chamei outra entrevista no BC em São Paulo e anunciei que iria vender até U$ 50 bilhões em derivativos.
Lula
Do meu ponto de vista, isso nunca foi um grande problema porque não existia interesse em semear pânico. Tínhamos reservas (mais de US$ 200 bilhões). Tínhamos compulsório (R$ 260 bilhões). E tínhamos posição longa em derivativos, que seria o equivalente a ter dólares no mercado futuro. E o sistema financeiro estava sólido. As medidas foram tão agressivas e bem-sucedidas que gerou aquele episódio, em 2009, quando entrei na reunião dos presidente dos bancos centrais, no BIS (em Basileia), e, para minha surpresa e embaraço, eles levantaram-se e me aplaudiram de pé.
Alívio no mercado
Tive a primeira sensação de que o pior já tinha passado quando a concessão de crédito voltou à normalidade, no início de dezembro. Mas a atividade ainda estava baixa. Fiz então um trabalho muito grande de me reunir com setores industriais, da Anfavea (fabricantes de veículos) e da Fenabrave (dos revendedores), que estavam em pânico.
Nova bolha?
O (Alan) Greenspan (então presidente do Fed) já dizia: “você só descobre a bolha depois que ela estourou”. O que quero dizer é que você não deve induzir a bolha.
Riscos para o Brasil
Temos reservas, um mercado de consumo muito forte, um sistema financeiro ainda muito saudável. Agora, o motivo da turbulência um pouco maior é justamente a evolução do déficit em conta corrente nos últimos dois anos.
PIB
A trajetória indica que chegaria acima de 4%. Aí começaria a entrar no terreno da vulnerabilidade. Uma boa parte da volatilidade (do câmbio atualmente) é isso. A outra parte é a queda dos investimentos (externos) no Brasil, a queda do crescimento e a quebra na confiança. A alta de juros controla. Você pode enfrentar a crise de confiança com medidas de racionalidade econômica. Por exemplo, com uma série bem-sucedida de leilões (de infraestrutura).
Sua gestão
Eu tinha um trabalho grande a ser feito, durante o ano de 2009 e eu fiz. Não havia aval a cada medida. É evidente que o presidente da República tinha o direito de demitir o presidente do Banco Central. E ele não o exerceu até o fim do governo. Então, aprovou.
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