João Paulo Cunha escreve sobre “O Alfaiate de Ulm”
"Lucio Magri foi um militante obstinado e um homem apaixonado. Acreditou no comunismo e na imperiosa tarefa dos trabalhadores organizarem o seu partido", relata o ex-deputado João Paulo Cunha, em nova resenha publicada em seu blog; obra traz "uma possível história do Partido Comunista Italiano" e envolve uma tragédia: Magri se matou quando terminou o livro, para ir ao encontro de sua amada
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247 – Em nova resenha publicada em seu blog, o ex-deputado João Paulo Cunha aborda o livro "O Alfaiate de Ulm – uma possível história do Partido Comunista Italiano". Apesar de pouco abordada na obra, uma tragédia a envolve: quando a mulher de Lucio Magri, o autor, morreu, ele decidiu se matar para ir ao encontro dela. Antes, porém, atendeu a um último pedido da esposa: terminar de escrever o livro que conta sua história, a do movimento comunista no século XX e o papel do PCI.
Eis como João Paulo Cunha descreve Magri: "Ele tenta empurrar a história. Um dia o mundo será daqueles que sonham! Ele sabe que a utopia é o combustível para o motor que empurra essa história. Lucio Magri foi um militante obstinado e um homem apaixonado. Acreditou no comunismo e na imperiosa tarefa dos trabalhadores organizarem o seu partido. Amou sua mulher como a única".
Leia abaixo ou no blog a íntegra da resenha:
O Alfaiate de Ulm
Ele tenta empurrar a história. Um dia o mundo será daqueles que sonham! Ele sabe que a utopia é o combustível para o motor que empurra essa história. Lucio Magri foi um militante obstinado e um homem apaixonado. Acreditou no comunismo e na imperiosa tarefa dos trabalhadores organizarem o seu partido. Amou sua mulher como a única. Quando ela morreu, resolveu se matar para ir ao encontro dela. No entanto, atendeu o último pedido da amada: terminar de escrever o livro que fundi sua própria história (memória e documentos) com o movimento comunista no século XX e o papel do PCI (Partido Comunista Italiano). Terminado o livro, Magri toma um trem, vai à Suíça e se suicida. É enterrado ao lado da mulher que ele tanto amou.
Esse drama pessoal toma pouquíssimas linhas do livro "O Alfaiate de Ulm – uma possível história do Partido Comunista Italiano", de Lucio Magrieditado, pela Boitempo. O fundamental é a visão do autor para um pedaço do percurso do movimento comunista durante o século passado e em particular do Partido Comunista Italiano.
Lucio Magri nasceu em 1932 "e iniciou sua militância política e cultural na juventude católica de esquerda". Entrou para o PCI em 1958 e em 1969, depois de fundar a revista Il Movimento (que era crítica a stalinizaçao do partido expressada naquele momento pela questão da invasão de Praga e as questões internas da União Soviética), foi expulso, organizando em seguida o PdUP (Partido da Unidade Proletária). Carregou duvidas do período: "...nos levou a escolhas políticas precipitadas e nocivas". Voltou ao partido em 1984, a convite de Enrico Berlinguer.
O PCI nasceu em 1921 pelas mãos de Antônio Gramsci, entre outros. Teve um papel fundamental na organização da resistência ao regime fascista, integrando a frente que levou o país a superar aquela dura e triste fase de sua política. Recebeu os companheiros que haviam sido presos e exilados durante o Fascismo. Entre outros, recepcionou Palmiro Togliatti que, rapidamente, se transformou no inconteste líder do movimento comunista Italiano.
O partido chegou a ter dois milhões de filiados e foi referência para o pensamento eurocomunista que se opôs aos métodos stalinistas e à social democracia. "O PCI foi, de modo intermitente e sem levá-la plenamente a cabo, a tentativa mais séria, em certa fase histórica, de abrir caminho para uma terceira via". Ele foi efetivamente um partido de massas e produziu quadros que marcaram, não somente a história da Itália, mas a história do movimento comunista no mundo.
Togliatti, de forma corajosa e mesmo com a desconfiança de Stalin (apesar de sua boa relação com a URSS), e no meio da organização de governos – de frentes - pós-fascista (no caso da Itália) indicou um rumo para o partido: "Não havia contradição entre democracia e socialismo" e que iniciava ali uma "via italiana para o socialismo".
