Brasil fez "aposta suicida" de que nova onda não aconteceria, diz epidemologista de Harvard

O epidemologista Antônio Lima Silva Neto condenou o negacionismo do governo Bolsonaro, que, segundo ele, levou à adoção da estratégia da imunidade de rebanho. Ele ainda condenou a lentidão na compra de vacinas e previu o aumento na mortalidade da Covid-19

Pessoas com máscaras faciais caminham em rua de comércio popular em São Paulo 15/07/2020
Pessoas com máscaras faciais caminham em rua de comércio popular em São Paulo 15/07/2020 (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)


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247 - Pós-doutor na Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e professor e pesquisador da Unifor (Universidade de Fortaleza), o epidemiologista Antônio Lima Silva Neto condenou o gerenciamento do governo Bolsonaro da pandemia da Covid-19, afirmando que, ao invés de seguir a ciência, foi preferido um caminho negacionista e que aposta na imunidade de rebanho, mesmo que isso custe milhares de vidas.

Em entrevista ao Uol, o médico afirma que, enquanto devia se preparar para a aquisição de vacinas para conter a segunda onda, o governo apostou que isso jamais aconteceria.

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"O que a gente sofreu foi uma primeira onda com lapsos temporais: começou primeiro no Norte, no Amazonas, Pará; depois veio Nordeste, com Ceará e Pernambuco; além de São Paulo e Rio. A onda foi maior em alguns lugares e teve um lapso temporal, aconteceu em menor intensidade no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. E depois a gente teve uma relativa queda de casos, e você tinha que se preparar para a aquisição de vacinas. Mas a gente fez uma aposta suicida de que isso não aconteceria e virou um grande celeiro de variantes, de produção de casos em escala enorme. Essa segunda onda começou a se desenhar em outubro e novembro, praticamente em todos os estados brasileiros. Não é nada não previsto", diz.

Além da falta de vacinas, o negacionismo do governo federal levou à adoção da estratégia de rebanho: "O principal que considero foi o governo federal —que, em todos os países, é o responsável por coordenar a resposta à pandemia— adotar o negacionismo. Isso não estava previsto no início: você começou ali com [o ministro da Saúde, Luiz] Mandetta e uma boa equipe, que estavam antenados com as agências multilaterais, seguindo as evidências. Mas isso foi quebrado. Nós entramos no discurso que ecoava do [então presidente americano Donald] Trump naquele momento, que era o discurso do tratar, não de prevenir; de deixar o vírus mais solto para se adquirir uma imunidade de rebanho à força, mesmo que ao custo de milhares de vidas".

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Silva Neto ainda analisou a conjuntura da pandemia no Brasil com pessimismo, prevendo que a mortalidade do coronavírus ainda vai se estender.

"Eu vejo uma dificuldade para calcular isso. Quando o vírus circula em meio a uma vacinação muito lenta, você facilita o surgimento de eventuais novas variantes. E existe uma questão: você vê UTIs [unidades de terapia intensiva] lotadas no Brasil inteiro, então nós vamos ter um período de alta mortalidade. Se você calcula que dois terços dos pacientes internados em UTI —às vezes mais, às vezes menos— podem morrer, você sabe que essa alta mortalidade vai se estender. Não é uma previsão, isso é óbvio porque as estão internadas", afirma o epidemologista.

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