João Paulo Cunha e “a beleza de Cyrano”
Em nova resenha, sobre livro que encontrou "fuçando na biblioteca da Papuda", ex-deputado fala sobre a peça de teatro escrita em 1897 pelo francês Edmond Rostand; "A peça apresenta uma reflexão importante sobre o conceito de beleza. Afinal, o que é belo? É o visível, o concreto, o real? O belo está contido na beleza? Não sei. A beleza tem gosto e irrespondíveis motivações", escreve Cunha; leia a íntegra
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247 - A nova resenha de João Paulo Cunha é sobre a obra Cyrano, do francês Edmond Rostand, que encontrou, como relata, "fuçando na biblioteca da Papuda". "A peça apresenta uma reflexão importante sobre o conceito de beleza. Afinal, o que é belo? É o visível, o concreto, o real? O belo está contido na beleza? Não sei. A beleza tem gosto e irrespondíveis motivações", diz o ex-deputado. Leia abaixo o texto publicado em seu blog:
A beleza de Cyrano
Há textos que se eternizam e personagens que se imortalizam. Os anos passam, os homens nascem, morrem e esses textos e esses personagens vão adquirindo a vida de seu tempo. Por isso que a boa dramaturgia é uma arte atemporal.
Fuçando na biblioteca da Papuda (Complexo Penitenciário de Brasília), encontrei o livro Cyrano de Bergerac, peça teatral de Edmond Rostan adaptado em português por Rubem Alves, da editora Scipione, da série Reencontro. Li com prazer, lembrando da minha juventude quando, além de ler, tive a oportunidade de assistir uma montagem deste texto.
Lembrei também que tinha lá em casa o livro da mesma peça traduzido livremente por Ferreira Gullar e editado pela José Olympio. Reli com os olhos pendurados no vigor da juventude. Os versos (o texto original são dodecassílabos) despregam da boca com um grande prazer.
Cyrano de Bergerac já foi encenada milhares de vezes pelo mundo afora. Nasceu na França, no século XIX e peregrinou por todos os continentes, refletindo sobre a beleza e as razões do amor. Chega ao século XXI atualíssima.
A peça apresenta uma reflexão importante sobre o conceito de beleza. Afinal, o que é belo? É o visível, o concreto, o real? O belo está contido na beleza? Não sei. A beleza tem gosto e irrespondíveis motivações. Ela cavouca o subjetivo. Ela é mais anímica! O belo é corpo. Pela passagem vale a desmistificação de tudo que é belo é do bem e tudo que é feio é do mal. Combinamos assim: nem uma coisa nem a outra.
Esse tema, perpassando quase todas as cenas, traz outro olhar na reflexão: o que desperta mais a atração, a beleza física ou a beleza interior? ("...eu o amei apenas pela sua aparência. Depois, eu passei a amá-lo principalmente pelo seu espírito").
Cyrano é um valente guerreiro, poeta ("A carta é sincera, dela exala\ um sentimento verdadeiro, o poeta\ quanto mais finge mais sincero fala") e apaixonado por sua prima Roxana. Entretanto, não consegue se declarar. Uma das razoes de sua timidez é sua feiura expressa num grande nariz pregado em sua cara que o deixa constantemente em crise ("É, eu tenho experimentado horas em que me sinto desprezado por ser tão feio"). As provocações sofridas sempre o levam a arrumar confusão, pois não carrega para a casa o desaforo de ser chamado de narigudo.
Entretanto, sua beleza e seus sentimentos expressos nos escritos e nas declamações mostram um homem completamente apaixonado e que busca o amor, que é sua razão de viver.
Roxana, sem saber do amor de Cyrano (seu primo), se apaixona pelo lindo cadete Cristiano, que serve no mesmo batalhão de Cyrano. Contudo, a beleza de Cristiano não alcança seus discursos ("Não, por favor, não saberei falar-lhe! Não falo bem e não queria dar-lhe uma impressão ruim. Não custa nada ajudar-me") nem seus escritos. Sequer consegue escrever uma carta de amor para sua amada ("Escrever-lhe. É a crua verdade. Se me mostro como sou, estou perdido").
Porém, buscando a felicidade da prima que ele tanto amou e se despindo do ciúme e da possessão, Cyrano ajuda Cristiano a conquistar definitivamente Roxana. Quer fazê-la feliz!
Uma bela cena é quando Cristiano vai à janela de Roxana se declarar, mas as palavras não saem. Cyrano, na escuridão da noite e escondido entre arbustos, ajuda Cristiano a declamar belas mensagens à Roxana, levando Roxana a ficar completamente apaixonada por Cristiano. Essa experiência levaria Cyrano a carregar para sempre o sentimento de que "fiquei sempre na sombra a inspirar os que colheram o beijo da vitória".
Ronda a vida de Roxana um homem poderoso, conde De Guiche, que tenta conquistá-la para o casamento. Mas ajudada por Cyrano, ela consegue se desvencilhar desse poderoso e se entrega ao espadachim Cristiano e, de forma rápida, se casam.
Sem tempo para as núpcias, Cristiano é convocado para a guerra no mesmo regimento de Cyrano. Roxana, preocupada com a sorte do marido, resolve pedir a Cyrano que proteja o marido, que não o deixe em perigo e que durante a guerra o marido deveria escrever uma carta a ela por dia. Apesar de condicionar as proteções pedidas, o ato de escrever fez Cyrano ser imediato: "Isso eu prometo". E os dois (Cyrano e Cristiano) vão para a guerra.
No campo de batalha, Cyrano, para cumprir a promessa de escrever sempre para Roxana, se arrisca a ir até a caixa de correio colocar a carta que ele mesmo escrevia em nome de Cristiano. A cada carta que Roxana recebia aumentava a paixão por Cristiano, a quem ela imagina ser o autor das belas palavras juntadas em carta.
Sua paixão é tão avassaladora que ela rompe as barreiras da guerra e vai até a frente de batalha dizer a Cristiano que ela o ama. No entanto, Cristiano, atormentado com a mentira, sofre angustiadamente e num descuido acaba sendo morto por um inimigo de guerra. Num belo diálogo entre Cristiano e Cyrano, ambos se mostram verdadeiros. Cristiano: "Ah, se eu fosse um poeta...". Cyrano: "Ah, se eu tivesse a sua aparência...".
Encerrada a guerra e enterrado Cristiano, Roxana, agora viúva, se interna num convento. Cyrano, cabisbaixo e triste, anda pela cidade desconsolado ("Agora é o abandono e a miséria ...fome e solidão"), e passa a visitar semanalmente Roxana ("ele vem todo sábado... isso já vai para quatorze anos").
Entretanto, o destino reservava a ele uma triste surpresa. Ao passar por uma rua cai em sua cabeça uma viga de madeira e o fere muito. Agonizando, faz a última visita à mulher que tanto amou. E por vias despretensiosas, ao ler a carta que Cristiano havia deixado para Roxana, esta percebe pela entonação da voz na leitura que ele, Cyrano, é o verdadeiro autor das cartas escritas ao longo do tempo. Assim, ela declara seu amor por Cyrano que ainda encontra fôlego para dizer: "Não se luta apenas para vencer". E exalta seu desempenho combatendo o "preconceito, a hipocrisia, a covardia, a corrupção, a venalidade, a mediocridade" e que na vida "foi tudo e não foi nada" e que passaria para a eternidade clamando: "Lamento não ter tido melhor sorte...Falhei em tudo, até na minha morte!"
Cyrano de Bergerac em encenação é tão belo quanto o livro.
João Paulo Cunha
Março – Setembro\2014
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