Com a morte de Togliatti, ascende à secretaria geral do Partido (depois de Luigi Longo) Enrico Berlinguer, que detinha muita popularidade. Nesse período o PCI obteve grandes resultados eleitorais e se enraizou fortemente pelo país, além de estar presente em todas as grandes discussões na Itália.
Magri divide a direção política de Berlinguer em duas fases: a primeira foi a tentativa de criar uma frente com as forças populares comunistas e católicas baseadas num compromisso histórico que não deu certo (Como compromissar a Democracia Cristã da época?). A segunda, numa inflexão à esquerda, organizou a alternativa democrática que não obteve ressonância na sociedade italiana (o capitalismo começava a construir a saída neoliberal). Berlinguer não sucumbiu às circunstâncias e, apoiado numa representação de mais de 30% do eleitorado Italiano, reafirmou seu "compromisso histórico" de "não apoiar mais governos que excluíssem o PCI" e organizar "um governo dos honestos". Vale lembrar que o assassinato de Aldo Moro, líder dos Democratas Cristãos, abalou profundamente a Itália e impactou fortemente a política do país pelos anos seguintes. Berlinguer continuou sua pregação, mas foi repentinamente surpreendido pela morte. De líder politico se transformou num mito e deixou um grande vazio na política Italiana.
O livro apresenta um roteiro do que foi o PCI em momentos de decisão (guerras, greves, fascismo, preconceito, fome) e como Lucio Magri enfrentou esses debates, vivendo-os ou glosando com as lutas pretéritas do partido e relendo documentos. Não tem receio de assumir erros de ação ou de omissão ("... participei desses erros e depois tentei vigorosamente corrigi-los"). Concentra sua reflexão no período em que esteve integrado ao partido como filiado, militante e dirigente e constata: "O partido de massas, por razões materiais e culturais, ainda estava longe de ser o "partido novo" que Togliatti propunha e mais distante ainda do "intelectual coletivo" concebido por Gramsci".
O livro contém passagens imprescindíveis. Quando fala do surgimento do sujeito político oriundo do meio dos explorados, vindo do trabalho e com uma flama na mão anunciando que o mundo pode ser diferente daquele em que o capital e o explorador sempre predominaram. Recupera aqui o aparecimento do comunismo e as contribuições que Marx e Lenin deram a história. A esse capítulo Lucio Magri dá o nome de "O fardo do homem comunista". Esse fardo é o peso de militar por uma causa. Não causa vazia, oca, mas causa com gosto de vida, laços de solidariedade, emblemas de gratidão e abraços fraternos. Por isso não é fardo. O peso é a incompreensão, a calúnia e a ingratidão que são outras faces da moeda do militante comunista. Lucio não escreve, mas é preciso lembrar: o comunismo encerrou o século XX derrotado e injustamente, diga-se de passagem, identificado com atrocidades, violência, atraso, burocracia e casta. Terá que se reinventar.
Outra passagem exemplar é a localização do "Genoma de Gramsci" na base do PCI e, poderia acrescentar, em parte do movimento comunista mundial. Além de procedente, Lucio Magri reconhece "que nós, comunistas italianos, temos uma dívida com Antônio Gramsci: nós construímos largamente sobre ele nossa identidade e nossa estratégia...". Também dá o devido reconhecimento para a obra de Gramsci, em particular aos "Cadernos do Cárcere". Ter em Gramsci um farol a dirigir os passos de um partido que pensa o todo, inclusive para além das fronteiras geográficas, é de uma significância enorme e profunda. Esse teórico italiano, comunista desavergonhado, e pensador de passos contemporâneo e olhos no futuro foi um dos precursores das ideias que levaram o PCI a ser o maior partido comunista do Ocidente.
Vale também, pela imprescindibilidade, ver a parte denominada "Uma nova identidade comunista", de 1987, que Lucio Magri, não como visão premonitória, mas com análise apurada da conjuntura, anteviu o chacoalhão que o mundo tomaria com a ascensão de governos conservadores pelo mundo afora e com a implantação de políticas de caráter neoliberais que fariam o peso da crise recair sobre os ombros dos trabalhadores.
