Ruffato à Reuters: "somos um país paradoxal"

Escritor que chocou a plateia na abertura da Feira do Livro de Frankfurt ao dizer que o Brasil ainda é um país onde direitos como "moradia, educação e saúde são privilégios de alguns" avalia que revolta contra o governo, sinalizada com os protestos de junho, ainda não acabou, mas "o potencial para que tudo recomece do nada está lá"

Escritor que chocou a plateia na abertura da Feira do Livro de Frankfurt ao dizer que o Brasil ainda é um país onde direitos como "moradia, educação e saúde são privilégios de alguns" avalia que revolta contra o governo, sinalizada com os protestos de junho, ainda não acabou, mas "o potencial para que tudo recomece do nada está lá"
Escritor que chocou a plateia na abertura da Feira do Livro de Frankfurt ao dizer que o Brasil ainda é um país onde direitos como "moradia, educação e saúde são privilégios de alguns" avalia que revolta contra o governo, sinalizada com os protestos de junho, ainda não acabou, mas "o potencial para que tudo recomece do nada está lá" (Foto: Gisele Federicce)


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Por Kirsti Knolle

FRANKFURT, 16 Out (Reuters) - O escritor Luiz Ruffato ficou sem dinheiro, dormiu no chão de uma rodoviária por um mês e choca seus compatriotas quando diz que essa ainda é a realidade do Brasil, mesmo com o país se tornando uma potência econômica.

"Quando você caminha pelas ruas do Brasil, vê aquilo que lê nos meus livros", disse Ruffato, filho de uma lavadeira analfabeta e um vendedor de pipocas, em entrevista à Reuters durante a Feira do Livro de Frankfurt.

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Ruffato proferiu o discurso de abertura da feira na semana passada, que em vez de exaltar o Brasil e suas conquistas, versou sobre muitos dos temas abordados pelo escritor de 52 anos em seus livros.

Seus temas são as consequências da rápida industrialização, a privação social e os problemas enfrentados por mulheres e homossexuais no país.

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Em um de seus primeiros e mais famosos trabalhos "Ele Eram Muitos Cavalos", publicado em 2001, ele descreve o caos, violência, miséria e decadência de São Paulo.

"Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns", disse ele no discurso de abertura, que chocou até mesmo alguns de seus fãs.

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"Nós somos um país paradoxal", afirmou.

As palavras de Ruffato contrastaram fortemente com o discurso oficial do governo brasileiro, focado no rápido desenvolvimento econômico e na oportunidade para todos. A obra de Ruffato quase não enfatiza os clichês sobre o Brasil moderno - a cultura de praia, Carnaval e caipirinha. A realidade abordada por ele é diferente.

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"A sociedade brasileira suscita diversas perspectivas e a minha é uma delas", disse ele à Reuters depois de seu discurso de abertura, pelo qual foi ovacionado.

"Normalmente eu não bebo, mas hoje à noite eu preciso", disse ele sorrindo, cercado de pessoas e visivelmente tentando desfazer o nervosismo.

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Ruffato sabe muito bem do que está falando. Nascido em uma pequena cidade de Minas Gerais, ele teve sorte de receber uma educação.

Isso só aconteceu porque o diretor de uma escola particular percebeu Ruffato vendendo pipoca junto a seu pai e decidiu acolhê-lo.

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Ruffato se mudou depois para São Paulo, onde dormiu em uma rodoviária por cerca de um mês até receber seu primeiro salário e poder pagar por uma cama em uma pensão.

REVOLTA

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Ruffato disse acreditar que a revolta dos brasileiros contra o governo ainda não se acalmou desde a onda nacional de protestos que agitou o Brasil em junho, pois os fatores que a provocaram ainda persistem.

"A revolta ainda existe, mas ainda não se transformou em um movimento verdadeiro", disse Ruffato. "O potencial para que tudo recomece do nada está lá."

De acordo com Ruffato, 10 por cento da população branca brasileira controla 75 por cento da riqueza do país. Cerca de 46 mil dos 200 milhões de brasileiros detêm metade das terras. E um terço dos adultos é analfabeto ou semi-analfabeto.

"O fenômeno americano de que você pode conquistar qualquer coisa apenas trabalhando duro não existe no Brasil", disse Ruffato. "Eu sou uma grande exceção."

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