Entenda a crise econômica

Reportagem da Agência Brasil traça um panorama da economia brasileira; do início dos anos 2000, passando pelo boom dos alto preços das commodities no governo do ex-presidente Lula, as medidas do governo para minimizar a crise econômica de 2008 e o aumento da dívida pública no governo da presidente Dilma Rousseff

MANAUS AM 21 05 2009 ECONOMIA PARA DINHEIRO ESPECIAL NÃO DISTRIBUIR. PÓLO INDUSTRIAL DE MANAUS. FUNCIONÁRIOS DE UMA FÁBRICA DE COMPONENTES EM MANAUS MONTAM PLACAS DE AUDIO E VIDEO. SETOR DE PLACAS ENFRENTA CRISE DEVIDO  A IMPORTAÇÃO DE PLACAS PRONTAS DA C
MANAUS AM 21 05 2009 ECONOMIA PARA DINHEIRO ESPECIAL NÃO DISTRIBUIR. PÓLO INDUSTRIAL DE MANAUS. FUNCIONÁRIOS DE UMA FÁBRICA DE COMPONENTES EM MANAUS MONTAM PLACAS DE AUDIO E VIDEO. SETOR DE PLACAS ENFRENTA CRISE DEVIDO A IMPORTAÇÃO DE PLACAS PRONTAS DA C (Foto: Aquiles Lins)


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Giselle Garcia, da Agência Brasil - Do fim dos anos 90 até o início de 2012 houve um aumento significativo no preço das commodities no mercado internacional, impulsionado pela crescente demanda chinesa. Foi um momento muito positivo para a economia brasileira, historicamente dependente da exportação de matérias-primas e produtos agrícolas.

Em 2011, as exportações brasileiras alcançaram o recorde de US$ 256 bilhões, 14% do Produto Interno Bruto (PIB). A China já era o maior parceiro comercial do Brasil. As exportações para o país asiático cresceram quatro vezes mais que as exportações totais entre 2000 e 2010, com destaque para soja, café, minério de ferro e petróleo.

O Brasil surfava na onda dos altos preços das commodities e o consequente crescimento gerou euforia. "A popularidade do governo Lula estava associada a esse momento de sorte", afirma Carlos Primo Braga, ex-diretor do Banco Mundial e professor adjunto da Fundação Dom Cabral.

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Ajudado pelo boom das commodities, Lula encorajou as exportações e estimulou a liberação de crédito pelos bancos públicos para financiar o desenvolvimento, criando milhões de empregos. As relações diplomáticas com outros países em desenvolvimento foram reforçadas e o Brasil ganhou relevância no cenário internacional.

O modelo econômico adotado na época favoreceu a distribuição de renda e a expansão do consumo. Programas sociais foram expandidos e o salário mínimo aumentou 72,31%, de 2003 a 2014.

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Mais de 40 milhões de brasileiros deixaram a pobreza e se tornaram a "nova classe média". Eles passaram a ter condições de comprar produtos antes considerados "coisa de rico", como carros, televisores de tela plana e refrigeradores.

"Quando a crise atingiu os Estados Unidos, em 2008, os mercados emergentes, em especial o Brasil, estavam rindo da nossa cara", diz o consultor norte-americano, Robert Abad. O país foi um dos últimos a sentir os efeitos da crise. Mas a fraca demanda internacional no pós-crise levou à desaceleração do crescimento brasileiro.

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Para manter a economia aquecida, o governo decidiu apostar em medidas anticíclicas e estimular o consumo. A taxa básica de juros foi reduzida em 2009 e 2010, impostos foram cortados e o gasto público expandido por meio de ambiciosos programas de investimento em infraestrutura.

Quando Lula deixou a Presidência, em 2010, o país registrou uma taxa de crescimento do PIB de 7,5%, a maior expansão desde 1986. Mas o estímulo ao consumo e a forte demanda por produtos não foram acompanhados pelo crescimento na produtividade. A indústria brasileira foi a primeira a dar sinais de que a coisa não ia bem.

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A forte entrada de dólares durante o superciclo das commodities fez com que o real se valorizasse de forma artificial, minando a competitividade da indústria manufatureira. Em julho de 2011, a moeda brasileira atingiu o maior valor em relação ao dólar desde 1999, o equivalente a cerca de US$ 0,65.

