A saudade
Considerada uma das palavras mais difíceis do mundo de se traduzir, ela expressa um sentimento tão comum a todos os povos e tipos de gente que dá pra entender bem o seu uso quase frenético
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Chega de saudade.
Chega? Não sei.
Pelo número de músicas brasileiras com essa palavra, acho que não vai chegar nunca.
A palavra saudade é uma espécie de patrimônio linguístico de quem fala português: ela está para estes falantes da língua assim como o Cristo Redentor está para os cariocas. É considerada uma das palavras mais difíceis de se traduzir, do mundo. E expressa um sentimento tão comum a todos os povos e tipos de gente que dá pra entender bem o seu uso quase frenético.
Saudades pode abrir conversa em chats bem como fechar. Muitas vezes é usada numa versão reduzida - "sdds" - na internet, como se com ela marcássemos um território afetivo qualquer.
Quem não sente saudade? Se não sente, deveria sentir. Na dose certa, faz bem à saúde.
Há pouco tempo li que cultivar memórias de coisas que não se têm mais ou de pessoas que não estão por perto, pode ser benéfico no combate ao mal de Alzheimer. Sendo assim, saudade pode ser saúde também. Sem culpa.
De vez em quando me emociono de saudades. Lembro-me, por exemplo, de uma fase que já passou, com alguém com quem já não convivo mais, em um lugar que já não frequento mais ou fazendo algo que já não faço mais. E imediatamente me pergunto: será que estou assim porque quero tudo de volta no meu presente? Não, não é isso. Saudade é um sentimento tão carregado de emoção e paixão que fazemos um bocado de confusão.
Sentimos saudade da gente mesmo. Sentimos saudade do que sentíamos naquele passado ou de como éramos. O tempo é algo inexorável, incorruptível, inegável: ele chega e te dá a noção perfeita da irreversibilidade, da irrecuperabilidade. Por isso a saudade se torna algo tão ou mais forte do que estarmos apaixonados. Trata-se de querermos a nós mesmos de volta.
Lembrar, por exemplo, de uma relação amorosa, sem rejeitar essa memória como algo negativo ou impensável, não significa que você queira aquele relacionamento ou aquela pessoa de volta. Significa, sim, que você sentiu saudade da sua felicidade, de como você era e agia. Você sente falta do que o tempo já tratou de tirar de suas possibilidades efetivas. Mesmo que você repita tudo o que já fez, não vai ser a mesma coisa, pois o tempo é outro. E você já mudou com o passar do tempo.
Saudade de gente que está longe é também sentir falta de você mesmo, de como você fica quando uma determinada pessoa está perto de você. A saudade dói e a falta maltrata a gente.
Sentimos falta de pessoas de maneira tão intensa às vezes, que chegamos a achar que não poderemos mais experimentar nada de bom sem elas. Se essas pessoas já estão mortas, a saudade se torna irreversível. Mas ainda podemos reverter a dor trazida por ela, ao nos lembrarmos de queridos e queridas que já se foram. É transformar saudade em prazer - tarefa árdua, mas não impossível.
Se a saudade for de pessoas vivas, o sentimento é menos avassalador: sempre há, em tese, a possibilidade de se estar próximo delas!
Nos dias de hoje então, não há saudade que resista tão forte a um e-mail, a diferentes messengers (como o chat do Facebook ou whatsapp) ou a um skype. Se você se despede de alguém ontem, provavelmente hoje, do outro lado do mundo, ela já fala de seu dia com você. As pessoas se sentem mais próximas com tantos meios e aplicativos. E com isso, aparentemente, temos menos saudade.
Mas se, com tudo isso, a saudade for a mesma, não se preocupe: os sintomas da saudade, como canta Marisa Monte, "não são prejudiciais à saúde".
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