Como Dilma, González contesta a austeridade

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, ex-chefe de governo espanhol se mostra inquieto com o aprofundamento da crise na zona do euro e compara soluções a um "suicídio voluntário", aquele em que o suicida tem plena consciência do que faz

Como Dilma, González contesta a austeridade
Como Dilma, González contesta a austeridade


✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

247 – Em sua recente viagem à Espanha, onde participou da Cúpula Ibero-Americana, a presidente Dilma Rousseff destacou, em seu discurso, não só que o Brasil estaria disposto a ajudar os países em crise, mas que as políticas de austeridade tinha limites. "Eu considero que a combinação de austeridade e crescimento é a melhor maneira de superar os desafios", declarou a presidente em Madri, depois de um encontro com o primeiro-ministro Mariano Rajoy.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico desta quarta-feira, o ex-chefe de governo espanhol por quatro mandatos consecutivos (1982 a 1996), Felipe González, ecoa o discurso da presidente brasileira, comparando o diagnóstico da crise europeia, que deu soluções com enfoque na política de corte de custos, a um "suicídio voluntário", aquele em que o suicida tem plena consciência do que faz. Em seu ponto de vista, os europeus estarão concentrados em pagar dívidas nos próximos 25 anos, enquanto os emergentes estarão comprando o que quiserem.

Leia abaixo trechos de sua entrevista:

continua após o anúncio

Erro gravíssimo

A Europa foca a luta contra a crise cometendo um gravíssimo erro que vem do pensamento equivocado de que a crise era, primeiro, americana, conjuntural, e seria superada rapidamente. O enfoque considera que a crise da dívida é uma crise de solvência, em lugar de crise de liquidez, de corte brutal de crédito. Isso está provocando uma dinâmica de insolvência de um ou outro país. Enfrenta-se o problema sob a base da austeridade em duas dimensões: cortar o gasto público para reduzir o déficit e a dívida, e aumentar as receitas pressionando os impostos, cortando crédito para a economia privada. Renuncia-se a qualquer impulso neokeynesiano para alimentar a demanda. É verdade que há países sem margem para fazer esse impulso, mas a Alemanha tem, o Banco Europeu de Investimentos (BEI) tem. O único instrumento que resta, e foi o que fizeram os EUA, é a política monetária.

continua após o anúncio

Aprofundamento da crise

Estamos num circulo vicioso recessivo acompanhado por políticas monetárias restritivas e proibição absoluta de políticas de gastos. Os EUA fazem o contrário. A única maneira de ter política de gasto é dispor de linhas de crédito para projetos de infra-estrutura etc. Agora a Comissão Europeia discute o orçamento europeu plurianual 2014/2020, que significa 1% do PIB europeu, e tem tudo para alimentar o ciclo restritivo. Não há nenhuma indicação anticíclica, nem para o drama do desemprego que vivem países como a Espanha. Confundem uma crise de dívida, que existe, com uma crise de solvência, que não existe, porque com US$ 35 mil per capita a solvência para recuperar a capacidade de pagamento não pode ou não deve ser questionada. Com renda per capita de US$ 10 mil, haveria algum problema, mas com US$ 35 mil, o que é isso? É um suicídio voluntário.

continua após o anúncio

Futuro do euro

Tenho sido um responsável político com consciência histórica. Não creio que o euro vai desaparecer. A catástrofe seria geral. Mas, se em dois anos desapareceu o império soviético e a Europa fez duas guerras mundiais no Século XX, tampouco posso excluir que o euro desapareça. Os instintos suicidas da política são coisa muito séria e se repetem historicamente. Se alguém é capaz de raciocinar o custo do não euro, primeiro para o país mais potente economicamente da Europa, que é a Alemanha, a resposta seria clara de que o euro deveria se manter e deveríamos corrigir os defeitos estruturais. Mas quem disse que a política tem a ver com racionalidade e com pragmatismo? Quantas vezes não vimos uma catástrofe por falha da compreensão da realidade...

continua após o anúncio

Até quando?

A Europa tem três caminhos. O pior, que é retroceder, voltar às moedas nacionais. Aí ficamos como o Reino Unido, o que facilita o financiamento da dívida com taxa de juro negativo, mas os problemas estruturais não se resolvem. Esse retrocesso arrastaria o mercado interno sem fronteiras. Não se pode ter um espaço interno compartilhado de 17 ou 27 países sem fronteira, com livre circulação de capital, mercadorias, fazendo implodir a moeda única e causando desvalorizações. Quanto a Grécia teria de desvalorizar? Uns 80%. A Espanha, uns 30 a 40%. No momento em que se produzem desvalorizações inevitavelmente competitivas, deve-se impor barreiras internas. Na Europa, o retrocesso não é que cada um recupera a sua moeda, e sim que todo o espaço europeu comum ficará sem sinergia e potencialidades. As transações dentro da união são 70% das relações comerciais de cada país.

continua após o anúncio

Mariano Rajoy

O governo [de Mariano Rajoy] completa um ano fazendo o contrário do que tinha dito que faria. Quer nos fazer crer que ele foi obrigado a fazer isso. Não posso aceitá-lo, porque me parece fundamentalismo. Diz que é a única coisa que pode fazer...

continua após o anúncio

Social-democracia

A social-democracia está perdendo uma grande oportunidade, em parte porque suas propostas são defensivas. [François] Hollande ganhou [na França] porque disse que não estava disposto a desmontar o Estado de bem-estar. Mas não oferece um modelo produtivo competitivo, sustentável, para manter a coesão social. E as pessoas estão fartas [de promessas] que depois não podem se sustentar porque a economia não é competitiva. A resposta da social-democracia não é a resposta para a mudança que se produziu na economia mundial. A esperança de resposta ofensiva é a de Dilma [Rousseff], [Luiz Inácio] Lula [da Silva], dos países emergentes, com políticas econômicas que garantem geração de emprego e lutam contra a marginalização social, mas com manejo da política macroeconômica que não tem cor política, que é pragmático. Mas, atenção, que não caiam na tentação das utopias regressivas.

continua após o anúncio

Dilma: todo governo tem que ser pragmático

Na America Latina dos anos 80 e no sul da Europa, [observei que] um socialista pragmático era considerado um insulto, e no norte anglo-saxão era um elogio. Qual tem sido o grande problema da esquerda mais latina, à qual pertencemos? É que a esquerda tem um grande prazer histórico em inventar o futuro para que a direita governe o presente. Eu tomei a decisão de inventar o futuro governando o presente, e isso obriga a ser pragmático.

Brasil: quando será uma potênica relevante?

O Brasil já é. Tem um aparato produtivo diversificado e, se apostar no capital humano de verdade, dentro de 20 anos será uma potência indiscutível. É relevante fora não só pela sua dimensão, como também pelo êxito interno. Não há política exterior quando há fracasso interno. A relevância da Espanha como interlocutor da America latina não é a mesma de 15 anos atrás. Se o Brasil retrocede, sua relevância retrocede. O Brasil tem um bônus demográfico enorme. Como incorporar capital humano e novas tecnologias é o que decidirá o futuro do Brasil, do México.

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247