BTG ofertou R$ 1 e quis R$ 1,6 bi por Cruzeiro do Sul
Molezinha proposta por André Esteves foi barrada no FGC; Cruzeiro do Sul tinha 'contabilidade criativa' e operações polêmicas; captação de R$ 650 mi na Bolsa destinou R$ 250 mi para família de Luís Octávio Indio da Costa; rombo está em R$ 1,3 bi, mas ele não sofrerá agora na pessoa física; intervenção do BC garante depósitos até R$ 70 mil; acima, bloqueados
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247 – Seria uma molezinha para o banqueiro André Esteves, mas que não passou pelo crivo do Fundo Garantidor de Crédito. Com vetos de Bradesco, Itaú e Santander, o FGC não aprovou a proposta de compra do banco Cruzeiro do Sul pelo BTG, que ofereceu a quantia simbólica de R$ 1 e pediu, simultaneamente, um empréstimo de R$ 1,6 bilhão para assumir a instituição. Além disso, ficaria salvaguardado um crédito fiscal estimado em R$ 350 milhões pelo Banco Central. Os recursos do FGC são formados por depósitos dos bancos.
A recusa à proposta levou o Banco Central a decretar na manhã desta quarta-feira 4 o Regime de Administração Especial Temporária (Raet) para o Cruzeiro do Sul, o que na prática significa uma intervenção, com a suspensão de diversas atividades da instituição. Os termos da Raet foram assinados pelo banqueiro Luís Octávio Índio da Costa na noite da terça 3. Os depósitos até R$ 70 mil estão garantidos. Acima disso, bloqueados.
Na pessoa física, apesar do acúmulo de dívidas pela instituição, ele não deverá sofrer incômodo a curto prazo. Seu primo, deputado Índio da Costa (PSD-RJ), foi candidato a vice-presidente da República, em 2010, na chapa encabeçada pelo tucano José Serra. Luís Octávio cultua a fama de namorador e bon vivant, frequentador de festas e dono de estilo de vida sofisticado. Caso sejam detectadas irregularidades, os sócios do banco responderão com seu patrimônio, mas processos desses casos costuma levar anos até serem solucionados. Por meio do colunista Guilherme Barros, da revista Istoé Dinheiro, Índio da Costa disse que não sabia de nada sobre possíveis irregularidades! Para a agência de classificação de risco Stardar & Poor´s, o Cruzeiro do Sul tem a pior nota de solidez entre as instituições brasileiras: E+.
O Cruzeiro do Sul tem um longo histórico de problemas e operações que têm despertado críticas e levado as autoridades a apertarem a legislação sobre operações que a instituição se notabilizou em realizar. Uma delas era a venda de carteiras de crédito para outras instituições, lançando o valor no balanço do próprio banco como sendo totalmente positivo, sem cosiderar inadimplência ou nem mesmo aguardar o término das cobranças. Na prática, uma forma de inventar contabilmente milhões em recursos que ainda não haviam chegado aos seus cofres. Estima-se que o Cruzeiro do Sul possa ter feito cerca de R$ 3 bilhões desse tipo de operações.
Em 2008, ao estrear na Bolsa de Valores, com um IPO que rendeu R$ 650 milhões captados junto ao público, o banco dedicou R$ 250 milhões à família controladora, os Índio da Costa. O valor do Cruzeiro do Sul, naquela fase, foi calculado, com base nos balanços inflados, em R$ 2,8 bilhões – hoje, é de, pelo menos, R$ 1,6 bilhão negativo.
O incentivo representado pelo IPO não foi suficiente para a normalização dos negócios, que dali em diante passaram a despertar mais e mais suspeitas entre as autoridades da área financeira. A exemplo de outros bancos que enfrentaram problemas, a base do Cruzeiro do Sul eram operações de empréstimos sobre crédito consignado. Uma nova oferta de ações, em 2010, quando os Índio da Costa esperavam captar mais R$ 400 milhões junto ao público, foi abortada.
Abaixo, notícia da Agência Brasil sobre a intervenção do BC no Cruzeiro do Sul:
BC decreta intervenção no Banco Cruzeiro do Sul
04/06/2012 - 8h58
Economia
Kelly Oliveira
Repórter da Agência Brasil
Brasília - O Banco Central (BC) decretou hoje (4) Regime de Administração Especial Temporária (Raet), pelo prazo de 180 dias, no Banco Cruzeiro do Sul, com sede na cidade de São Paulo. Segundo BC, a medida foi tomada em decorrência do "descumprimento de normas aplicáveis ao sistema financeiro e da verificação de insubsistência em itens do ativo".
O Raet é um regime com prazo limitado, por meio do qual o BC substitui os dirigentes da instituição por um conselho de diretores ou por uma pessoa jurídica especializada. O objetivo é corrigir procedimentos operacionais ou eliminar deficiências que possam comprometer o seu funcionamento, explicou o Banco Central.
O BC esclarece que o regime não afeta o andamento dos negócios da instituição, que continua funcionando normalmente e pode realizar todas as operações para as quais tem autorização. Segundo o Banco Central, "em consequência, é preservada a relação dos credores e dos devedores com a instituição. Assim, tanto os compromissos de terceiros com a instituição quanto as suas dívidas continuam a vencer nos prazos originalmente contratados".
De acordo com o BC, o Banco Cruzeiro do Sul é uma instituição financeira de pequeno porte que, em dezembro de 2011, detinha ativos que representavam apenas 0,22% do total dos ativos do sistema financeiro e 0,35% dos depósitos. Está autorizado a operar com as carteiras comercial, de investimentos e de câmbio. Com operações concentradas nas duas agências de São Paulo e do Rio de Janeiro, o banco tem mais seis agências, em Campinas, Salvador, Recife, Belém, Macapá e Palmas.
Também foi decretado o Raet nas empresas do grupo Cruzeiro do Sul, pelo mesmo prazo de 180 dias: Cruzeiro do Sul S.A Corretora de Valores e Mercadorias, Cruzeiro do Sul DTVM, e Cruzeiro do Sul S.A. Companhia Securitizadora de Créditos Financeiros.
"O Banco Central está tomando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades, nos termos de suas competências legais de supervisão do sistema financeiro", destaca o BC, Segundo a instituição, entre as consequências das apurações estão a aplicação de medidas punitivas de caráter administrativo e a comunicação às autoridades competentes. "Nos termos da lei, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores das instituições", acrescenta o Banco Central.
O BC nomeou o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como administrador especial temporário.
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