Jorge Paulo Lemann, segundo Miriam Leitão
Segundo a colunista do Globo, o dono da Ambev, da Budweiser, do Burger King e, agora, da Heinz, não simboliza "o Brasil indo às compras", mas apenas um empresário globalizado que possui uma cultura bastante diferente da maioria das empresas nacionais
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247 - A compra da Heinz por um trio de empresários brasileiros já donos da Budweiser e do Burger King tem algum significado especial para o capitalismo nacional? Segundo a jornalista Miriam Leitão, do Globo, não. Ela afirma que Jorge Paulo Lemann, líder do fundo 3G, é apenas um empresário globalizado e com uma cultura peculiar de realizar negócios, bastante diferente do padrão nacional. Leia abaixo seu artigo no Globo:
Um estilo próprio - MIRIAM LEITÃO
A ideia por trás da oferta de compra da Heinz pelo fundo 3G e pelo grupo de Warren Buffett é a que tem acompanhado o grupo brasileiro: os investidores mais ativos estão olhando bons gestores e o mercado de alta tecnologia; por isso eles apostam em gestão de excelência, mas em mercados de consumo de massa. Assim eles construíram um império com vários ramos.
Portanto, não é estranho que eles tenham olhado para a Heinz. O movimento tem coerência com o que fizeram quando compraram o Burger King, vindos do setor de bebidas. Aliás, ontem o Burger King anunciou em Nova York um aumento de 94% no lucro do último trimestre do ano.
O empresário Jorge Paulo Lehmann começou com o Banco Garantia nos anos 1980, que acabou vendendo para o Credit Suisse, banco no qual havia iniciado como estagiário. Lehmann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, os três do 3G, estão há bastante tempo em mercados de consumo de massa com as Lojas Americanas e a velha Brahma. Quando o "Financial Times" deu como manchete que Buffett e Brazil Tycoon (Buffett e magnata brasileiro) fizeram uma oferta pela Heinz, estava simplificando o que é complexo. Lehmann não é apenas um magnata brasileiro indo às compras.
O 3G é um grupo formado por brasileiros com uma rede de negócios globalizados. Eles continuam tendo escritório no Brasil, parte dos negócios é aqui, mas a sede do 3G é Nova York. A cervejaria, que um dia foi do Rio e depois comprou a paulista Antartica e se transformou na Ambev, fez novas compras no exterior, inclusive a americana Anheuser Busch. Hoje, o grupo AB Inbev é controlado pelo 3G e por 300 famílias belgas. A maioria do capital é dos belgas mas a gestão ficou sempre com os brasileiros. Virou a maior cervejaria do mundo em volume de vendas.
Eles são, como disse Warren Buffett em entrevista, "os caras da operação" ou "os que farão todo o trabalho". Essa sempre foi a marca que levaram do Brasil: uma gestão de resultados. Eles investem muito em "pessoas excelentes que fazem extraordinária diferença", como definem internamente. Acreditam em estrutura de gestão sofisticada, muita disciplina, foco no resultado e estrutura espartana em torno dos seus executivos. Ninguém tem sala, carro, avião. Pelo menos no corporativo. Os luxos são privados.
A imprensa no Brasil diz que os dois investidores - Jorge Paulo e Buffett - se encontraram num voo por acaso, em dezembro, e começaram a conversar sobre isso; o "Financial Times" diz que eles se encontraram no conselho da Gillette, do qual fazem parte. Lehmann e Buffett são amigos, encontram-se com frequência, são sócios, têm inúmeras ocasiões para conversar.
Buffett é o que é: surpreende, ousa, aposta. Seu Berkshire Hathaway é um conglomerado com mais de 70 negócios adquiridos em 40 anos. Na entrevista que concedeu à CNBC, ele disse: "Estou pronto para um novo elefante, se você encontrar algum andando me conte." Portanto, a Heinz foi o elefante da vez, mas não o último do investidor.
O site Beyondbrics avalia que não se deve esperar novas grandes aquisições de brasileiros no exterior, lembrando que a Vale está há dois anos retraída, e o JBS, que fez a compra do Pilgrim´s Pride fortemente apoiado pelo BNDES, não parece estar com novos planos. Qualquer correlação com outros movimentos de empresas brasileiras não faz muito sentido, porque o private equity é há muito tempo um grupo globalizado.
O empresário Jorge Paulo Lehmann e a cultura empresarial que consolidou com seu grupo de amigos e sócios não é o Brasil indo às compras. Ele tem seu jeito de fazer negócios que não se parece muito com a cultura da maioria das grandes empresas brasileiras.
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