Privacidade zero
Escrevemos e esperamos resposta. Se ela não for imediata, adquirimos o vício de ver se a resposta foi visualizada e a que horas. Sim, caminhamos para a privacidade zero. Bebemos rapidamente o nosso próprio veneno
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Nossa vida hoje é um game e todas as etapas caminham numa só direção: privacidade zero.
Avisamos a quem interessar possa o que estamos fazendo e onde estamos com nossos check-ins diários.
Publicamos fotos de tudo e de todos em mais de um aplicativo simultaneamente. Se precisarem saber de nós, basta colocarem nosso nome no Google e pronto! Tá tudo ali! Fotos, participações, carreira, filhos, cachorro e papagaio.
Atenção: uso o "nós" me referindo a uma tendência, à maioria. Sei que algumas pessoas lerão isso e dirão: "Pois eu não." Então, que fique esclarecido.
Além de toda a "exposição da figura" que fazemos questão de manter, usamos aplicativos de conversa instantânea e ficamos obsessivos em obter retorno das mensagens que enviamos. Sem falar naqueles que dariam um dedo ou um rim para obter as senhas do Facebook de seus parceiros. Privacidade tá difícil. E porque a gente quer. É uma onda e estamos todos dentro dela, com a real sensação de que estamos descendo a onda ou dando um cutback. Quando na realidade, podemos estar nos afogando.
A sensação boa da onda vem do vício decorrente de todas essas mídias e aplicativos que tanto nos expõem.
Whatsapp, por exemplo, é hoje um dos maiores exemplos de como algo se torna tão viciante e rapidamente popular: 300 milhões de pessoas usam hoje o whatsapp todo o mês. E há quem diga que ele em si é um mau exemplo, já que viola as leis de segurança, quando acessa todos e quaisquer contatos do seu smartphone.
Tenho ouvido histórias onde caráter e ética ficam em segundo plano quando se trata de whatsapp. Grupos de amigos trocam fotos das garotas que pegaram na balada - fotos estas que, muitas vezes, foram tiradas sem a autorização das mesmas. É claro que a questão aqui não é propriamente whatsapp - este é só uma ferramenta facilitadora que ilustra atitudes muitas vezes questionáveis.
O comportamento contraditório das pessoas ao usar todos esses aplicativos a que me referi é o que mais me chama a atenção. Se vivemos num mundo onde é tudo exposto, escancarado pra todo mundo ver, não há necessidade de controle. Tá tudo ali, ao alcance de todos, certo? Errado. Ao mesmo tempo em que somos monitorados pela nossa própria fraqueza exibicionista, usamos os mesmos instrumentos que nos vitrinizam para controlar quem está à nossa volta, sejam filhos, funcionários ou parceiros.
Casais brigam e se separam cada vez mais por conta de ciúmes do parceiro quando posta ou curte fotos de outros, comenta algum post ou fica muito tempo no chat do Facebook. Ou doWhatsapp.
Escrevemos e esperamos resposta. Se ela não for imediata, adquirimos o vício de ver se a resposta foi visualizada e a que horas. Sim, caminhamos para a privacidade zero. Bebemos rapidamente o nosso próprio veneno.
Whatsapp vem provocando brigas e divórcios em diferentes partes do mundo. E aí eu me pergunto, imaginem se em vez de "last seen" do Whatsapp (que indica a última vez que a pessoa esteve no aplicativo e que já causa tanta confusão) criassem o "last talking to" (que indicaria com quem conversou a última vez)? Teríamos divórcios em dobro e uma impossibilidade generalizada de se manterem relacionamentos saudáveis.
Tolerância zero. Controle 10.
Privacidade zero.
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