Marília Pêra defende compensação financeira ao biografado
Atriz diz considerar “golpe baixíssimo xingar de reacionário aquele que necessita preservar seus sentimentos, seus familiares, a vida privada”, em defesa sobre a lei contra a publicação e biografias não autorizadas
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247 – Em artigo na Folha, a atriz Marília Pêra adere ao polêmico coro de artistas como Roberto Carlos e Caetano Veloso contra a publicação de biografias não autorizadas e defende compensação financeira ao biografado. Leia:
Defender a privacidade não é ser reacionário
Hesitei em opinar sobre esse assunto polêmico!
Depois pensei: por que não?
Liberdade total de expressão é ilusão! Vivenciaremos o paraíso quando acontecer.
Algumas pessoas públicas apreciariam ver suas vidas privadas pesquisadas e publicadas sem autorização e outras, não.
Como garantir a liberdade de todos? Alguém será sacrificado para que outros se sintam livres e felizes usufruindo de seus direitos.
"Quem foi espancado não pode escapar da sabedoria", escreveu Brecht.
Os tímidos devem apanhar primeiro?
Quem tem mais de 50 anos sofreu os tempos da ditadura, da censura, o medo de expressar seus sentimentos. Tive vários espetáculos censurados, fui presa, passei pelos horrores que quase todas as pessoas envolvidas nessa polêmica atual sobre biografias passaram.
Hoje, vivendo numa democracia, é justo que desejemos narrar nossas verdades reprimidas durante anos. Mas a verdade depende da maneira que cada um de nós enxerga e sente um acontecimento.
O biografado, o dono da vida, pode sofrer muito com as verdades narradas, mesmo que os excelentes biógrafos e as pessoas que opinam sejam sinceros e competentes.
Considero golpe baixíssimo xingar de reacionário aquele que necessita preservar seus sentimentos, seus familiares, a vida privada.
A pessoa pública reservada deve pagar, além dos impostos, outro preço pelo sucesso e simular prazer com a invasão de sua privacidade?
Se o biografado está vivo, ou seus descendentes, um acordo financeiro que remunere aquela exposição deve ser tratado antes. Assim não haverá perdedor.
Minha opinião.
O que está publicado nem sempre corresponde ao que está escrito na memória do dono daquela vida.
É criancice chamar de censor o editor que corta palavras para adequar a matéria ao assunto e ao espaço.
Deveríamos discutir mais pacificamente, todos nós que já sofremos tanto e não desejamos receber ou praticar torturas.
Uma discussão delicada!
Já tive cenas, palavras e remunerações cortadas no produto final de um filme, de uma obra de televisão, de entrevistas. Ficaram perdidas. Paciência!
Nos Estados Unidos, há contratos que protegem intérpretes desses cortes. Aqui, não! Aquelas minhas verdades não existirão.
Numa simples entrevista para um órgão de divulgação, o apagar de algumas palavras ou a banal supressão da pergunta do entrevistador pode nublar o sentido de uma frase! Mas, assim será, ainda que depois ocorram esclarecimentos. É muito sutil!
Acredito que em países mais desenvolvidos seja diferente.
No Brasil, a Justiça costuma se arrastar durante anos, impedindo àquele que se sente constrangido um resultado digno em tempo hábil, além de obrigá-lo a custos altíssimos e à perda de um tempo precioso.
Eu me sentiria honrada se fosse biografada por um escritor de talento que mergulhasse na minha história, desde que ele reservasse um espaço para a minha verdade e que dividisse comigo uma parte dos caraminguás que angariasse com minha vida.
Pode ser muito doloroso ver publicadas verdades que não se adaptam à nossa, e ainda sem qualquer compensação financeira.
Para um criminoso, uma biografia não autorizada talvez resulte como uma saída, um escape para seus crimes.
Para um artista honesto, depende!
No tempo da minha humilde família de artistas, pouquíssimos escritores se interessavam pelas vidas deles.
Hoje, quando há foco nesse rico universo, convém discutir sem violência essas diferenças para podermos todos desfrutar plenamente de nossas liberdades.
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