A apostasia de Caetano Veloso

A mudança da visão sobre o liberalismo por parte do cantor e compositor Caetano Veloso se deve, em grande medida, à leitura das obras do filósofo e historiador Domenico Losurdo (1941-2018). Segundo Caetano, o historiador pernambucano Jones Manoel foi quem o apresentou aos livros do autor italiano

Caetano Veloso e Jones Manoel
Caetano Veloso e Jones Manoel (Foto: Mídia NINJA | Reprodução)


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Red - No dia 5 de setembro, Caetano Veloso, em entrevista a Pedro Bial no programa “Conversa com Bial”, fez uma declaração que gerou polêmica nas redes sociais. O cantor baiano disse que, depois de quase toda uma vida, não se considera mais defensor do liberalismo. Aqui, é importante deixar claro que o liberalismo a que se refere Caetano é aquele que, segundo os defensores dessa ideologia, promoveria as liberdades individual, econômica e política frente ao poder estatal.

Caetano disse que esse processo – de abandonar o liberalismo – se deveu, em grande medida, à leitura de alguns livros do filósofo e historiador italiano Domenico Losurdo (1941-2018). Em especial, ele se referia a um livro – Contra-História do Liberalismo, publicado pela Editora Ideias e Letras – no qual o autor demonstra que essa ideologia é marcada, desde suas origens, pela defesa da liberdade, mas da liberdade apenas para homens, brancos e proprietários de escravos e dos meios de produção. Seus principais teóricos – entre os quais se destacam John Locke, John Stuart Mill, Jeremy Bentham e Alexis de Tocqueville – eram apologistas da escravidão, do racismo, do colonialismo e do genocídio.

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Na entrevista, Caetano explicou que conheceu a obra de Losurdo por intermédio de Jones Manoel, um jovem historiador e educador popular pernambucano. Depois de assistir a alguns vídeos do canal de Jones no YouTube, convidou-o para uma entrevista no Mídia Ninja. Durante a conversa, mais uma vez, ouviu Jones explicar a importância de se ler, além de Losurdo, Frantz Fanon, o psiquiatra e pensador marxista martiniquense, autor de Os Condenados da Terra, da Editora UFJF, que foi figura de proa na luta anticolonial da Argélia.

Caetano seguiu a sugestão de Jones e foi atrás dos livros de Losurdo. Convencido pela argumentação do autor italiano referente à verdadeira hagiografia que se faz do liberalismo, que deixa de lado inúmeros fatos desabonadores na história dessa ideologia, santificando-a, o compositor baiano chegou a conclusão de que não poderia mais seguir pela mesma vereda.

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Essa mudança de opinião foi anunciada durante a entrevista a Bial. Aos 78 anos, Caetano Veloso declarou ter revisto sua visão de mundo. Guardadas as devidas proporções, seria como se o Papa, do alto da Basílica de São Pedro, declarasse urbi et orbi que não acredita mais em deus. Ou, numa analogia futebolística, seria como se alguém, depois de décadas torcendo para um time, passasse a torcer pelo maior rival.

Imediatamente, houve uma grita por parte dos liberais. As acusações eram de ser apologista de Stalin para baixo. Mas o que estaria incomodando tanto os defensores do 1%?

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O que preocupa os liberais é que Caetano Veloso mudou sua visão de mundo no sentido contrário ao da ideologia dominante. E isso, para eles, é inaceitável. É inaceitável porque: a) Caetano Veloso, uma figura pública de enorme destaque no Brasil, além de ser reconhecido internacionalmente, questionou, na principal emissora da TV aberta do país, valores que, para o 1% (e seus defensores), deveriam ser inquestionáveis; e b) Além de seu prestígio artístico e intelectual, Caetano faz parte do 1% e está tornando público seu abandono do dogma liberal.

Imediatamente, a luz vermelha acendeu entre os liberais porque, após a entrevista, abriram-se as comportas: não há nada que impeça que muitos dos milhões de fãs do compositor procurem se informar diretamente sobre Domenico Losurdo, o livro Contra-História do Liberalismo e o jovem Jones Manoel. O medo entre os apologistas do 1% é que muitos desses fãs, que em sua maioria esmagadora fazem parte dos 99%, possam deixar de lado o preconceito alimentado pelo senso comum e passem a questionar as próprias convicções liberais, como fez Caetano ao anunciar publicamente sua apostasia.

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Outro ponto que também contrariou sobremaneira os defensores do liberalismo foi o fato de Caetano ter dito que não engole mais a “teoria da ferradura”, que tenta, distorcendo os fatos e a história, igualar o comunismo ao nazismo. Foi visível o desconforto sentido por Pedro Bial, ao ouvir Caetano declarar: “Vou ser mil por cento sincero com você. Quando ouço pessoas como você e outras dizendo: ‘O comunismo e o nazismo são igualmente horríveis, são autoritarismo.’ Essa equalização das [experiências] socialistas com o nazismo eu não engulo mais como eu engolia. Eu não gosto mais. ‘A extrema esquerda é igual à extrema direita.’ Eu não acho mais. Não consigo.”

Não custa nada lembrar que a população da União Soviética e o Exército Vermelho, sob o comando de Stalin (sim, do próprio bicho-papão!), foram não apenas as maiores vítimas do nazismo, mas os maiores responsáveis pela derrota desse sistema genocida, racista e neocolonial. Sistema esse que, desde sua gênese, mergulhou de cabeça nas águas turvas do liberalismo, tendo sido por este recebido de braços abertos, e sempre nutriu ódio visceral em relação ao socialismo.

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Como, para os seguidores da cartilha liberal, os fins justificam os meios, e como não dá para esconder a força da mensagem, como sempre, atacam o mensageiro: desde a veiculação do programa, Jones Manoel tem sido alvo de calúnias, insinuações e vitupérios por parte de liberais anticomunistas, sejam eles da esquerda ou da direita, na academia e na imprensa. Os absurdos são tantos que se chegou a questionar até o fato de ele morar com a mãe. Como se isso fosse algo condenável.

O problema, para os liberais, é que o jovem pernambucano, além de ter muita fibra, é excelente no debate e não tem medo nem de cara feia nem de argumentação falaciosa. A estratégia dos liberais pode ter se tornado um verdadeiro tiro pela culatra. Certamente, mais e mais pessoas terão interesse em saber quem é esse rapaz que – como se dizia antigamente – foi responsável por “fazer a cabeça” de Caetano, no sentido de mostrar, por meio de argumentações convincentes, a importância de se ler Domenico Losurdo [e Frantz Fanon!]. 

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Ao fazer esse anúncio, Caetano pode ter tirado o véu que ainda encobria os olhos de muita gente. E pode ter plantado a semente da dúvida na cabeça de muitos. Isso é o que mais incomoda os liberais. E é por esse motivo que eles precisam matar essa semente que acabou de ser plantada. Antes que possa germinar. Só que o gênio já saiu da garrafa. E, em alguma medida, ao atacarem Caetano e Jones Manoel, eles mesmos contribuíram para aumentar o alcance da mensagem de Losurdo.

Fazendo coro com Jones Manoel e – imagino – Caetano Veloso, digo: “Leiam Losurdo!”

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