A liberdade sem preço da cultura Prozac
Todo mundo quer o bônus da liberdade, ninguém quer perder nada. O efeito Prozac se prolongou além das fronteiras patológicas. Todo mundo quer ser feliz rápido e sempre
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A liberdade é objeto de desejo de quase todos os seres pensantes. Todo mundo quer ser livre. Mesmo sem saber o tamanho disso na sua existência.
Todo mundo quer o bônus da liberdade, ninguém quer perder nada. O efeito Prozac se prolongou além das fronteiras patológicas. Todo mundo quer ser feliz rápido e sempre.
Não há mais espaço pra melancolia, pra perda ou sofrimento. A gente sofre clandestinamente, sem se sentir legitimado a sentir tal dor.
Hoje me sinto culpada por me sentir triste ou deprimida. A Fadinha Prozac de sorriso fake fica no meu ombro me compelindo a ir pra rua, produzir endorfina, rir, beber e me divertir. Sempre livre. Sempre alegre e pronta a barbarizar com a minha pseudoliberdade.
O mundo, hoje, não aceita o ônus, só o bônus. Ninguém quer o lado ruim, o reverso, a contrapartida. Ninguém jamais quis. Só se quer partir, chegar. Felicidade plena é o que se almejou sempre. Mas me parece óbvio que o percurso das rosas não flui sem os espinhos.
Aliás, acho até que a rosa seria menos rosa e menos linda sem seus espinhos. Há uma estética no percalço, no ônus do bônus.
Minha sensação hoje é a de que a tecnologia da modernidade nos trouxe uns óculos monocromáticos e só enxergamos o que está na superfície, o que vem fácil. Sinto-me às vezes no meio de uma legião formada pela alegria instantânea e felicidade fútil. Não se pode perder nada. Aqui onde queremos estar, não há estresse, sacrifícios ou perdas.
Queremos trabalhar, mas no que gostamos muito para chegar logo aonde queremos. Nada de ter que provar que somos bons. Nada de muito esforço pra chegar lá.
Queremos flerte, sedução e sexo, mas nada que atrapalhe muito a nossa liberdade (antes de qualquer crítica, quero dizer que se trata de autocrítica!). Queremos o bônus de um relacionamento, mas não o ônus, pois a "liberdade" faz-se necessária. Afinal, os estímulos são muitos: não podemos perder nada!
Queremos filhos, mas só com muitas condições materiais, muitas babás e infraestrutura total, senão é muita ralação. Não dá pra acordar tanto de noite e cansar tanto de dia. Podemos até ficar sem filhos, pois é muito trampo, muita não-liberdade. O que digo não tem juízo de valor, é apenas uma constatação. Irônica, mas constatação.
Bônus sem ônus. Liberdade sem precificação. Felicidade absoluta e rápida, sem pedágio. Sem dor. Aparentemente a filosofia prozac de vida funciona. Mas continuo desconfiando das lentes dos óculos a que me referi acima. Essa liberdade de prazeres e alegrias pleiteada hoje, não dá completude. É ilusão de ótica. E se não há ônus aparente em todos esses ganhos, cuidado. Talvez seja hora de tirar os óculos da contemporaneidade e dar um mergulho profundo na sua existência.
Não se pode ter tudo. Perder liberdade é ganhar também. Liberdade pode ser o contrário de se querer um cardápio amplo de escolhas.
Para os estoicos, a liberdade acontece com o desapego. Enfim, liberdade é cara e seu preço não pode ser o mesmo de uma caixa de Prozac. Se para Sartre, somos condenados a ser livres, transformemos essa condenação em algo que faça esse ônus valer o bônus.
Ou vice-versa.
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