Em busca de um novo aplicativo

A mobilização política a um clique de um iphone é despolitizada na maioria das vezes e, em alguns casos, é mentirosa



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Não raro, em algumas redes sociais nos deparamos com campanhas de internet. O caminho é simples, basta ler o enunciado, olhar a foto, um clique e: pimba! Já pode compartilhar.

Depois disso, vá dormir e ler algo mais interessante, pois a vida segue.

Campanhas de solidariedade não foram inventadas pela internet, são instrumentos políticos importantíssimos na história das lutas sociais.

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No filme Some Mother's Son (Mães em Luta), de Terry George/Jim Sheridan se retrata o protesto da "Guerra da Fome", que aconteceu na Irlanda do Norte no ano de 1981, na prisão de Maze, em que o preso político Bobby Sands lidera protesto contra o tratamento dado aos prisioneiros do IRA, pedindo para que fossem tratados como prisioneiros de guerra e não como criminosos comuns.

Além do drama dos presos, é marcante o papel das mães dos guerrilheiros que lutam para salvar a vida de seus filhos, mobilizando uma campanha de solidariedade na sociedade.

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Exemplo mais próximo de nós todos, foi a campanha puxada pelo livro Terra, de Sebastião Salgado, com textos de José Saramago e Chico Buarque e em solidariedade à luta dos trabalhadores rurais sem terra no Brasil.

Se grandes causas mobilizam a sociedade e delas retiramos exemplos belíssimos de mobilizações e de solidariedade, as atuais pirâmides de mobilização se parecem mais com um aplicativo novo, sem profundidade alguma, fluída, sem direção ou discussão mais aprofundada e, o que é pior, sem um rumo claro a atingir, servindo tanto a propósitos da esquerda, quanto aos da direita mais facista. Desconfio que talvez seja esta a intenção mesmo.

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A mobilização política a um clique de um iphone é despolitizada na maioria das vezes e, em alguns casos, é mentirosa.

Recentemente - segundo uma entidade cuja sede ninguém sabe onde fica, quem são seus sócios, quem é seu proprietário, qual a linha política de sua organização ou a que propósito serve – mobilizou milhões de assinaturas contra Renan Calheiros.

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O primeiro argumento é que Renan seria “ficha-suja” e que, portanto, não deveria assumir a presidência do Senado. Acontece que Renan não tem sequer um processo instaurado em seu desfavor, o que dirá condenação com trânsito em julgado por órgão colegiado. Dados que colocam a campanha na mentira mais desbaratada, criminosa pelas nossas leis.

Não tenho nenhuma simpatia por Renan Calheiros, mas me perguntei, antes de assinar o tal novo aplicativo de militância, se não é Renan, então é quem? Pedro Taques? Pimba! A campanha termina aí: Renan é ficha-suja, logo não pode assumir a presidência. Mas, é mentira que ele é “ficha-suja”. Ok é uma mentira, mas ainda é Renan.

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Ou seja, a campanha despolitiza o debate. Não se declara partidária de Pedro Taques, pois poderia perder muitas assinaturas. Muito menos, se dá ao luxo de indicar quem seria o Presidente ideal. Não toma partido algum, apenas difama Renan Calheiros no lamaçal da corrupção, tão ao gosto da grande mídia. Não sem razão, a campanha que mente e é superficial politicamente, ganha destaque nos grandes jornais. Fecha-se o ciclo.

Eu solto uma mentira, ganho 3 milhões de assinaturas tão facilmente quanto ir de manhazinha buscar frutas no quintal e saio na grande mídia que, por sua vez, legitima seu discurso em cima da “vontade popular”.

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No caso, a “espontaneidade” com que a militância de aplicativo nos aparece acaba por nos iludir, dado que não se sabe a quem estamos atendendo quando assinamos e quais interesses dão suporte às campanhas.

É claro que isto é um sintoma da falta de mobilização política dos nossos dias, dado que os partidos e organizações sociais se distanciaram da vida da sociedade.

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É preciso lutar contra a criminalização da política e trabalhar para despertar a sociedade para grandes e profundos temas como a reforma agrária, regulação da mídia, democratização do judiciário, encarceramento em massa, reforma urbana, pobreza extrema, educação etc. O problema é que isto não cabe, infelizmente, dentro de um aplicativo da Apple.


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