É de anotar as observações do autor sobre a relação do PCI com a URSS, que foi sempre tensa. Havia admiração e reconhecimento, mas havia também um desejo de temperar as avaliações provenientes do comitê central soviético com a realidade italiana. Lado outro, o Partido acompanhava com muita atenção o desenvolvimento da China. Percebiam as peculiaridades no comunismo chinês que os atiçavam a trilhar um caminho quase próprio, entretanto não conseguiram como a maioria do mundo não conseguiu enxergar o que viria a ser a economia chinesa e seu estado nacional e o próprio Partido Comunista Chinês.
Lucio pontua com clareza a chegada do neoliberalismo e a falta de preparo dos comunistas e aliados para enfrentar esse debate. O Neoliberalismo foi se estruturando e não houve nem grandes mobilizações no mundo, nem na Itália, e do ponto de vista teórico não ofereceram alternativas aos pobres e trabalhadores que foram as primeiras vítimas da política neoliberal. Observando a marcha inexorável para o desaparecimento do partido e vendo o ressurgimento do capitalismo em novas roupagens e a queda abrupta do império soviético e seus apoiadores, ele resignou-se e definiu a guerra fria: "Em suma, a Guerra Fria atravessou todo o "breve século" [expressão cravada por Eric Hobsbawm] e só terminou quando um dos competidores se dissolveu, em 1989".
O dirigente insere o movimento neoliberal da década de 80 como mais uma superação do capitalismo em direção e na defesa de seus interesses. Assim como na crise de 1930 e no pós-guerra o capitalismo mundial soube definir uma nova base de acumulação, fazer sua nova divisão internacional do trabalho e criar novas políticas de desenvolvimento - via Estado e via privado - para não sucumbir às alternativas de esquerda que brotavam pelo mundo afora. Lucio Magri lembra com tristeza a ausência e em outros casos o papel secundário que a URSS teve nesses acontecimentos.
O militante Lucio Magri lembrava a afirmativa, quase conceitual de Togliatti, para a construção de um PCI como via democrática para o socialismo: "No centro da nova estratégia estava o nexo entre revolução e reformas, autonomia e unidade, conflito social e política institucional, como um longo processo, um avanço por etapas, ligadas cada qual a uma fase historicamente determinada de uma história nacional específica, mas explicitamente animada por uma finalidade precisa e de longo prazo".
O fim ficou próximo. Achille Occhetto, Secretário Geral na ocasião, ficou tonto com os tijolos que voaram sobre sua cabeça vindos de Berlim e anunciou, ainda em 1989, o fim do PCI e a construção do Partido Democrático da Esquerda, posteriormente chamado de Democratas de Esquerda. Os dissidentes formaram o PRC – Partido da Refundação Comunista. A morte do sonho do grande partido comunista da Itália estava decretada e consolidou no 20º congresso, em fevereiro de 91.
Incapaz de enfrentar os acontecimentos na União Soviética e no leste Europeu e sem compreender a extensão do neoliberalismo que assolava grande parte do mundo, o Partido Comunista Italiano, que vinha de uma experiência exitosa e surpreendentemente de massa, deixou se impressionar pelo derradeiro suspiro dos estados socialistas e sem as cabeças de outrora foi arrastado para o fim.
É preciso acreditar que as experiências e a possibilidade de desenvolvimento dos homens são infinitas e dispostas no tempo. Como a história de Ulm (pequena cidade Alemã), que pela sensibilidade de Bertolt Brecht virou um poema curto com uma história profunda: um alfaiate com apetrechos pendurados nos braços anunciou na cidade que poderia voar. O Bispo duvidou. "Isso é para os pássaros. O homem nunca voará". Contudo, tente. O homem subiu na torre da igreja e pulou. Estatelou-se no chão. O Bispo comemorou: "Mandem tocar os sinos, foi uma mentira deslavada." E repetiu: "Isso é para os pássaros. O homem nunca voará".
Mal sabia o pobre Bispo que o tempo faria os homens cruzarem os continentes com potentes máquinas voadoras. É assim a história! Com essa metáfora, Pietro Ingrao, que liderava a banda esquerda do PCI, ao lado de Lucio Magri, encaminhou a proposta contra a extinção do PCI e a retirada do "comunista" do nome do partido. Perdeu!
A luta é assim: amanhã "Mesmo que uns não queiram/ Será de outros que esperam/ Ver o dia raiar"
João Paulo Cunha
Out/2014
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