'As veias abertas de Galeano se confundem com as da América Latina'
Colunista do 247 Washington Araújo, escreve sobre Eduardo Galeano, quem, como diz, muito lhe ensinou; "Entendo muito bem a bronca do pensamento conservador e quase sempre reacionário dos que se pretendem sumidades na seara econômica. Para estes o livro maior de Galeano é, no mínimo, simplório"
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Por Washington Araújo, para o 247
Tinha 74 anos de amor à justiça e à liberdade e 1844 anos de memórias capazes de incendiar o mundo. Sai a passeio pelos campos do Senhor esse uruguaio delirante, apaixonando que distribuiu generosamente causas as quais se poderia dedicar a vida. Seu pensamento afiado, libertário, calejado e teimoso fincaram raízes profundas em nossas melhores utopias, como a nos recordar de uma vez por todas: 'Sim, um outro mundo é possível sim!'
Em um dia qualquer em Montevidéu, ele se definiu com esses contornos:
"Eu nasci e cresci debaixo das esterelas do Cruzeiro do Sul. Aonde quer que eu vá, elas me perseguem. Debaixo do Cruzeiro do Sul, cruz de fulgores, vou vivendo as estações de meu destino. Não tenho nenhum deus. Se tivesse, pediria a ele que não me deixe chegar a morte: ainda não. Falta muito o que andar. Existem luas para as quais ainda não lati e sois nos quais ainda não me incendiei. Ainda não mergulhei em todos os mares deste mundo, que dizem que são sete, nem em todos os rios do Paraíso, que dizem que são quatro. Em Montevidéu, existe um menino que explica: — Eu não quero morrer nunca, porque quero brincar sempre."
Eduardo disse ter gostado muito meu livro "Cuba cantando em lágrima viva". Eram os relatos de uma das três viagens que fiz a Havana nos anos 1990. Foi quando lhe disse que aquele livro nascera de uma costela daquelas suas "veias abertas da América Latina".
Entendo muito bem a bronca do pensamento conservador e quase sempre reacionário dos que se pretendem sumidades na seara econômica. Para estes o livro maior de Galeano é, no mínimo, simplório. Mas é claro que é simplório quando têm diante dos olhos texto seminal que fulmina de morte suas verdades vãs, quando lhes coloca um travo amargo de sal na garganta, e de forma categórica quando lhes apresenta o lado B da História - uma história que se passa não pela ótica do explorador, mas antes, na visão dos explorados da Terra.
Depois da queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, é fato que o pensamento de esquerda precisou ser reavaliado e as utopias redefinidas. E, talvez por isso mesmo, o livro As veias abertas da América Latina, lançado em 1971, época em que a América Latina esteve envolto em espessas brumas de longevas tiranias militares, tenha perdido parte de seu frescor e sabor.
Publicado em uma época de difícil esquecimento e em que a cidadania nada mais representava que servidão ao pensamento único ditado pelo opressor, o livro de Galeano continua atual, melhor, atualíssimo, pois sinaliza para o mundo que precisamos urgentemente construir, tijolo a tijolo, palmo a palmo.
Mas, queiram ou não os comentaristas de aluguel e seus aprendizes de economia, a verdade é que este livro permanece muito vivo em seu principal apelo – o da dignidade humana. Porque sua motivação original ultrapassa em muito os carcomidos cânones historiográficos e econômicos que têm dominado a maior parte de nossa História. E continuarão essas veias abertas pelo simples fato que ainda não chegamos àquele momento em que a História possa ser escrita pelos sofridos da Terra.
Eduardo Galeano muito me ensinou. E dentre as lições que sempre incendiarão minha memória encontram-se estas:
1. Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.
2. São muitos os cidadãos que perdem a opinião por falta de uso.
3. Devemos tomar consciência que os direitos da natureza e os direitos humanos, são dois nomes da mesma dignidade. E qualquer contradição é artificial
4. Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me diz que somos feitos de histórias.
5. Jesus escolheu, para nascer, um deserto subtropical onde jamais nevou, mas a neve se converteu num símbolo universal do Natal desde que a Europa decidiu europeizar Jesus. O nascimento de Jesus é, hoje em dia, o negócio que mais dinheiro dá aos mercadores que Jesus tinha expulsado do templo.
6. Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Pai, me ensina a olhar!
7. Hoje as torturas são chamadas de "procedimento legal", a traição se chama "realismo", o oportunismo se chama "pragmatismo", o imperialismo se chama "globalização" e as vítimas do imperialismo se chamam "países em via de desenvolvimento" . O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo.As palavras já não dizem o que dizem ou não sabemos o que dizem.
8. Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, sacaneados e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
9. A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
* * *
Descanse em paz, Eduardo.
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