"Houve uma invasão de produtos importados da China e a indústria nacional não acompanhou, não conseguiu competir. Em 2006 a balança comercial de produtos manufaturados no Brasil teve superávit de US$ 5 bilhões. Apenas cinco anos depois, em 2011, nós passamos a um deficit de mais de US$ 92 bilhões", diz José Augusto Fernandes, diretor de Políticas e Estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

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Os preços subiram e para manter a inflação sob controle o novo governo, sob o comando da sucessora de Lula, Dilma Rousseff, lançou uma política fiscal mais austera, elevando a taxa de juros para mais de 12% em 2011. Mas com a piora do contexto internacional devido à desaceleração da economia chinesa, no fim do mesmo ano, a equipe do governo voltou atrás e decidiu retomar as políticas anticíclicas, reduzindo novamente a taxa básica de juros, cortando impostos e ampliando o gasto público.

"Houve um exagero nos gastos e subsídios, gerando um aumento da dívida pública e o endividamento das famílias", afirma Luiz Fernando Furlan, ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio no governo Lula.

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No fim do primeiro governo de Dilma, em 2014, a dívida tinha crescido de 51,3% para 57,2% do PIB. Em 2015, saltou para 66,2%. O percentual é bem menor do que o do Japão (229%) ou o da Grécia (179%), por exemplo. A diferença é que, enquanto em vários países desenvolvidos as taxas de juros são nulas ou negativas, no Brasil a taxa de juros está acima de 14%, o que encarece muito o pagamento da dívida e amplia o risco de calote.

A situação das contas públicas se deteriorava e o cenário externo também piorou. A desaceleração da economia chinesa levou a uma queda brusca no preço das commodities. O minério de ferro despencou de US$ 187,18 a tonelada, em fevereiro de 2011 para US$ 37 em dezembro de 2015. O petróleo perdeu mais de 60% de seu valor e encerrou 2015 abaixo de US$ 40 o barril, o menor nível desde 2003, refletindo também o excesso na oferta do produto.

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"Produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo", diz Braga.

Para ele, o grande erro cometido pelos líderes políticos brasileiros na última década foi focar demais no consumo e se esquecer da produtividade. "No Brasil, nos primeiros dez anos deste século, o salário real aumentou mais que a produtividade. Isso pode ser bom do ponto de vista da distribuição de renda, mas não é sustentável no longo prazo. Vários problemas foram se acumulando e resultaram na crise que estamos vivendo", afirma.

A luta contra a corrupção

Pouco depois da reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, foram revelados os primeiros resultados da Operação Lava Jato, realizada pela Polícia Federal, a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro já realizada no Brasil. A operação expôs uma rede criminosa formada por políticos, servidores públicos, empresários e doleiros que desviou bilhões de reais dos cofres da Petrobras.

Nesse esquema, que funcionou por mais de 15 anos, grandes empreiteiras pagavam propina para altos executivos da estatal e outros agentes públicos em troca de contratos bilionários superfaturados.

"Ninguém podia prever que esse escândalo acabaria se tornando um fator de risco político que contribuiu de forma significativa para a paralisação da economia", observa o consultor de mercados emergentes, Robert Abad.

Embora as investigações contribuam para ampliar o cenário de incerteza política no país, a maioria dos analistas concorda que a Operação Lava Jato pode ser o princípio de uma mudança profunda na sociedade brasileira. "As pessoas não acreditam que isso está acontecendo, que os poderosos estão indo para a prisão. Se o Poder Judiciário e a Polícia Federal conseguirem manter a credibilidade ao longo desse processo sairão dessa investigação ainda mais fortes e a democracia será fortalecida", afirma Abad.

Geert Aalbers, diretor sênior da consultoria global de riscos Control Risks, diz que com as investigações as pessoas estão mais conscientes do problema da corrupção no país. "Ainda é cedo para prever o que vai acontecer no setor público, mas certamente a Operação Lava Jato vai promover um grau maior de transparência no setor privado, promovendo uma melhoria no ambiente de negócios", diz ele.

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