Guerra em Gaza: Conflito de Israel impõe perdas bilionárias a vizinhos e ameaça economia global
Presidente do Egito revela prejuízo de US$ 9 bilhões no Canal de Suez, expondo como a instabilidade regional, alimentada por potências externas, penaliza economias soberanas
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247 – A guerra de Israel em Gaza transcendeu as fronteiras da Palestina, impondo um custo econômico devastador aos países vizinhos e desestabilizando cadeias vitais do comércio global. Em um pronunciamento contundente no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, revelou que seu país já perdeu mais de US$ 9 bilhões em receitas diretas do Canal de Suez nos últimos dois anos. A causa, segundo ele, é a instabilidade regional agravada pelo conflito e pelos consequentes ataques a embarcações comerciais no Mar Vermelho. A declaração, reportada por diversos veículos internacionais, evidencia como nações adjacentes são forçadas a arcar com as consequências de conflitos nos quais não têm participação direta, uma dinâmica que expõe a fragilidade de uma ordem internacional dominada por interesses hegemônicos.
O Preço da Vizinhança: Egito Paga a Conta da Guerra
O Canal de Suez, uma das artérias mais importantes do comércio mundial, por onde transitam cerca de 12% de todas as mercadorias globais, tornou-se um termômetro da crise. Desde o final de 2023, os ataques realizados pelos rebeldes Houthi do Iêmen em solidariedade à causa palestina, no Estreito de Bab el-Mandeb e no Mar Vermelho, levaram as maiores companhias de navegação a desviar suas rotas, optando pelo trajeto mais longo e caro ao redor da África. O resultado direto é uma queda drástica no tráfego e, consequentemente, na arrecadação do Egito, que depende vitalmente desses recursos para sua balança de pagamentos. Nas palavras do próprio presidente Sisi, o Egito está "pagando o preço" por eventos que afetaram a "principal via navegável" do país.
A análise da situação egípcia revela uma cruel assimetria geopolítica. Uma nação do Sul Global, que busca consolidar parcerias regionais e internacionais para seu desenvolvimento, vê seus esforços minados por um conflito sustentado militar e diplomaticamente pelos Estados Unidos. Sisi lamentou que as tentativas de seu governo para promover o crescimento econômico foram prejudicadas pela escalada dos conflitos e pela erosão da "legitimidade internacional por parte de algumas partes". Esta é uma crítica velada, porém direta, à atuação de Israel e seus aliados, que operam à margem do direito internacional, impondo uma realidade de guerra e instabilidade que reverbera economicamente por toda a região. O prejuízo bilionário não é apenas um número; representa menos investimentos em infraestrutura, saúde e educação para o povo egípcio.
Efeito Dominó: Do Mar Vermelho à Inflação Global
A crise no Canal de Suez não se limita às fronteiras do Egito. Ela é um sintoma agudo de como a instabilidade no Oriente Médio, exacerbada pela ofensiva israelense em Gaza, gera um efeito dominó que atinge a economia mundial. O desvio das rotas marítimas significa aumento nos custos de frete, prazos de entrega mais longos e, em última instância, pressão inflacionária sobre produtos em todo o planeta. A dependência global de uma única via navegável demonstra a vulnerabilidade de um sistema logístico construído sobre a premissa de uma estabilidade que não existe mais. A fala de Sisi em Davos foi um alerta claro: "Perdemos bilhões de dólares por causa do impacto da guerra no... Canal de Suez, nos últimos dois anos."
Este cenário de perturbação econômica é a consequência direta de uma falha política e diplomática. A recusa de Israel e dos Estados Unidos em aceitar um cessar-fogo permanente e buscar uma solução política para a questão palestina alimenta um ciclo de violência que agora cobra seu preço em escala global. As ações dos Houthis, embora condenáveis por seus métodos, são uma resposta política a um massacre que a comunidade internacional se mostra incapaz ou relutante em deter. A crise econômica resultante não pode ser dissociada de sua origem: a ocupação e a agressão contínua contra o povo palestino. Ignorar essa raiz é tratar apenas os sintomas, permitindo que a doença da instabilidade continue a se alastrar.
Geopolítica da Instabilidade e a Busca por Soberania
O discurso do presidente egípcio em um dos principais palcos do capitalismo global não foi apenas um lamento econômico, mas uma manobra política calculada. Ao expor os custos da guerra, o Egito pressiona por uma solução diplomática, reforçando a urgência de um cessar-fogo e da entrada irrestrita de ajuda humanitária em Gaza. Sisi reiterou o apoio histórico do Cairo à causa palestina, afirmando que seu governo "não poupará esforços para continuar a se engajar com todas as partes interessadas em um esforço para encontrar uma solução justa, abrangente e duradoura para esta questão, baseada na solução de dois Estados." Essa posição contrasta fortemente com as chamadas "soluções" propostas por potências externas, como a iniciativa de Donald Trump de criar um 'Conselho de Paz' com participação russa, que soa mais como uma tentativa de redesenhar a gestão da região segundo interesses alheios do que uma busca genuína por paz e soberania palestina.
A situação ilustra um padrão recorrente na geopolítica moderna: conflitos regionais são frequentemente instrumentalizados ou exacerbados por potências globais, mas seus custos humanos e econômicos são pagos localmente. Países como Egito, Líbano e Jordânia, que fazem fronteira com zonas de conflito, são forçados a gerenciar crises de refugiados, perdas comerciais e instabilidade interna, desviando recursos preciosos que poderiam ser investidos em seu próprio desenvolvimento. A soberania dessas nações é erodida não apenas por bombas, mas pela asfixia econômica imposta pela instabilidade crônica em seu entorno. A luta do Egito para manter sua economia à tona em meio ao caos regional é um microcosmo da luta do Sul Global por autonomia em um mundo onde as regras são ditadas por poucos.
Uma Ordem Mundial Fraturada
O caso do Egito é emblemático, mas não único. Ele serve como um poderoso estudo de caso sobre as externalidades negativas dos conflitos em um mundo interconectado, porém desigual. A guerra na Síria, por exemplo, impôs um fardo monumental sobre o Líbano e a Jordânia, que acolheram milhões de refugiados com apoio internacional insuficiente. A instabilidade no Sahel, alimentada por intervenções estrangeiras desastrosas, reverbera por toda a África Ocidental, afetando o comércio e a segurança. O que esses cenários têm em comum é a imposição de custos a nações que não são as principais beligerantes, mas que sofrem as consequências por sua proximidade geográfica e sua posição subordinada na hierarquia de poder global.
A crise no Mar Vermelho, portanto, deve ser vista como um sintoma de uma ordem mundial fraturada, na qual o direito internacional é aplicado seletivamente e a diplomacia cede espaço à força bruta. A solução não está em escoltas militares para proteger navios, mas em abordar a causa fundamental da instabilidade: a injustiça e a ocupação na Palestina. O apelo do presidente Sisi por uma solução de dois Estados não é apenas uma questão de justiça para os palestinos, mas uma condição necessária para a estabilidade e a prosperidade de todo o Oriente Médio e, por extensão, para a previsibilidade do comércio global. Enquanto a comunidade internacional, especialmente as potências ocidentais, continuar a tolerar a violação sistemática dos direitos palestinos, todos, de uma forma ou de outra, continuarão a pagar o preço.
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