Economista do BNDES denuncia desmonte: “Terá muita quebradeira”

A economista Beatriz Meirelles, da Associação dos Funcionários do BNDES, fala sobre os impactos do fim da TJLP, principal ferramenta de fomento do banco. Segundo ela, as micro, pequenas e médias empresas serão as mais prejudicadas com a medida: "O parque industrial de máquinas e equipamentos brasileiro vai acabar"

A economista Beatriz Meirelles, da Associação dos Funcionários do BNDES, fala sobre os impactos do fim da TJLP, principal ferramenta de fomento do banco. Segundo ela, as micro, pequenas e médias empresas serão as mais prejudicadas com a medida: "O parque industrial de máquinas e equipamentos brasileiro vai acabar"
A economista Beatriz Meirelles, da Associação dos Funcionários do BNDES, fala sobre os impactos do fim da TJLP, principal ferramenta de fomento do banco. Segundo ela, as micro, pequenas e médias empresas serão as mais prejudicadas com a medida: "O parque industrial de máquinas e equipamentos brasileiro vai acabar" (Foto: Leonardo Attuch)


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Do Nocaute – Transcrição do vídeo abaixo:

As opiniões aqui expressas não representam necessariamente a posição do BNDES. 

A extinção da TJLP (taxa de juros de longo prazo) acaba com qualquer instrumento que o BNDES possa usar para fazer fomento. Havia uma emenda à medida provisória incluindo isenção tributária ou algum outro instrumento e foi tudo rejeitado pelo Congresso.

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O argumento deles é que qualquer tipo de subsídio ou de instrumento de fomento vai ter que passar pelo Congresso via Orçamento Geral da União. Eles gostam de usar a ideia de que seria um instrumento mais democrático porque passa pelo Congresso, mas a gente sabe que o gasto primário está congelado por 20 anos, então dificilmente vai haver espaço fiscal orçamentário para esse tipo de subvenção.

O estado perde o controle, abre mão de um instrumento de política econômica, que passa a ser uma taxa arbitrada pelo mercado. E é uma taxa muito mais alta e volátil. Então para as decisões de investimento a gente considera que vai ser bastante problemática, especialmente para as micro, pequenas e médias empresas.

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Certamente o parque industrial de máquinas e equipamentos brasileiro vai acabar. A associação Abimaq já fez essa conta mostrando os preços do bens de capital com TJLP e com TLP, mostrando que fica mais caro que o importado, então vai ser mesmo uma substituição de importações às avessas. A gente vai estar regredindo a substituição de importações que a gente fez ao longo desses 60 anos de história.

Costuma-se acusar o BNDES de ser bolsa empresário para grandes empresas, já é um argumento complicado porque nenhum país, nenhuma economia sobrevive só de micro, pequena e média empresa, a gente precisa incentivar setores grandes.

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Nenhum país do mundo que se industrializou de fato fez isso sem apoio estatal. Você tem diversos bancos desenvolvimento no mundo tão grandes quanto o BNDES. O KFW, banco alemão, ele tem mais ou menos a mesma participação, os desembolsos da KFW sobre o PIB alemão é mais ou menos o mesmo tamanho do BNDES; o Japão, a Coreia, China, Canadá.

Abrir mão desse instrumento de política econômica é o que faz a gente imaginar que é um projeto de desmonte do BNDES mesmo. Qualquer governo que venha depois vai ter que desfazer essa lei para ter esse instrumento.

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Eu acho que vai ter muita quebradeira. A gente perde o último instrumento de política industrial que a gente ainda tinha. Já tem um ambiente macroeconômico adverso para industrialização: a taxa de juros alta, taxa de câmbio valorizada, carga tributária que incide sobre consumo, diversas disfunções, e o BNDES era o último instrumento; você tinha também o Ministério da Ciência e Tecnologia que também foi desmontado por esse governo, então é muito assustador o que nos espera em termos de política industrial.

O mais intuitivo é que interessa aos bancos privados,- também bancos internacionais, mas ela é tão draconiana… O próprio congelamento do gasto público da PEC 55 também é uma medida exagerada que não interessa nem ao capital, isso que me causa surpresa: ver agora a FIESP rachada com o governo, rachada com o Ministério da Fazenda que estaria em tese representando o capital financeiro, algo que a gente achava que já tinha saído de moda – essa separação entre capital produtivo e o financeiro, a gente vê que não: que exista a ofensiva mesmo do rentismo. Mas nenhum país vive só de rentismo, então parece que ou está associado ao interesse internacional mesmo, tanto o mercado financeiro internacional quanto empresas que concorrem com empresas brasileiras, como parece também uma coisa mais básica que é uma espécie de fundamentalismo liberal, ideológico. E esse discurso neoliberal de estado mínimo está passando do limite do razoável, inclusive para o próprio capital. Por isso que é quase um enigma.

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E agora está surgindo um novo movimento que é o “Não vendo o meu país”, articulação de vários sindicatos associados estatais que estão na mira do desmonte ou da privatização: a Eletrobras, está a Cedae, a Casa da Moeda, Petrobras e diversos sindicatos também de empresas de setor privado preocupados com essa ofensiva de desmonte do estado.

A opinião pública no Brasil tem uma consciência de bem estar social, não é à toa que esse desmonte está sendo feito em um governo que não foi eleito. A gente tem a convicção de que se fosse passar por um debate eleitoral, isso não seria chancelado pela população.

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Se você pensar que nos anos 90, por mais que tenha sido uma primeira ofensiva de desmonte, ainda era um movimento tímido, não se vendia como liberal explicitamente. Era o partido social democrata, então acho que ainda havia ali algum tipo de pudor em se autodenominar um neoliberal. Era disfarçado. E tinha também programas sociais, vários programas sociais foram criados nos anos 90. Mas a gente acha que realmente agora parece o Chile de Pinochet: o que eles não conseguiram destruir nos anos 90 agora é para acabar de vez.

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