Meirelles prega tolerância zero com a inflação

Ex-presidente do Banco Central afirma que, no longo prazo,  todos perdem com a alta de preços; não apenas os consumidores, mas também os empresários e o próprio governo

Meirelles prega tolerância zero com a inflação
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247 - Aos poucos, o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que se mantinha silente sobre o assunto, em respeito ao sucessor Alexandre Tombini, começa a se pronunciar sobre a inflação no Brasil. Em artigo na Folha deste domingo, ele pede tolerância zero. Leia abaixo:

Quem ganha com a inflação?

No longo prazo, todos perdem com a inflação. Somos catedráticos no assunto. Vivenciamos uma das mais longas hiperinflações da história recente e fenômenos inflacionários de toda espécie. Não deveria restar dúvida sobre as perdas e o custo da inflação para as famílias, as empresas e o país.

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Mas há ainda uma questão pouco debatida: quem ganha com a inflação? No curto prazo, aqueles capazes de elevar preços, como empresas com poder de repassá-la aos consumidores sem grande queda da demanda no curto prazo, profissionais liberais bem-sucedidos e organizações públicas com receitas atreladas à inflação.

Os governos federal, estaduais e municipais são bons exemplos: grande parte de suas receitas é vinculada a preços, salários e lucros correntes, o que faz com que aumentos de preços elevem sua arrecadação.

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Essas organizações, públicas ou privadas, ganham com a alta de preços porque, ao contrário das suas receitas, a maior parte das despesas não acompanha imediatamente a inflação: salários geralmente são reajustados uma vez ao ano, assim como custos com contratos de fornecedores, aluguéis etc.

Além disso, poder público e empresas são tomadores líquidos de recursos. Como grande parte do endividamento é a juros prefixados, a inflação maior reduz a taxa real de juros a pagar.

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Portanto, organizações e pessoas ganham no curto prazo com a inflação. Já os perdedores, no longo prazo, começam a exigir reajustes frequentes, como mostrou recente pedido de central sindical de reajustes automáticos de salários indexados à inflação.

Na medida em que os preços começam a ser atrelados à inflação, temos uma corrida inflacionária desenfreada que elimina os ganhos dos que saíram na frente e desorganiza toda a economia.

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O primeiro efeito é a queda no poder de compra dos consumidores. E, com inflação alta, as empresas deixam de ter clareza de custos num mundo pautado por competitividade e produtividade, ou seja, a capacidade de produzir mais e melhor por menos.

Países e empresas com variações de preços disseminadas são incapazes de investir eficientemente em produção e produtividade. O bom funcionamento do sistema de preços é fundamental para a alocação de recursos e investimentos.

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E quando se torna imperativo reduzir a inflação com alta de juros, a atividade econômica recua, derrubando vendas e arrecadação, o que gera perdas também aos que ganharam com a inflação no primeiro momento.

Em resumo, a inflação oferece ganhos de curto prazo para alguns, custos para muitos e prejuízos no médio e longo prazo para todos, como nossa história mostra com clareza.

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